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Heroína de domingo

por Zilda Cardoso, em 08.11.13

Sinto-me uma espécie de heroína-de-domingo-de-sol.

Realizei tantas coisas, aconteceram outras tantas. Todas de importância transcendente, experimentei-as com emoção.

Vi os maratonistas de fim-de-semana numa rusga muito colorida passarem a meu lado na avenida Brasil, com o único fim de correrem 42 km. Posso dizer que iam suados e entusiasmados até mais não.

Eram de idades muito variadas, caminhavam mais depressa ou devagar, decerto conforme a sua estratégia e as próprias capacidades físicas. De vez em quando, alguém batia palmas – era um seu conhecido que se atrevia a correr lado a lado com os mais corajosos.

Como de costume ia a minha amiga muito animada, chamando-me e acenando para mim e eu para ela, eu achando-a magríssima, ela conseguindo reconhecer-me com aquele chapéu ridículo e os enormes óculos quadrangulares.

No passeio, encontrei-me com o arquitecto da Escola do Porto, meu favorito e amável, surfista e tudo, que talvez arranje solução para o meu problema da falta de internet há três semanas. Mudando de sistema e de servidor, se é que eu sei o que estou a dizer.

E voltei para casa. Subi aquela rua toda, devo ter feito um décimo de maratona. Foi alguma coisa!

No lar, liguei o televisor e vi e ouvi o Papa Francisco falar às famílias reunidas no Vaticano e às outras. É um grande comunicador este Papa, as suas mensagens são simples, directas, irradiantes, fazem efeito. Ele é alegre, sabe adaptar-se às circunstâncias, diz-se um pouco ingénuo e um pouco astuto. Comoveu-me.

Ao ouvi-lo falar dos avós e do seu papel nas famílias, de como devem ser acarinhados e considerados e consultados porque cheios de sabedoria, desatei num pranto infindável. E continuei comovida durante várias horas seguintes.

Fiz o almoço, almocei. Cozi castanhas como sobremesa, castanhas enormes da Quinta do Casal, comi feijoas muito bem cheirosas, escrevi uma pequena crónica, apanhei sol na varanda, tirei fotografias, corrigi o escrito sobre o minúsculo beijinho, fiz telefonemas importantes, respondi a outros e saí para Serralves.

Havia extravagantes exposições de arte contemporânea e gigantescas instalações pertencentes ao acervo da Fundação, penso que algumas nunca tinham sido expostas.

Não vi o trabalho de dimensões colossais de Cildo Meireles, “Nós, formigas”, materializado no Parque; irei no dia 15 para a visita guiada e depois falamos.

A exposição de Ahlam Shibli, um palestiniano que fala da violência que é a perda de um lar, é particularmente estranha e muito expressiva. Há naquela sala um curiosíssimo cheiro que deve fazer parte do evento!

Tomei chá de pé porque não havia onde sentar e regressei sem acabar o chá pelo qual dei um dinheirão, mas não podia mais estar na vertical a ver pessoas - uma pessoa eternamente sentada em cada mesa - que diziam estar o lugar ao seu lado ocupado, a mesa ocupada. E depois vem alguém (e eu de costas) que toma um café nessa mesa lado a lado com quem lá estava esperando, (um café… dois minutos…), e desaparece sem eu ver, é um requinte de solidariedade.

Em casa, encontrei na garagem um carro estacionado fora de qualquer lugar permitido, com os piscas a funcionar amavelmente, obrigou-me a fazer uma manobra complicada. Afinal sou perita, pensei com inteligência, e consegui arrumar no meu lugar!

E fui para cima com esta ideia optimista, positiva e condicional, na cabeça: se não tivesse conseguido estacionar… que ia fazer? Desconhecida na zona, também não conheço os moradores vizinhos, nem encontraria o porteiro num domingo, meu ponto de contacto.

Não sei de quem era o animal abandonado com grãozinhos de luz amarela a pestanejar.

Deixaria o meu carro ali de qualquer maneira, poria do mesmo modo os piscas a piscar e iria alegremente deixar para outros o problema que outros tinham deixado para mim.

Que consequência moral posso tirar desta atitude transparente de quem não tem tabus?

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publicado às 13:23


2 comentários

De Vicente a 10.11.2013 às 11:11

Texto colorido e variegado de observação de coisas e loisas.

A sensação de desconhecimento do ambiente que nos rodeia se mudamos para outros lugares é ao mesmo tempo assustadora e cria-nos isolamento.

Os americanos têm uma expressão a que eu atribuo grande importância: "neighbouring" ou seja "vizinhar"!

Trata-se de acolher, disponibilizarem-se para receber novos "vizinhos". Quando algum estrangeiro se muda para uma terra desconhecida para si e a sua família, os vizinhos aparecem com um bolo, informações úteis, propõem-se dar uma volta guiada pela cidade para familiarizar o recém-chegado, etc..

Isto, infelizmente, é inexistente ou quse no nosso país. Uns narizes aparecem atrás de umas cortinas, grunhem-se uns bons dias arrancados a ferro nas escadas, e somos, na sua maioria, um pouco sem espírito mgregário, associativista.

Por isso, esta sensação de hospitalidade tão propalada para receber o estrangeiro, entre nós traduz-se num isolacionismo sem remédio à vista.

Normalmente, gostamos de ter canga sermos servis, e claro, o destinatário de tais servitudes aprecia e tantas vezes abusa.

Terá sido o Viriato ou o Sertório que eram muito possessivos e deixavam pouca iniciativa ao pequeno punhado de Lusitanos?

De Zilda Cardoso a 10.11.2013 às 12:33

Gosto muito dessa ideia de dar as boas vindas aos vizinhos. É tão agradável e reconfortante!
Ontem finalmente encontrei o meu vizinho mais próximo que conhecia de longa data e foi extremamente amável, mas... nunca está em casa! Eu já tinha tido vontade de tocar a campainha dele, mas não me atrevi....
Nunca está em casa, disse-me! Mas ... se precisasse de alguma coisa... estava ao dispor.
É bom ter alguém próximo. mesmo que nunca esteja.
Muito obrigada por ter tido a paciência de comentar os meus posts. São muito bem vindos.

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