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Revirava-se na cama, de olhos fechados, sem saber o modo de começar.
Queria descobrir o mundo, era isso, mas… como? Não sabia como. E não tinha tido tempo de apreender muitas coisas: nascera há poucos meses. Sete? E tudo lhe parecia misterioso.
De súbito, ergueu-se.
Ficou de pé, agarrado às grades da sua cama de bebé. Só depois abriu os olhos e o sorriso, que era resplandecente.
Começou a saltitar. Via o mundo que o cercava em movimento contínuo, vertical, para cima, para baixo, e parecia-lhe muito capaz de o interessar, desse modo.
A mãe, ajoelhada ao lado da cama, observava-o já curiosa e afável.
“Queres o leitinho?”
Ele não sabia responder na mesma linguagem, ainda não conhecia o código, mas percebeu que o som das palavras correspondia em tempo, em gestos à sensação mais agradável que acontecia no seu dia-a-dia.
Bateu as palmas sem deixar de saltitar. Era como começava a sua manhã, todas as manhãs. Apetecia-lhe muito…
Verdadeiramente, o mundo era cada vez mais vasto e intrigante. Quase não tinha tempo para dormir.
Não tinha muito tempo, embora parecesse ter todo o tempo possível. E acabasse de nascer e de acordar – o que era semelhante para ele.
De noite, chamava a mãe à sua maneira alegre e irresistível e iam os dois para a sala, longe de olhares indiscretos e onde os seus ruídos não incomodavam quem dormia. E ficavam horas a percorrer milhas, ele ligeiramente apoiado nas cadeiras e sofás, andando, jogando, ela sentando-se perto dele e apoiando ou não as suas decisões sempre arriscadas.
Parte da noite longa passavam-na a esquadrinhar. Para facilitar isso, esforçou-se por iniciar a sua actividade - andar por si, muito antes da idade julgada conveniente. Conseguiu.
Porém, a mãe não aguentou tanto tempo de devassa nocturna. Tinha outros afazeres para o dia.
E perguntou ao médico se lhe podia prescrever um calmante, a ele, ao indagador-mor. Não, claro que não. “Mas receito-lhe a si”, disse ele para a mãe.
Como isso não resolvia a questão, ficaram desse modo juntos, quer dizer, a mãe e ele, envolvidos nos mesmos problemas quatro meses, pelo menos. Até que ele se interessou por temas mais específicos. E a vida continuou.
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