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ODISSEIA

por Zilda Cardoso, em 24.09.08

Sou frequentadora muito irregular do consultório do dentista: vou apenas em último caso, o que me tem custado muito caro em termos qualitativos.

Tenho música de fundo, clássica, muito bem escolhida, tranquilizadora, no tom certo. E a decoração das salas é em belos verdes, a condizer com a música. E, além dessas coisas importantes, o médico é bom conversador e sabedor.

Decidi mudar de consultório...

Fui ontem, já noite, ao novo lugar, receosa, meio comprometida.

Comecei por estacionar o carro mesmo em frente num lugar proibido, claro está. Tinha levado um grosso volume que devo ler em poucos dias, mas tem sido quase impenetrável, com desgosto meu.

O que é certo é que não confiei no interesse das revistas que normalmente estão sobre as mesas nestes lugares e que teimam em nos informar exaustivamente sobre os namoros das vedetas e outras coisas do mesmo modo relevantes.

Achei no entanto que, dado o adiantado da hora, não ia ser necessário. E pousei o livro. Depois ao recordar a qualidade deprimente das revistas, peguei de novo no calhamaço.

E acabei por deixá-lo ficar no carro bem à vista, já que entendi que ninguém teria vontade de arrombar o carro para ler A Odisseia, de Homero.

O médico era uma jovem sorridente que não arriscou magoar-me e me anestesiou firmemente, trabalhando com gestos seguros e profissionais, apesar das muitas horas de cansaço.

E cantarolou todo o tempo em que esteve a tratar-me.

Apreciei  o seu à-vontade, os seus conselhos, os seus projectos para mim, convincentes.

Não tenho dúvida de que vou passar com a necessária frequência, nos próximos tempos, por este local agradável q. b., com música artesanal e muitos sorrisos.

E agora afirmo como Lewis Carroll numa missiva a uma das meninas com quem se correspondia.

 

"Deixe-me ver. Era sobre isto que eu  pretendia escrever-lhe? Não, não era; por isso, se faz favor, desleia tudo."

 

 

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publicado às 10:28


8 comentários

De Augusto Küttner de Magalhães a 24.09.2008 às 11:12

Muito interessante não "desli tudo", bem pelo contrário. Acredito que no dentista não tenha "entrado" pelo Homero, mas efectivamente aquelas revistas usuais em qualquer consultório que se preze de o ser, são um "espectáculo. Mas têm leitores e "antes" compradores, caso contrário já tinham deixado de existir. Será um pouco uma catarse, mas vendem muito....como alguns canais da nossa TV são muito vistos, essencialmente se muitas desgraças mostrarem, e intigalhada...voltando ao desler, gostei muito da a ler, uma vez mais. Espero que a leitura do calhamaço já vá adiantada!

De Jotacê a 24.09.2008 às 17:27

A ODISSEIA DE HOMERO FOI AFINAL A ODISSEIA DE AO...MÉDICO! :)

De Augusto Küttner de Magalhães a 25.09.2008 às 14:04

Não dá para bem perceber esta trapalhada de ODISSEIA´s....

De Maria de Lourdes Beja a 24.09.2008 às 17:43

Como lhe tinha dito, nem sempre foi possível vir até ao seu FIO..., mas sempre o fui lendo.E fiquei triste, quando,ao referir um crítico a um livro seu, sobressaiu uma frase um tanto"ácida" que indicia aquele persistente "pé atrás" das pessoas do Porto em relação às de Lisboa. É que eu tenho sempre lutado contra isso por mil e uma razões entre as quais avulta quanto eu gosto do Porto e dos portuenses... E tenho tão tristes memórias ligadas a essa terra ! Sabe que foi aí que morreu subitamente o meu Pai, quando em desempenho de uma missão de serviço ? e que foi aí que,anos antes, ele fora acometido do seu primeiro AVC, tendo sido sempre maravilhosamente assistido,acompanhado e até mimado por muitas pessoas do Porto ?
Mas não falando mais disso, gostaria de saber se leu o meu blog do primeiro dia de outono. Aliás,se ler coisas mais antigas perceberá como o outono é a "minha" estação. Sou uma mulher dos nevoeiros, das tardes curtas a esmorecerem naquelas horas em que fechamos as janelas para reforçar o conforto dos serões longos qe começam cedo... Dizia Saint-Éxupéry « une lumière qui s'éteint, c'est une fenêtre qui se renferme sur un amour..»,quando sobrevoava uma cidade, ao princípio da noite. É com esta ideia que hoje me despeço de si, Zilda. Bons serões !
Mª de Lourdes

De zilda cardoso a 24.09.2008 às 20:45

A m/ personagem diz umas frases ácidas a respeito de Lisboa, mas não as subscrevo actualmente. Não que muita coisa tivesse mudado. E eu própria acho por vezes que há uma injustiça... Neste momento, compreendo e aceito os brilhos da capital, somente porque é a capital e tem que nos representar bem no mundo. É a capital de todo o País e devemos rever-nos nela. Devemos aceitá-la e acarinhá-la e mesmo procurar engrandecê-la. É a nossa capital como o presidente da república é o nosso representante no mundo, representa todos os portugueses. Não é?
Devo dizer-lhe que até há 3 anos não gostava do Outono, do cheiro do Outono, sobretudo na cidade.
Mas agora gosto, porque os castanheiros ficam belíssimos nessa época e eu pude apreciá-los com vagar, a várias horas do dia, na Quinta do Casal, onde eles formam filas compactas, acesos de amarelo e de outros tons luminosos.
Compreendo que cada estação tem a sua beleza.

De Augusto Küttner de Magalhães a 25.09.2008 às 14:03

Posso? A capital é sempre a Capital, mas Lisboa não é o País. Eu até há 2 anos, tentava não achar que Lisboa fosse previligiada relativamente, não só ao Porto, mas também ao Porto.
Mas convenhamos que o é, primeiro Lisboa, segundo Lisboa....e depois o resto, no resto vem o Porto.
Não sou nada bairrista, mas penso ser realista!

De RENARD a 25.09.2008 às 21:42

Bem, dei uma gargalhada ao ler o remate do texto... Ainda estou a sorrir...
Obrigada por isso.
Um beijo de agradecimento por me ter feito rir. Das qualidades que mais aprecio nas pessoas.

De zilda cardoso a 25.09.2008 às 22:09

Ainda bem que se riu, ainda bem que a fiz rir. O melhor para mim, foi saber que ainda estava lá! mQuero dizer: há muitos dias que não sabia de si nem dos s/ comentários. Re-Bem-vinda.

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