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É o universo, estúpida!

por Zilda Cardoso, em 26.05.13

 

 

 

Não gosto da vida como é, no presente. E não sei como fazê-la voltar a ser do meu agrado.

Não quero que volte a ser tal qual foi em algum momento anterior.

Há tão poucos acontecimentos para acontecer e a acontecer: hoje em dia, esta é a realidade sem elementos míticos.

Mas há muitos espaços vazios, tanta solidão, muita dor. É por isso que os dias são pouco atraentes.

Os acontecimentos de cada um (dia) deviam acontecer todos juntos, muitos, coloridos, intensos, macios também, e eu, estando debruçada pela manhã cedo numa janela gigantesca donde veria não apenas os acontecimentos acontecerem em catadupa, mas poderia misturá-los, combiná-los, compô-los, organizá-los segundo o meu sentido estético, eu finalmente regozijar-me-ia com o espectáculo.

Não precisava sair lá fora para participar. A menos que me chamassem. A menos que fosse absolutamente necessário. Ou a menos que o meu ângulo não fosse o melhor para observar os astros mais próximos, os pássaros, as transparências, os matizes e o resto.

Tenho esperança de ver o Sol girar em volta da Terra como sucedia antigamente e como ainda parece ser, e de ver a Lua seguindo o outro, submissa, fria e bela, à distância.

Ouviria alguns ruídos de fundo, murmurados muito longe, uma música inspiradora de bons sentimentos ou que prometesse uma dança admirável de nuvens e de estrelas. A música serve para dançar, não é? Então dancem, diria.

Nesses momentos, não gosto do silêncio. Quando muito, aprecio a poesia porque ela é também silêncio. Porque ela é música. É um silêncio que não é. É música que é silêncio e poesia. É assim.

E não aprecio palavras quando procuro a verdade. Estas palavras não são as que queria, elas enganam, são incertas, sem conteúdo, mas só estamos estáveis com palavras. Como nos arranjaremos com ou sem elas?

Num dia mais claro, mais nítido, da minha janela panorâmica, verei o infinito lá longe. Prometo.

Vou ter uma vida diferente.

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publicado às 10:09


8 comentários

De Vicente a 26.05.2013 às 11:47

Olá Zilda,

Com as preocupações da vida diária, não tenho vindo aqui e tem posts muito bem escritos e interessantes:-)

Este é um deles. Parabéns, gostei muito.

Vicente

De Zilda Cardoso a 28.05.2013 às 08:30

Muito obrigada.
Fiquei contente com o seu comentário, tanto mais que agora pouca gente comenta, depois que coloquei o link dos posts no FB. Há visitas diárias mas não comentários.
Sei que os temas são muitas vezes difíceis de comentar e as pessoas não estão simplesmente para isso. Não são temas de actualidade política, não é que eu não tenha ideias sobre isso, ou que não me interesse o assunto, mas acho que há comentadores a mais, maldosos a mais e prefiro deixar passar a onda, se é que vai passar. É tudo tão mesquinho! Prefiro leituras furiosas e escritas loucas.
Por tudo isto, é mais apreciado o comentário amigo.

De Vicente a 28.05.2013 às 10:48

Zilda,

Neste momento o que mais me apetece é transmitir e receber solidariedade, tentar afastar-me do ruido da crise, já bem basta quando não a podemos evitar.

Há uma "panzinada" de assuntos sérios tratados com ligeireza e voracidade a cada dia, engulindo tudo e todos e se não cuidamos de nos preservar, acabamos por ser apanhados no torvelinho da depressão, do desequilíbrio mental.

Keep on with the good work:-)

De Maria do Carmo Almeida a 28.05.2013 às 12:51


Muito bonito este texto. Dá gosto passar no seu blog, enquirecem a minha hora de almoço.
Obrigada.
Maria do Carmo Almeida

De Zilda Cardoso a 28.05.2013 às 14:40

Muito obrigada. É tão gratificante saber que as minhas palavras são do agrado de alguém! Alguém que tem a coragem de dizer isso mesmo!
Maria do Carmo, muito bom dia!

De Isabel Maia Jácome a 29.05.2013 às 23:37


Que bom que possa debruçar-se da sua janela panorâmica... e que, de todos os panoramas, possa captar exactamente o que lhe aprouver da forma mais mágica possível, sem exactidão definitiva... assim, capaz de mudar, mudar a cada momento e dia!...
...acho que é o que deve restar-nos mesmo... esta possibilidade de dar à vida, a cor de que precisamos, desejamos e tanto queremos!
É possível?
Às vezes, penso e chego mesmo a acreditar que sim... outras, não. Não, mesmo!... e tenho pena e fico triste, encolhida, vazia...
...mas os seus textos são um panorama em si e lembram-me cores e poesia e gestos e vida como deve ser vivida!...
... pena que ande longe de tanto que anseio e preciso!
Obrigada por continuar e partilhar e a inspirar-nos, Zilda!!!
Beijinho cheio de saudades,
Isabel

De Zilda Cardoso a 30.05.2013 às 07:55

Muito obrigada, Isabel! Ainda bem que continuo a ter o privilégio de a ouvir. Sabe o que diz G. Steiner, grande fisósofo dos nossos dias? Seguindo ele próprio a ideia de Heidegger, escreve: "Devemos aprender a escutar, como faz o músico, as vozes do não-dito, os ritmos profundos e as conotações do pensamento, das concepções poéticas antes de se inteiriçarem na condição de um discurso convencional e prosaico." E "o olhar do leitor deve ser um olhar que escuta".
Acho que a Isabel consegue isto.

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