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Esta seria a hora da completa conciliação se não fosse aquela voz a saturar o ar de palavras aliás inaudíveis, obscuras.
Soube que eram três quartos de uma hora qualquer da tarde de Junho, quando uns badalos deram três pancadas seguidas nos sinos próximos e depois…emudeceram.
A voz continuou semeando sombras para meu desespero como se estivesse a prometer renunciar não a renúncias mas a coisas brilhantes e desejadas. A voz tornou-se a demorada realidade do momento, enquanto os seus sentidos se perderam completamente para mim: o sentido da voz e o das palavras que ela pretendia veicular.
Em dia de sol muito quente, os montes escuros ao longe, as traseiras dos prédios castanho-avermelhados, os terraços e as árvores sem cor definida, eram silhuetas veladas a potenciar o sentido possível do som, do clamor…
Então passou uma gaivota no alto em voo elegante e ágil sobre o azul e, por momentos, houve um pouco de claridade ali. Mas continuou, talvez porque a voz das sombras que se tinha calado voltou no mesmo tom velho e poeirento.
Estou em Barcelona, gostei de rever a cidade monumental quase tão gótica e bárbara como gaudiana e amaneirada.
Onde estou é justamente o bairro gótico, visto de trás e de cima; procuro reconhecer aquilo de que se fala. E que é atraente, bem vejo.
Prefiro estar na minha varanda de-ver-o-mar a ver o mar, os barcos e a passarada. Que aqui também observei, a outra hora, na praia, perto.
Neste momento, há o silêncio apetecido que nega as minhas recentes palavras. As outras, as inaudíveis e obscuras, não deixaram nenhum eco; verdadeiramente, estou bem assim a tentar reconstruir o sentido que não cheguei a vislumbrar, o da voz. Que posso imaginar, mas não quero. E não sei.
O das palavras…
A esta hora, não é crível que o sol se abra e ilumine ideias, as torne radiosas e significantes. E transparentes.
Não é provável.
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