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texto como veículo para as paixões do leitor

por Zilda Cardoso, em 21.11.12

 

Estou a ler um livro recente de Umberto Eco que me entusiasmou desde logo pelo título: Confissões de um Jovem Escritor. Sabendo que tem agora 80 anos e tinha 77 quando proferiu aquelas palestras e quando escreveu os textos, não admira que surpreenda.

Porém, eu conhecia-o e admirava-o desde a Universidade como semiólogo, linguista, crítico, filósofo e finalmente como escritor. É brilhante em tudo o que escreve ou ensina e, seja o que for que produza, é sempre do maior interesse.

Começa por justificar o título - como se estreou a escrever e a publicar romances aos 49 é de facto um jovem escritor. Faz considerações sobre este tema, a que achei muita graça e depois, fala da sua carreira, não apenas como teórico da linguagem mas como ficcionista.

Considera-se académico de profissão e romancista amador mas, no caso destes ensaios, concentrou-se na ficção e no seu processo criativo.

Sobre as possíveis interpretações de um texto que são potencialmente ilimitadas, diz que “algumas teorias contemporâneas da crítica afirmam que a única leitura fiável de um texto é a leitura errada e que um texto só existe por causa das reacções em cadeia que causa. Mas esta cadeia de reacções representa os usos infinitos que podemos fazer de um texto …  e não o conjunto de interpretações que dependem de algumas conjecturas sobre a intenção daquele texto.”

“Como podemos provar que uma conjectura sobre a intenção de um texto é aceitável?”

 

 

Finnegans Wake é exemplo de um texto que “incentiva intencional e programaticamente as interpretações mais ousadas”. Para alguns, continha alusões históricas, discutiu-se isso e a interpretação foi contestada por aqueles que afirmavam que as palavras ali usadas tinham sentidos “quotidianos” “e que a leitura política não era suportada pelo contexto”. Tudo e qualquer coisa pode ser visto e descoberto no texto de Joyce, como referências a acontecimentos que não tinham ainda acontecido e, por isso, alguns atribuíram a Joyce poderes proféticos e outras capacidades absurdas.

 

O que acontece é que, segundo Umberto Eco, quando um texto não é produzido para um único destinatário mas para uma comunidade de leitores, o autor sabe que será interpretado segundo uma estratégia complexa de interacções que envolve também os leitores e a sua competência e conhecimento da “língua como antologia social”. Da língua com as suas regras, “as convenções culturais que essa língua produziu e a história das interpretações anteriores dos seus muitos textos”. “Trata-se de complexas transações entre a competência do leitor (o conhecimento que o leitor tem do mundo) e o tipo de competência que um determinado texto requer para poder ser lido de uma forma… que aumente a compreensão e a fruição do texto e que seja suportada pelo contexto”(”económica”).

Eco fala de um Leitor Modelo e de um Leitor Empírico. Este é qualquer pessoa que lê um texto, que pode ler de muitas formas e nada lhe proíbe de ler de uma certa maneira. Não existe nenhuma lei que diga aos Leitores Empíricos “como devem ler, porque usam frequentemente o texto como veículo para as suas próprias paixões, que podem ser exteriores ao texto ou que o texto pode suscitar por acaso”.

Para Eco, os autores dizem frequentemente coisas de que não se apercebem, apenas depois de conhecerem as reacções dos seus leitores descobrem isso. E afirma qualquer coisa como: um leitor razoável não deve aceitar essa interpretação não “económica”. Não deve aceitar essa interpretação que não aumenta a compreensão e a fruição do texto e que não é suportada pelo contexto.

Tinha Isabel Jonet consciência das múltiplas interpretações que o seu texto suportaria? Umberto Eco tê-la-ia aconselhado a responder aos críticos não de modo a “validar as interpretações do texto, mas para mostrar as discrepâncias entre a sua intenção e a intenção do texto”.

Acho que Isabel Jonet já fez isso e, depois desta lição de Umberto Eco, estaremos prontos para interpretar "economicamente" as suas palavras.

