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O navio de piratas

por Zilda Cardoso, em 11.05.12

Estava um vento dos diabos, mas fomos para a beira-mar. Havia dois dias que adiávamos. Eu e o meu neto pequenino, o que há-de fazer quatro anos um dia destes, gostamos de passear por ali. E procurámos os parques infantis.

  

 

Foi um entusiasmo lá dentro, ele e eu, naqueles aparelhos coloridos de verde, de vermelho, de amarelo…

Ele imaginou-se num navio de piratas das Caraíbas. Instava vivamente a tripulação, que era eu, a atacá-los, depressa, depressa, ali, daquele lado, já. Subimos, descemos, deixamo-nos cair, subimos de novo: uma encenação veemente e esclarecedora!

O barco grande vermelho começou a afastar-se graças ao ímpeto da nossa acção.

Depois disso, eu quis vir embora, recuar a bem dizer. O vento continuava arrasador e não se justificava mais a nossa presença no grande campo de disputa com o vermelho a escapulir-se, mar largo já. Mas ele insistia, queria avançar em perseguição do monstro, ir atrás dele aos saltos, apesar dos incontáveis senões. E rodava o leme, espreitava pelo óculo ostentosamente, investigava o fundo do mar…

Meia hora depois, quando saímos (acabar a luta, abandonar o lugar – foi o cabo dos trabalhos!), estávamos esfrangalhados pelo esforço conjunto de resistir ao vento e ao inimigo, ambos selvagens, inconvenientes, espalhafatosos, ainda cheios de caprichos e, vamos lá, de gargalhadas. Que vertigem!

Subimos a ladeira verde de relva até à esplanada sarapintada de flores brancas pequenas e outras maiorzinhas amarelas. Ele chamou-me a atenção para a necessidade e o seu desejo de apanhar algumas. Apanhava-as com muito pequeno pé e elas caíam-lhe das mãos.

Disse-lhe para as meter no meu bolso, as brancas e também as amarelas, coitadas. Meteu uma boa quantidade e esqueceu-as. Ainda lá estão… asfixiadas. Deixaram de sorrir para todos nós.

 

 

 Que faço com elas? Teve tanto empenho em apanhá-las, não compreendo. Mas deve ser próprio da extrema juventude. É?

Ou então eram para mim, para que eu tomasse conta delas, para me darem prazer, e eu é que as esqueci.

Seja como for, fiquei a pensar no entusiasmo dele seguido de abandono imediato. Não pensar muito para além do momento, do presente, talvez seja boa ideia.

Há tantas coisas para pensar, tantas coisas importantes como árvores em flor, nuvens brancas e novos tons de azul no alto, perfumes ténues e delicados sabores. Tantas coisas que influenciam a nossa vida e que a nossa atitude influencia. Coisas simples e essenciais.

Que temos agora então?

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publicado às 21:49


8 comentários

De Vicente a 11.05.2012 às 23:03

" Mais qu'importe l'éternité de la damnation à qui a trouvé dans une seconde l'infini de la jouissance?"

C. Baudelaire, "Le Spleen de Paris"

De Zilda Cardoso a 12.05.2012 às 08:20

Não acredito que acredite.
Acredito que alguém acredite porque ou quando não acredita na "danação".

De Vicente a 12.05.2012 às 08:33

eu limitei-me a citar Baudelaire que já arde no fogo dos infernos há muito...ahahaha...Zilda, por precaução porte-se sempre bem, seja boa pessoa, tenha bom feitio e sobretudo tenha bom coração:-)

as labaredas de fogo pelo seu corpo acima farão ainda melhor figura e inspirarão pinturas sublimes, muito mais do que a pobre Joana d'Arc...ahahaah

De Isabel Maia Jácome a 11.05.2012 às 23:45

Simplesmente delicioso!... e que bem que me fez ler... e participar!!! LINDO, Zilda!
Um abraço bem, bem apertado com tanto carinho,
Isabel

De Zilda Cardoso a 12.05.2012 às 08:16

Muito obrigada, Isabel. Espero um bom dia para si, um de cada vez.
Gosto muito de saber notícias suas. E como vão os seus muitos trabalhos?

De Isabel Maia Jácome a 12.05.2012 às 09:28

...olá, bom dia!!!
... está quase!!!!!! Tem que estar! E estou desejosa. Bem preciso!
Obrigada Zilda... o momento em que a li foi de um prazer enorme. Tenha um bom dia. Um de cada vez, como diz.
Beijinho,
Isabel

De CC a 14.05.2012 às 21:36

Querida Zilda,
A simplicidade tem muito nível.
Como é que um simples passeio com o neto pode acabar num texto tão bonito?
Nunca deixe de nos mimar com os seus textos ainda que, da minha parte, receba a ingratidão do meu silêncio, porém, sempre perto.

Fique bem!

De Zilda Cardoso a 15.05.2012 às 09:38

Muito obrigada, CC.
Claro que lamento muito não ter mais vezes as suas palavras.
Saber que está por perto, é muito bom.

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