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"Cada um é inseparável da sua maldade", li ontem

por Zilda Cardoso, em 23.02.12

Ultimo dia de Carnaval - dos três dias a abarrotar de folias e gorduras, este é o dia mais gordo, a que se seguirão muitos dias de privações: não posso imaginar como gostaria que fosse. Como gostaria que fossem só quarenta dias.

  

A minha viagem foi tão peculiar como qualquer. E fomos os três. Por uma vez… eis a diferença: a minha amiga e o pequenino de cabelos aos caracóis, reguila, sem dúvida, e bonito que eu sei lá, bom, são e saudável, ainda não completamente arruinado pela cidade… foram comigo.

“… a cidade é uma infelicidade organizada”, diz o Bloom 2 ou talvez o Gonçalo M. Tavares. Mas eu achei que a cidade devia estar alegre e galhofeira ontem, Mardi Gras, na Baixa. E fomos os três, como disse.

 

Havia carrosséis e pipocas de cores variadas e balões que eram automóveis Faísca e criancinhas vestidas de bruxas e de diabos e uma noiva já crescida de rendas brancas a arrastar na sujeira. Tudo de um mau paladar a toda a prova, sem necessidade de demonstração. E o silêncio não penetrava ali: eram berros de arrepiar.

Acho que não vi caretos, gostava de ter visto, fora do Museu.

 

 Andamos de carrossel, os três muito juntinhos num só banco, espantados como se nunca tivéssemos andado às voltas e às curvas, a subir e a descer, com as pipocas na mão num saco estreito e alto; daí a pouco, pipocas por todo o lado, às cores.

Tínhamos caminhado desde a Torre dos Clérigos, aos pulos e risinhos, a descer, com lojas dos lados sem fineza nenhuma, velhas lojas antiquadas, longe do esvaecido encanto das tradicionais. Nada para admirar agora, nenhum perfume, nada.

Um de nós está a aprender muito e não vai esquecer. Eu só comparo: não gosto da avenida dos Aliados nem da outra como são agora, cinzentas e feias e ácidas. A minha amiga procura conciliar.

 

Não sei se tem futuro esta cidade a partir do que se vê na Praça da Liberdade. Os ruídos estão todos ali concentrados. Mas acho que há ainda pessoas que pensam e vale a pena ouvi-las, são cada vez menos. Essas não deitam lixo no chão no pressuposto de que alguém virá apanhar, mesmo neste dia meio-feriado. E eu imagino o que seria se ninguém viesse apanhar nunca os detritos do chão, aqueles que alegremente são jogados fora sem outro pensamento.

Não sei se tem futuro, esta cidade. Proximamente, votarei num Presidente que mande ensinar as pessoas a guardarem o seu lixo nos caixotes respectivos, talvez na habitação. E o seu barulho também.

Quando voltar a casa terei percebido.

Nesta cidade “...cada um é inseparável da sua maldade”, recordo ter ouvido ou lido, lido.

Fomos tomar chá ao Astória nesse mesmo sítio, chá versus coca-cola, já que não consegui dissuadir o mais jovem de a beber, mesmo num lugar muito pouco nada americano. Coca-cola! A tal que dá prazer - o último prazer desta terça-feira de prazeres - e provoca danos irreparáveis em materiais duros, como pode ele acreditar? Ou não acreditar?

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publicado às 13:47


10 comentários

De Marcolino a 24.02.2012 às 13:57

Olá Zilda!
Tenho andado a lê-la em silêncio, não porque me falte tempo, mas sim, porque tento seguir este seu percurso que, a meu ver, é uma faceta que sempre desconheci em si.
A sua sã ironia faz-me pensar, mas também sorrir!
Desta vez não me contive com esta sua mini-reportagem e, aqui estou, a sorrir de satisfação, para lhe dar os meus parabéns, por me ter feito imensamente bem, além do sorrir, gargalhar um pouco, principalmente, pela sua subtileza, ao descrever o contraste de velhos hábitos com o deu seu jovem acompanhante, no Astória, que também frequentei, há alguns anos atrás.
Imginei o esforço que ele teria que fazer para vos poder acompanhar, com ar infeliz, na degustação do vosso chá. Foi preferivel, ôlha-lo, bem mais feliz, de Coca Cola em punho, com todo o seu prazer de viver...
As fotografias, tanto deste texto, como a dos outros estão muito boas!
Vou continuar atento, sempre à espera de me divertir, com a sua saudável forma de me descrever, tudo quanto que, aos meus olhos, se tornou invisivel, por força da habituação diária.
Obrigado pela sua visita, e pelo seu comentário!
Abraço
Marcolino

De Zilda Cardoso a 24.02.2012 às 15:45

É bom saber que há alguém sempre atento, eu gosto. Sabe, cada vez mais as pessoas têm pressa e não reparam em quase nada. Ou reparam, mas... demora muito a escrever 2 palavras de comentário. E ultimamente. como faço habitualmente ligação ao FB e é muito mais fácil dizer GOSTO, os comentários são raros. Claro que prefiro os comentários no blogue, têm mais substância e as pessoas têm oportunidade de dar opinião sobre tantos assuntos. Poder dar opinião, ter uma opinião é indispensável no n/regime político. Por que não começar a pensar, a reflectir, a formar uma ideia? Andamos para aqui a fazer o quê?