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publicado às 11:10


3 comentários

De Isabel Maia Jácome a 21.11.2012 às 14:21


Querida Zilda
Gosto sempre das suas reflexões, das suas palavras. Não sei como as interpreto, sequer se me aproximo do que verdadeiramente quer com elas dizer, como de outros autores que possa ler... mas acredito ser uma "leitora empírica", sim, e os seus textos são-me muito importantes e queridos...
Catapultam-me de facto, direccionam-me, na minha necessidade de reflectir e aprender e fazem-me, acima de tudo, avivar esta minha paixão pela vida, esta vida difícil, por vezes, mas profundamente admirável, feita por tanto e que se partilha e se vive, preenchida também pelo acesso, mesmo que limitado ao interior dos outros que, ao escreverem e partilharem, abrem frechas, ou janelas, ou portas, verdadeiras aberturas que nos podem dar asas e nos permitem assim o acesso a outros mundos...
...ah, o que isso nos enriquece sucessivamente...o que nos acende ainda mais a necessidade de conhecer... seja a nossa, sejam outras dimensões, planos e mundos em nós, que se interceptam, já que nunca sabemos verdadeiramente em que medida estamos a percepcionar verdadeiramente o mundo do outro. E é esta intercepção de "mundos" que permite, na minha óptica, "Aprender"!... ou caminhar nessa direcção... e sucessivamente partilhar, partilhar, partilhar... e aprender, mais, mais, mais, sem que este “mais” seja obrigatoriamente cumulativo. Apenas MAIS!
E assim, é mesmo isso que sinto : como leitora empírica, acredito que uso frequentemente o texto como veículo para as minhas próprias paixões, tal como diz... e “que podem ser exteriores ao texto ou que o texto pode suscitar por acaso”...
... E que bom que haja textos que não me são indiferentes e que me impressionam e que me canalizam e catapultam não sei para que mundos de que tanto necessito e que preenchem, preciso que preencham, este meu caminho a que ainda preciso definir sentido... com todas as dúvidas, inquietudes, necessidades, desejos...
Achei interessante ter este seu texto ido ao encontro, de alguma forma, ou no meu sentir, ao que ontem, ou hoje de madrugada, não resisti a colocar no meu blog, apesar do silêncio a que me tinha remetido... e precisamente por causa de um texto que li publicado pelo João Nuno Baptista no FB, de Joaquim Pessoa,... e escrevi ...e até gostaria de saber se o que me saiu de improviso, como tenho feito ultimamente, terá a ver com o que aqui hoje disse, sem ainda a ter lido. Coincidência?
Obrigada Zilda por continuar aí, com essa sua partilha que me é tão querida e tão importante. Irei reler com a atenção de um aprendiz o seu post... e reflectir para além do que, no imediato me suscitou e a que não resisti...
Abraço profundamente amigo e reconhecido,
Sempre,
Isabel

PS - Desculpe ter-me alargado tanto no meu entusiasmo, ou necessidade... Obrigada.

De Marcolino a 22.11.2012 às 11:34

Bom dia, Zilda!
Sorri-me, com este desafio à susceptibilidade...
Dia feliz
Marcolino

De Vicente a 25.11.2012 às 17:04

Zilda,

Ler é sempre bom. Sobretudo se lemos escritores que nos tragam "added value" e nos façam ter um "prazerzinho" queiroziano interior, um acordo tácito com o que absorvemos, seja de admiração, identificação, ou até de desacordo mas reconhecendo o valor do seu autor.

No fundo haverá sempre pessoas melhores e piores do que nós, mas não nos devemos sub-estimar, ou seja estaremos sempre ao nível do nosso patamar, que para nós será bom, eu diria o melhor pois é aquele a que sabemos aceder. Pouco importa o julgamento dos outros, ainda que seja bom escutarmos com humildade e corrigir os ACTOS que impliquem efeitos nos outros. No meu ponto de vista só esses!

De resto cada um é como é e assim deve permanecer. Eu não sou de grandes ídolos neste mundo nem de grandes venerações beatíficas, embora reconheça a superioridade, o talento o portento de quem mereça, mais c'est tout!

Não sou um bom seguidor de doutrinas, nem teses, nem lideres..sou um rebelde! That's what I am...

Estou a pensar reler os feitos de Robin Hood ou de Ivanhoe...ahahah

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