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As pontes da cidade

por Zilda Cardoso, em 02.02.13

 

  
 

Três Pontes

Três pontes que ligam o Porto a Vila Nova de Gaia. A primeira é a Ponte D. Luiz I, a segunda é a nova Ponte do Infante e por fim a Ponte D. Maria

 

 

(imagem da internet)

Gosto das pontes que unem as cidades divididas por rios. Gosto das cidades assim divididas e unidas. Apreciaria que Porto e Gaia fossem uma atravessada por um rio deslumbrante, serpenteante, perigoso e com as mais belas margens que me foi dado ver.

Uma cidade única, separada pelo rio, unida pelas pontes – que sonho!

Quando eu era muito pequena, lembro-me, só havia duas pontes sobre o rio: o trânsito nas cidades deve ter crescido muito, pelo comércio, pela indústria, pela população. Uma ponte era a do comboio – chamada D. Maria, a outra - D. Luís com dois tabuleiros. Era a que a população utilizava para ir à festa popular, não sei qual. Que me lembre só ia a Gaia, uma vez por ano, dia dessa romaria.

Ou antes…

O meu Pai não era apreciador, mas fomos à romaria, talvez para ficar a conhecer e hoje poder falar dela. Quando regressámos ao fim da tarde, como toda a gente, a Ponte que tínhamos de atravessar tremia, dizia-se, com o nosso peso e inquietação. Oscilava muito e assustava. As palavras do meu Pai não serviam de nada, não me sossegaram: a ponte vibrava cada vez mais, porque as pessoas apressavam-se, quase corriam, arrastando as crianças, pensando na eminência da queda ao rio e… vamos lá… na hora do jantar.

Eu só respirei fundo quando pisei terra firme do lado do Porto e, por isso, penso que não voltei àquela festa: a perspectiva de cair à água suja e verde e fria não era de todo do meu agrado.

Por outro lado, que pena não ter nascido a tempo de atravessar o rio por uma ponte de barcas! Teria sido divertido, saltitar de uma barca para outra ou caminhar tranquilamente pelo estrado de madeira que passava por cima das barcaças unidas por uma corrente de ferro. Nunca teria faltado à festa popular porque a festa começaria no rio, no estrado, no baloiço das barcaças.

Já no século XIV houve aqui uma ponte de barcas construída para que o exército de D. Fernando passasse e acudisse à cidade de Guimarães cercada por castelhanos (lê-se na internet) e depois outras do mesmo género foram levantadas para a travessia regular do rio, destruídas ou desmontadas em tempo de cheias. Foi assim durante séculos, mas no princípio do século XIX,  uma de 33 barcaças ligadas por cabos de ferro e que abria para dar passagem a embarcações foi construída e, poucos anos depois, destruída de forma trágica quando a população do Porto  fugindo precipitadamente para sul às tropas de Soult enfiou num alçapão aberto na ponte e caiu ao rio. Morreram quatro ou cinco mil pessoas, má memória.

Abandonada a ideia tão poética de pontes de barcas, construiu-se a Ponte Pensil, já destruída mas de que restam os pilares, as duas de que falei, e a da Arrábida já nos nossos dias, com que passamos a ser a Aldeia da Ponte Nova, tão orgulhosos que estávamos da nossa ponte moderna. Todavia, temos mais: a de S. João, a do Freixo, a do Infante. Somos agora os orgulhosos habitantes da Aldeia das Muitas Pontes.

Não sei quais os convenientes e inconvenientes da unificação das cidades do ponto de vista político, falo do aspecto estético. Quero dizer, as cidades estão unidas e separadas, ninguém as separa mais nem as une mais, aqui a geografia é rainha e senhora. Mas talvez uma só Câmara zelasse melhor pelas duas como se fosse uma?!

As mais belas cidades da Europa são não apenas banhadas por um rio, mas têm um rio no seu interior, um rio cantado pelos poetas, pelos músicos, como o Sena ou o Danúbio que nunca vi azul ou o Tamisa desde há pouco razoavelmente perfumado. É a beleza das pontes que torna certas cidades incomparáveis.

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publicado às 17:24





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