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Ninguém manda em mim!

por Zilda Cardoso, em 24.11.12

Teve dezoito filhos, em casa, com uma única e apressada ajuda – a do marido. Ele estaria no campo, a lavrar ou a fazer trabalho semelhante e um dos miúdos iria a correr chamá-lo para um apoio final. Em condições inacreditáveis!

Viviam muito pobres, porque os bens que produziam nas suas terras não eram suficientes para a família sempre crescente. O milho… faziam pão que deveria chegar para as crianças, mas era preciso vender algum para comprar outros bens essenciais. Tal como acontecia com as uvas e as outras frutas, as galinhas e os coelhos que criavam só se consumiam em casa, em dias especiais.

Os adultos ainda trabalhavam para fora. Todas as crianças eram precisas para entreajudas, havia sempre outros mais novos... Quase não tinham tempo de ir à escola e quando iam, em pleno Inverno, caminhavam descalços sobre as pedras húmidas e frias dos caminhos e sobre a terra encharcada, muito raramente acolhedora. Sapatos…? Só tinham um par cada um e eram para ir à missa ao domingo de pés lavados e roupa mais-ou-menos.

Porém, vejam lá, doze crianças criaram-se, estão de saúde e vivem bem. São todos empreendedores e ambiciosos, lutaram e souberam aproveitar as oportunidades. Nenhum saiu do País, espalharam-se pelo País.

A Mãe, sozinha agora, sente-se finalmente liberta. Esteve doente, em tempos, foi operada, permaneceu algumas semanas no hospital, recuperou de forma espectacular. Agora, faz aquilo que quer e que nunca pôde fazer nem sequer querer fazer, antes.

Tem 91 anos, está na sua casa e tem duas filhas como vizinhas próximas. Até há alguns meses, cozinhava para si própria e fazia todos os serviços domésticos. Se não fosse aquela maluqueira do vinho do Porto que lhe retirou um pouco de estabilidade, continuaria a fazê-lo. Assim, são as filhas vizinhas que fazem as compras com o seu dinheiro dela - não tem qualquer reforma do Estado, apenas uma pequena pensão da Casa do Povo local - lhe preparam as refeições, sob as suas rigorosas ordens, e lhas levam.

O que é que ela já viu sem quase sair do seu lugar? O que poderia ainda querer ver e desejar?

O que vou narrar aconteceu há dias no mundo real e deixou-me desconcertada.

De casa, numa destas manhãs, uma das filhas julgou vê-la à distância num pequeno outeiro, subindo-o na direcção da vila. Não queria acreditar no que os seus olhos viam. Foi chamar a irmã, ambas verificaram: na casa dela, não havia ninguém. Não restavam dúvidas: era a sua mãe que subia o pequeno monte, apesar das suas pernas – o ponto fraco – não auxiliarem.

Já levaria hora e meia de caminho. Tinha-se levantado cedo. Não lhes disse nada, receou resistência. Queria muito ir à vila, de modo que meteu pés a caminho, de chinelos enormes, difíceis de arrastar, vestida de qualquer maneira. Lá foi.

Apressaram-se a interceptá-la. Uma delas foi falar a um jovem que tem um carro e se dispôs a levá-las à vila, pois era isso que ela queria e sabiam não poder demovê-la. Queria ir tomar o pequeno-almoço à vila.

E pronto, lá foram e tomaram o que ela sempre quer: o galão e dois pães sem manteiga. Mas depois, por que não almoçar? Sim, por não? Isso embarateceria o dito pequeno-almoço que, de outro modo, ficaria por duas vezes o triplo da refeição normal. Não que isso lhe importasse o mínimo, mas pensando agora no caso…

Deram um longo passeio a fazer horas e regressaram a casa depois de almoço, de táxi, a Mãe radiante, a filha muito menos. A senhora entrou em sua casa e começou a cantar, feliz. Cantou, cantou todas as canções alegres de que pôde lembrar-se até que decerto adormeceu. As filhas, de fora, ouviam-na cantar, estranhadas.

Quando lhe levaram o jantar do costume, verificaram que estava trancada por dentro, não quis ser incomodada. Apenas no dia seguinte a viram.

Ninguém manda nela. Finalmente, não obedece a ninguém. É uma heroína, tem a força da coragem e a resistência à dor de quem sempre sofreu. Ninguém nunca mais a vai demover de fazer o que deseja.

 

 

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publicado às 08:12


4 comentários

De Marcolino a 25.11.2012 às 14:22

Olá Zilda!
Belissimo desenlace, após uma vida grandes e aturados trabalhos a favor dos 18 filhos que, nem na morte, ousaram desobedecer-lhe...
Deliciei-me com este rarissimo acontecimento da vida real!
Abraço
Marcolino

De Vicente a 25.11.2012 às 16:46

Zilda,

Que história esta! Bem escrita por si mas revelando um país miserável aonde isto foi e ainda é possível.

Este epíteto de miserável aplica-se aos Relvas, aos Cavaco, aos Passos Coelho, aos Marcelo Caetano, aos Salazar e talvez para trás na Monarquia...fazemos tudo sempre ao lado!

Não sei se somos capazes de ser uma Nação, organizar-nos como povo e regermos o nosso destino, com eficácia, justiça equitativa, numa perspectiva de sociedade em que haja equidade.

Somos uns trapalhões e lá vamos arrastando os séculos, com manias de grandeza improvisada.

Eu acho que a Frau Merkel e os alemães têm razão, pois trabalham, têm uma comunidade rigorosa e com produtividade, e situações destas não existem.

Serão menos animados, têm pés enormes calçados em meias de lã grossa, com o dedão a sair das sandálias, são gordões, deitam-se com as galinhas, grunhem uns sons...bref...têm muito menos graça do que nós, mas a nossa "graça" inconsciente e irritante, por imatura e imbecil gera um mínimo de felicidade?

Nem sei bem se não me apetece passar a ser um cidadão do mundo...orgulhar-me de quê?

Até de feitos de antepassados que os fizeram, mais uma vez, ao lado...Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral tinham outras missões...mas lá por um bambúrrio de sorte e não nego de bravura e valentia, chegaram aonde chegaram...mas não era aquilo que queriam...

Enfim, ando desgostoso com o meu País, não me revejo nele! Também ainda não encontrei aonde queira ir buscar uma nova cidadania interior...um desânimo!

Mas, sim, gostei muito desta mulher. Sobretudo de poder fazer e eventualmente dizer o que quer, como é o meu caso. Talvez ela com mais sabedoria, chi lo sai?

De Zilda Cardoso a 27.11.2012 às 17:34

Que desgostoso! NÃO GOSTO de ninguém tão desgostoso. NInguém sabe que miséria haverá escondida na Alemanha. Aqui tb ninguém sabia. Eu é que andei a escarafunchar!
E olhe não quer voltar a ler a Alice no País das Maravilhas e Do outro lado do Espelho? São histórias estimulantes para gente inteligente.
Ela é uma mulher inteligente que se deixou amachucar toda a vida. Mas isso acabou para ela.

E não se aborreça com esses de que falou, são meia-dúzia, e dizem que nós somos 10 milhões, ao todo. Dez milhões em que estamos incluidos com aqueles defeitos todos. Quem é que se pode desgostar com meia dúzia inábeis incluindo o Vasco da Gama e o Pedro Álvares Cabral? E nós, aqueles que não sabemos sair disto, ficamos a chamar nomes aos que tentam qualquer coisa...

De Vicente a 28.11.2012 às 00:25

Ando cansado de tudo e de todos. Frase curta e bem clara...penso que como eu há muitos.

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