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O meu Avô Francisco

por Zilda Cardoso, em 05.03.12

Era uma pessoa muito doce e tranquila que transportou consigo até ao fim a saudade da sua terra, seca e agreste, só fraga como ele dizia, mas onde eram produzidos os melhores e mais saborosos acontecimentos do mundo.

Veio viver connosco, deixando o resto da família e os amigos, a sua casa perto do Castelo, as terras e as árvores, os seus animais, o que apreciava e o que não, para uma vida mais confortável e menos inquieta na cidade. Em nossa casa.

Não creio que tivesse sido uma desilusão para ele, nem sempre a aldeia é o melhor lugar para viver,mas foi uma grande mudança na sua vida, uma enorme diferença. Ele gostava de estar connosco, de participar da nossa vida, de ser útil. Era um pilar, vigilante, atento, interessado. Todos o respeitavam, o amavam. Como se fosse o digno representante de uma vida anterior que não voltaria.

Eu era a que nasceu depois de ele chegar, beneficiei mais do que todos da sua companhia e dos seus ensinamentos.

 

Tínhamos as nossas divergências. Por exemplo, ele achava que eu devia ter frio de Inverno. Eu nunca tinha frio sobretudo porque me picavam as roupas de lã, picavam mesmo, e eram insuportáveis. De modo que só usava roupa de algodão que na época era muito fina e própria do Verão. Por alguma misteriosa razão, não constipava e ainda não constipo, eu tinha razão, mas em tudo o mais era ele.

 

Passeávamos pela cidade os dois, íamos dar pão aos patos na Cordoaria e voltávamos a pé pelos mesmos caminhos. Era a nossa ginástica e fazíamo-la em conjunto.

A parte espiritual também era à nossa maneira.

Ele ensinava-me as orações que eu devia recitar à noite, sem falta, e aconchegava-me a roupa - o que tem para mim um grande valor espiritual.

Frequentávamos ambos a Igreja da Lapa onde ouvíamos a missa das 10 com o excelente Padre Luís, pouco demorada, destinada às crianças impacientes. Ficávamos sempre no mesmo lugar, um banco corrido logo depois da cancela que separava o vulgo da gente importante. Ninguém lhe disse nunca para ficar ali, mas era uma escolha dele, sempre modesto e moderado, e eu continuei depois a ir para o mesmo lugar, seguindo-lhe as pisadas. Acho que mudamos de lado, uma vez, da direita passamos para a esquerda, ou o inverso, e tudo continuou nos mesmos termos.

No Natal, o ponto mais alto do dia ou da noite era aquele em que o Avô se levantava e à distância (era muito importante a distância) cantava as canções do Natal da sua terra do Coa, a mesma onde terão habitado árabes e visigodos, e onde foram descobertas gravuras do Paleolítico e possivelmente da Idade do Ferro.

E contava histórias, naturalmente, muitas histórias que lhe tinham contado, aquelas que inventava e as que vivia. Algumas eram divertidas outras trágicas, umas de bruxas e lobisomens, umas de terror e de fantasmas.

Eram os seus filmes.

 

Eu... adoro aquela terra onde voltei algumas vezes - o pão e as bolas do dia da fornada eram cozidos no forno comunitário, uma vez por semana apenas para ficar mais barato. O forno era aceso num dia determinado e a forneira avisava as pessoas, que estavam destinadas a cozer o seu pão naquele dia, do momento em que podiam trabalhar a massa lêveda e levá-la para o forno, cada peça marcada pela dona com um sinal, por causa de confusões com outras que talvez não tivessem sido tão bem trabalhadas. Porventura não sei explicar...

O pão de trigo e o de centeio, cereais cultivados e moídos ali, eram moldados em bolos grandes donde se cortavam as fatias para ir comendo com azeitonas, com presunto, com queijo. E de que se faziam as migas tão da preferência do meu Pai. As migas era uma espécie de sopa feita com fatias de pão finíssimas que se colocavam numa tigela e depois eram regadas com um caldo muito quente com alho ou um refogado de tomate ou de bacalhau.

As pencas e os outros legumes eram deliciosos e usavam-se e sabiam bem na noite de Consoada, véspera de Natal. Os enchidos eram especialmente bem feitos e duravam todo o ano, conservados ao fumo da lareira.

O meu Avô adorava estas coisas e eu passei a apreciá-las, seguindo o seu exemplo.

Aprendi a gostar de coisas simples: de passeios a pé, de aldeias históricas, pitorescas, primitivas; de Castelo Melhor, do rio Coa, das amendoeiras em flor e, sobretudo, das oliveiras cuidadosamente podadas e azuis. Apreciei as caminhadas em Castelo Melhor para o Castelo em ruínas donde podia apreciar o mundo todo em redor – um fascínio.

 

Foi graças a ele que aprendi uma coisa muito importante: o mundo, afinal e apesar de todas as contrariedades, é um lugar onde vale a pena viver. Se não formos muito exigentes, vemos as coisas boas que ele tem.

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publicado às 18:20


5 comentários

De Marcolino a 06.03.2012 às 03:13

Olá, Zilda!
Mas que grande e ternurenta vivência!
Obrigado por este seu testemunho!
Abraço
Marcolino

De Zilda Cardoso a 06.03.2012 às 08:20

Também lhe agradeço. Fico entusiasmada quando falo do meu avô que preencheu muito a minha vida durante anos. Era uma pessoa bondosa e que tinha uma missão a cumprir em relação a mim. Foi muito inteligente da parte dos m/pais quererem e convidarem-no para vir viver connosco. E foi muito bom para mim em especial e para toda a família onde tinha um papel a desempenhar - o que o manteve vivo e saudável até aos 86.

De Maria Mendes a 07.03.2012 às 09:17

Obrigada, foi uma delícia ler o que escreveu!
Já ganhei o dia, obrigada.

De Zilda Cardoso a 07.03.2012 às 12:48

Muito obrigada, fico muito feliz.
O meu Avô Francisco, não conheci outro, foi muito importante para mim. Preencheu uma lacuna enorme de que não posso falar sem comoção, e continuo a ter uma ternura por ele que nada preencheu, apesar de ter morrido há tantos anos. Só desejo assim um avô para cada neto, a cada neto um avô assim. E a cada avô um neto que o estime deste modo.

De Maria do Carmo Almeida a 09.03.2012 às 13:38

Boa tarde Zilda,
Que bem que me soube ler este seu texto nesta minha hora de almoço. De facto as nossas referências são preciosas. Gente que através do seu exemplo nos ensinou para sempre a apreciar as coisas simples, com uma grande dignidade.
Obrigada. MCA.

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