Muito obrigada pelas s/palavras.

De Isabel Maia Jácome a 26.02.2012 às 02:10

prefiro os blogues... ou alguns blogues... e não preciso repetir a importância que o seu tem para mim... e o quanto me dá prazer e me faz bem... continuo a achar que, de qualquer forma, esta sua aparente nova forma de escrever, já há muito que é a sua... ou sou eu que a leio assim nas entrelinhas?
...momentos diferentes... modos diferentes... nada é igual... mas nessas entrelinhas, a mesma sageza, atenção, reflexão, desafio à reflexão, desafio consigo mesma... e eu gosto. E acho preciso. E importante. E gosto de dizê-lo, embora por vezes receie que possa tornar-se ou parecer bajulador, quando não tem mesmo nada de bajulador. Detesto a atitude frenética dos fãs atrás de ídolos. Gosto de respeitar e amar. Sim. Amar, respeitar, sem que isso soe a piroso, ou tolo. Chamar os sentimentos pelos nomes sem medo. Respeitar, amar, aqueles que o merecem...E é bonito e bom... esse respeito, esse amor!... e esta é apenas uma apreciação genuína... e contém um desejo enorme também, de que muitos outros apreciem o tanto, neste caso, que a Zilda tem para nos dar.
É lindo o que tem escrito!!!
Beijinho...
Isabel

De Zilda Cardoso a 26.02.2012 às 10:03

Isabel, bom dia

Muito obrigada pelas suas palavras, é tão bom sentir a sua amizade. Ter amigos é um privilégio, é bom que os amigos afirmem a amizade que sentem. É muito agradável saber que nos ouvem e lêem e que apreciam, que valorizam, que compreendem. E que ficam a pensar nos mesmos temas e que formam uma opinião acerca de assuntos que nos interessam a todos. A minha intenção é muito essa e é por essa razão que aprecio ter comentários. Aprecio que as outras pessoas tenham opinião fundamentada, que não seja ideia gratuita mas baseada nalguma coisa concreta ou levou tempo de reflexão e por isso tem valor.
Anos atrás, admirava muito quando nalgum país estrangeiro tinha oportunidade de falar com pessoas de cultura modesta e pequenos empregos, mas que eram capazes de discorrer com sentido sobre o que se passava no seu país ou sobre determinada forma de organização... Ficava admirada. Mas nós tínhamos censura e um regime político que não permitia... que não dava oportunidades nesse sentido. Pois bem, passaram tantos anos de liberdade e... o que temos agora? Um caos de acusações e de lamentos sem fim.
Tenho esperança de que aprendamos a pensar e a reflectir sobre os acontecimentos e sobre as pessoas e os seus actos de forma coerente e inteligente.
Minha amiga, Isabel, quem me dera estar, a meu modo, a contribuir para isso, como é meu desejo.
Com todo o meu carinho. ZM

De Isabel Maia Jácome a 26.02.2012 às 11:02

...acho que contribui e muito...
...devia ser possível estarmos aos pequenos grupos consigo e irmos dar alguns desses passeios na sua companhia...
...certamente aprenderiamos a ver algo mais... e quem sabe... a encontrar melhores formas, ou possíveis ideias para contribuirmos de forma mais efectiva para a mudança que é precisa...a mudança na forma de ver... a mudança na forma de estar...por vezes na forma de ser... e é tão difícil... mas também, possivelmente tão mais fácil quando alguém nos mostra um pouco do caminho... já encetado... as suas dúvidas e interrogações, as suas reflexões... e o tanto que elas implicam para não nos permitirmos que a vida nos passe simplesmente a largo!...
..e o alerta, mesmo que de forma subtil, para o muito mais que existe e nos esquecemos de sentir e ver e transformar...
podia ficar a qui a pensar sobre tudo isto...
...fica só a certeza de que o faço e é bom saber que, embora cada um à sua maneira, não estou sozinha.
Obrigada pela sua amizade e pelas sua palavras que me deixaram tão feliz!!!
Sempre,
Com muito carinho e reconhecimento
Isabel

De Vicente a 26.02.2012 às 12:40

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

Luís de Camões

De Zilda Cardoso a 26.02.2012 às 12:49

Nunca Camões será suficientemente homenageado!

Como está Vicente?

De Vicente a 28.02.2012 às 12:00

Ando inquieto Zilda! Estes tempos não são fáceis e há muitas frentes ao mesmo tempo.

De Zilda Cardoso a 28.02.2012 às 18:38

Está só a repousar e a reflectir... Depois... virá aí com força... fazer o que precisa ser feito. E resultará.
Também vou reflectir 3 dias e não é em nenhum convento, é ao ar livre. Ficarei melhor com certeza e vou descobrir coisas novas! Juro!

De Vicente a 29.02.2012 às 12:17

Sim, claro que sim:-) Nunca desisto.

Descanse bem pois sabe divinamente de vez em quando "pairar por cima das nuvens".

Volte com forças renovadas.

Bj amigo

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