Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



viagem de hoje

por Zilda Cardoso, em 15.02.12

 

  

Na minha viagem de hoje à Índia, volvi logo à esquerda na primeira esquina e continuei pela avenida. Mas não sabia qual a direcção certa para a Índia, dado que o vento, vindo do norte me empurrava para a frente, e desse modo, para sul.

Não há outra maneira, pensei, tenho que consultar o mapa cor-de-rosa e aí, na verdade, a cidade aparece achatada sobre azul, totalmente redonda: uma figura geométrica minúscula a duas dimensões em que não sobressaem gaivotas nem garças nem pescadores nem os outros habitantes habituais destas paragens.

A circunferência abarca a cidade toda sem qualquer gentileza e, por isso, eu olho para o mar ali ao lado com carneirinhos brancos que crescem e se multiplicam ao passar do dia, encaracolados, e acho este mar muito mais gracioso do que o do mapa que o representa. Não compreendo qual o interesse de construir mapas em que os mares são menos belos, muito menos, do que os que vemos em directo ali da praia.

  

 

 

 

 

É ligeiramente ondeado como um lago azul e fico a saber que na verdade vou de norte para nascente, levante, oriente – portanto, na direcção correcta em ordem ao meu fim. É um lago lindo com os cordeiros a brincar, mas onde já não deve haver toninhas.

É tudo tão ambíguo, penso em silêncio.

De vez em quando, lembro-me das toninhas, cetáceos que usava ver a subir o rio, o Douro, a partir do mar, claro, eu via-as saltar vários metros como os golfinhos por brincadeira, e mergulhar às profundezes para voltar a saltar daí a pouco. São uma espécie de golfinhos, há 37 diferentes espécies. Saltavam exactamente como vi mais tarde os outros em cativeiro, coitados, se calhar os daqui iam na sua viagem de sonho, a partir do lago azul e com um objectivo bem definido. Por que razão não aparecem agora? Não quererão ser apanhadas para um circo... Ou já não encontram os peixes frescos da sua preferência…

Talvez na Internet encontre explicações, algumas tolas, já sei.

  

  

 

 

Encontro chineses e entro. A sua língua tenta parecer a nossa, querem vender coisas bizarras, baratas e feias, de má qualidade, não acredito que seja esse o brilho oriental… Fazem-me uma data de respostas ridículas, não me deixo convencer. Penso nas belas toninhas acrobatas e na poluição possível do rio semelhante à da ribeira da Granja.

Será importante demorar muito tempo a chegar à Índia, como dizem.

De modo que, passei pelos chineses todos e regressei descontente, pelo outro lado da avenida, onde há anos havia um canteiro de amores-perfeitos brancos na Primavera. Todos brancos … tão perto do lago dos golfinhos ausentes… E eu não queria acreditar.

Mas agora não há amores. Há mais gaivotas, porque não resisto à tentação, eu e outras pessoas de levar pão aos patos, e as gaivotas roubam-lhes o pão e proliferam. Não me admira que a população de humanos e de cetáceos diminua e aumente a das gaivotas – ou Birds, como lhe chamava  o Hitchcock das quais ninguém gosta, nem ele. Nem o Município.

Ainda há dias, estava na dita avenida, o homem das castanhas assadas quentes e boas - diz ele, mas não sei. Gosto é do fumo cinzento claro que parte do assador e tinge as castanhas - que são primeiramente castanhas - de cinzento. Decidi não experimentar.

Continuei no caminho de regresso contrário ao da Índia, para noroeste.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:15





Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog



Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D