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2 dias + 1

por Zilda Cardoso, em 20.05.12

Estes últimos três dias foram de epopeia. Passaram por mim, passei por eles? Foram diferentes de quaisquer outros dos últimos dias dos recentes anos.

Integrei-me numa excursão de arqueólogos e interessados alunos de arqueologia, todos maiores de 60 anos com olhos que viram muitas coisas bonitas e feias, boas e más, vulgares e estranhas.

Durante dois dias, apreciámos vestígios de arte rupestre no Vala do Côa, em Castelo Melhor e na Torre de Moncorvo, e só não fomos mais longe porque o autocarro que nos transportou não conseguiu passar as apertadas curvas de determinado lugar perto da Régua. De modo que voltámos para trás.

Em Castelo Melhor, o calor da tarde era sufocante e não havia ninguém nas ruas. Excepto as minhas simpáticas primas no momento a viver na aldeia, que me saudaram com acenos e abraços de boas vindas e logo depois de despedida (tivemos poucos minutos para conversar, mas houve uma promessa solene da minha parte de que voltaria este Verão). Grandes sorrisos, muitas palavras carinhosas e uma oferta especial deixaram-me desvanecida: à boa maneira acolhedora quase esquecida das pessoas portuguesas, uma delas ofereceu-me um queijo de grande qualidade, acabado de confeccionar a partir do leite das ovelhas que vi a pastar no monte perto do Castelo. Nada me podia ter dado maior prazer – ofereceu-me alguma coisa que ela mesma compôs por suas mãos.

Muito obrigada, Maria Adelaide.

 

As casas que vi na aldeia completamente remodeladas, nada tinham a ver com as das minhas recordações e isso naturalmente entristeceu-me: gostava delas como eram e penso que teria sido bom modernizá-las por dentro e preservar a sua aparência exterior, deixá-las como sempre foram, pelo menos, desde que há história delas.

O que gostaria de ter feito e não foi possível foi subir ao Castelo, mas o objectivo da visita era outro e pelo menos até que sejam descobertas, como em Penascosa, gravuras de cavalos e cabras ou outras abstractas ou geométricas, o Castelo ficará por visitar. Mas é de lá que se avista a deslumbrante vista circular do meu maior encanto.

O Castelo foi talvez construído sobre um castro pré-romano. Por ocasião da Reconquista Cristã da Península, Afonso IX de Leão deu à vila a primeira Carta de Foral em 1209 e reconstruiu o Castelo. D. Denis com o Tratado de Alcanices e a posse definitiva da região reforçou-o dando-lhe o Portão da Vila, que ”passou a ser guarnecido por dois torreões de planta quadrangular, transmitindo assim, ao visitante, a impressão de solidez e força, ao mesmo tempo que se mantinha a primitiva cerca amuralhada, reforçada por um torreão adossado, vigiando a única via de acesso”.

D. Fernando ampliou e reforçou a defesa da vila.

“Quando da Guerra da Restauração da independência portuguesa, tiveram lugar ligeiras obras de modernização e reforço, adaptando a estrutura defensiva ao moderno fogo da artilharia” (Internet).

O que se pode observar ainda é que o castelo coroa o monte, tem planta circular, muralha, três cubelos e porta em arco quebrado. No interior, na praça de armas, uma cisterna com planta circular.

Os jeeps que nos levaram e os caminhos para esses lugares de arte de Penascosa eram impossíveis de usar. Mas fomos a grande velocidade porque a guia achou que tinha que cumprir um horário e não havia outra forma de o conseguir. É evidente que tinha sido mais suportável ir a pé mesmo com aquele calor africano, sem poder abrir um guarda-sol – expressamente proibido ali naquele lugar ao ar livre(!) - sob um sol abrasador. E de pé, pacificamente, com o mesmo sol de 40º a pesar-nos nas costas, ouvimos a guia derramar a sua sabedoria rupestre sobre todos nós. 

Voltamos no jeep da mesma forma rude até ao largo da aldeia onde, numa loja recente de produtos da terra, o proprietário nos contou com pompa e circunstância o que sabia  da história de Castelo Melhor depois de ter proclamado em bom som se “queríamos ou não ouvi-la”, quer comprássemos quer não alguma coisa.

Dissemos que sim em coro, e ele desenrolou, com enorme satisfação própria, a história muito antiga do território de Ribacôa, um dos mais importantes sítios do mundo de arte rupestre de ar livre.

 

 

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publicado às 19:36


2 comentários

De Joana Freudenthal a 20.05.2012 às 21:00

Que belo passeio!!! Aqui contento-me com a promessa dos jacarandás que já espreitam.

Abraço com saudades.

De Zilda Cardoso a 20.05.2012 às 21:23

Vou aí estar dia 9/6, pelo menos. Já estarão bem floridos? Abraço.

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