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ELE

por Zilda Cardoso, em 03.12.12

Revirava-se na cama, de olhos fechados, sem saber o modo de começar.

Queria descobrir o mundo, era isso, mas… como? Não sabia como. E não tinha tido tempo de apreender muitas coisas: nascera há poucos meses. Sete? E tudo lhe parecia misterioso.

De súbito, ergueu-se.

Ficou de pé, agarrado às grades da sua cama de bebé. Só depois abriu os olhos e o sorriso, que era resplandecente.

Começou a saltitar. Via o mundo que o cercava em movimento contínuo, vertical, para cima, para baixo, e parecia-lhe muito capaz de o interessar, desse modo.

A mãe, ajoelhada ao lado da cama, observava-o já curiosa e afável.

“Queres o leitinho?”

Ele não sabia responder na mesma linguagem, ainda não conhecia o código, mas percebeu que o som das palavras correspondia em tempo, em gestos à sensação mais agradável que acontecia no seu dia-a-dia.

Bateu as palmas sem deixar de saltitar. Era como começava a sua manhã, todas as manhãs. Apetecia-lhe muito…

Verdadeiramente, o mundo era cada vez mais vasto e intrigante. Quase não tinha tempo para dormir.

Não tinha muito tempo, embora parecesse ter todo o tempo possível. E acabasse de nascer e de acordar – o que era semelhante para ele.

De noite, chamava a mãe à sua maneira alegre e irresistível e iam os dois para a sala, longe de olhares indiscretos e onde os seus ruídos não incomodavam quem dormia. E ficavam horas a percorrer milhas, ele ligeiramente apoiado nas cadeiras e sofás, andando, jogando, ela sentando-se perto dele e apoiando ou não as suas decisões sempre arriscadas.

Parte da noite longa passavam-na a esquadrinhar. Para facilitar isso, esforçou-se por iniciar a sua actividade - andar por si, muito antes da idade julgada conveniente. Conseguiu.  

Porém, a mãe não aguentou tanto tempo de devassa nocturna. Tinha outros afazeres para o dia.

E perguntou ao médico se lhe podia prescrever um calmante, a ele, ao indagador-mor. Não, claro que não. “Mas receito-lhe a si”, disse ele para a mãe.

Como isso não resolvia a questão, ficaram desse modo juntos, quer dizer, a mãe e ele, envolvidos nos mesmos problemas quatro meses, pelo menos. Até que ele se interessou por temas mais específicos. E a vida continuou.

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publicado às 14:36


10 comentários

De Marcolino a 03.12.2012 às 23:05

Olá Zilda!
Dá para recordar, rever, e meditar...!
Abraço de muito boa noite
Marcolino

De Zilda Cardoso a 04.12.2012 às 08:55

Creio que todas as mães e pais têm recordações semelhantes. Ou diferentes... que apreciam recordar. E é como se os vivessem de novo. Por isso, é bom revivê-los. E falar deles e escrever sobre eles. Tem escrito, Marcolino?

De Marcolino a 04.12.2012 às 09:12

Bom dia Zilda!
Se temos recordações semelhantes entre todos nós mas, há sempre uma que nos marca agradávelmente. Das minhas duas filhas tenho várias mas, até hoje ainda não senti essa força, própria das mulheres, em recordar certas cenas do crescimento dos seus rebentos. Disse mulheres porque, nós homens, sempre seremos muitissimo mais desligados..., é dos livros da psicologia entre géneros.
Tenho escrito muitisso pouco porque apanhei um novo susto com a minha saúde, o que me desmotivou, não deveria ter deixado ir abaixo psicológicamente, mas vacilei em demasia. Uma vez de saúde mais equilibrada, penso regressar de melhor humor para escrever.
Abraço
Marcolino

De Zilda Cardoso a 04.12.2012 às 09:17

Desejo as suas melhoras. Às vezes, é difícil compreender...

De Maria Joao a 04.12.2012 às 10:29


Quantas flores respiram no jardim das memórias! É mesmo um verdadeiro indagador :)

Obrigada pela partilha Zilda. Um grande beijinho!

De Vicente a 06.12.2012 às 10:51

Eu tenho tantas memórias dos meus filhos bastardos quando vivia na China com a minha concubina Yang Xi. Desde pequenos que os ia levar à escola pública e foi lá que conheci o filho de Mao Tsé Tung com quem faço negócios hoje em dia: corrupção a todo o nível junto do Congresso do Povo! Mas ele está velho e a liderança mudou recentemente.
Os meus filhos (uma filha e e um filho) tinham nomes exóticos, ela era Flor de Lótus e ele Pato à Pequim...ahaahah

Abraços e até ao jinglobel pois vou partir agora numa viagem de trabalho ao Brasil de onde regresso a 24.

Se o avião se atrasar, já tenho o texto do telegrama: Merry Christmas dear family from the "Calçadão" bebendo uma água de côco ou umas caipirinhas/oskas...ahahaah

De Zilda Cardoso a 06.12.2012 às 16:29

Tem boas recordações e bons projectos! Água de coco?! Deve ser um desconsolo! Boa Viagem.

De VeraMaria a 07.12.2012 às 16:34


Boa tarde!

Que gostozura ler este post! Pois além de sentir fases que se poderiam ter passado com os meus filhos, soube-me a "conto" de infância... e aí é muito mais abrangente... Pode ser sentido por milhões de mães em todo o planeta...
Foi uma doce sensação. Obrigada!
VeraMaria

De Zilda Cardoso a 07.12.2012 às 17:09

Dá-me sempre um gosto enorme ler os seus simpáticos comentários. Muito obrigada.

De sofiazinha a 02.02.2013 às 15:38

Adorei o que escreveste,que coisinha bastante linda e fofinha!!

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