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No clube literário...

por Zilda Cardoso, em 30.10.11

No C. L. P. houve ontem a primeira reunião do Clube de Leitura da Associação Florbela Espanca que se propôs "uma leitura crítica e uma reflexão sobre uma obra notável da literatura portuguesa" - Aparição, de Vergílio Ferreira.

Sendo um dos autores que mais aprecio, fui ouvir Rogério Silva falar dele.

O ambiente foi divertido; possivelmente, Vergílio Ferreira não teria gostado. Pude contar as pessoas depois de acalmarem um pouco da agitação em que estavam, e não eram muitas. Tive pena. Não pude deixar de pensar que tinha dado um trabalhão preparar a conversa…

 

 

 

 

O sol que entrava pelas portas das varandas perturbava a visão das coisas e das pessoas - é possível mudar a posição da mesa de quem se propõe falar voltado para um público de outras mesas. O sol aparece pelas costas do orador que fica em contra-luz escuro. É difícil ver quem está a falar.

Para que o ambiente ficasse mais tranquilo, ou atento a outra coisa que não a agitação, alguém simpaticamente começou a tocar piano. E eu já não sabia se ia ouvir um concerto, falar de Florbela Espanca ou do existencialismo português... Depois meteram-me na mão a Carta do Bar e percebi que havia um consumo obrigatório e que estava num bar. Que coisa, pensei.

Alguém veio limpar o pó (!) e arrumar um pouco as cadeiras, tipo organização no próprio caos.

O piano continuou muito bem a alegrar-me a vida, só me pareceu ligeiramente embaraçada a música e a sequência de músicas, mas não haveria problema, era cenário, só para chamar a atenção das pessoas para o caso que se ia passar.

Ficou uma mesa principal para o orador, uma ou duas mesas com três pessoas cada, outra com uma e algumas sem mesa. Era pouca gente.

O Dr. Rogério Silva, professor de língua e de literatura portuguesa, sabe muito de existencialismo e de Vergílio Ferreira e eu agradeço o trabalho de fazer os outros compreenderem. Não é fácil. Mas o que disse deixou-me muito satisfeita: para além de romances e de diários, eu só conhecia bastante bem o prefácio estruturalista de As Palavras e as Coisas e nessa ocasião tinha-me apaixonado pelo estruturalismo e pelas análises brilhantes de Michel Foucault.

 

 

 

Só quero registar aqui algumas afirmações de Rogério Silva sobre o existencialismo do nosso autor e reproduzir algumas das supostas suas palavras.

Disse que lhe parecia o existencialismo de V. F. uma manifestação genuína e que não sofreu influência de J. P. Sartre, pelo menos a princípio: ele não deve nada nem é inferior ao escritor francês.

O existencialismo era para ele uma religião. Que sentido faço no mundo, pode cada um perguntar. O que é a consciência? A existência não se pode exprimir pela inteligência humana. Quem nasce é ainda nada.

Um homem é um projecto de vida, e é condenado a ser livre; é responsável pelo que é e por todos os homens. É em consequência deste pensamento que sente a angústia.

V.F. não é tão pessimista como Sartre, diz Rogério Silva. A sua característica é o pensamento dialéctico. Ser é agir.

Falo no excesso que o homem é. Não precisa de suporte filosófico. Essa é a sua miserável grandeza.

No fim da caminhada, morreremos.

O homem é o primeiro e o último da sua experiência no mundo.

Isto não serve para mais nada senão para ser homem.

Que milagre é a nossa vida!

Devemos pensar no milagre que é ser homem.

Aparição do eu para si próprio; celebração do encontro do eu consigo mesmo.

A vida é excesso. É preciso entrar na loucura e sair dela. Como pode não existir nada para além da morte?

“Eu? Poderia lá morrer?!” O homem aqui é Deus porque pode matar.

Como justificar a vida em face do absurdo da morte?!

Que fazemos nós na vida? Não se encontra sentido... Que sentido faço no mundo? O que é a minha consciência? Somos objecto de nós próprios. Partiremos da objectividade, como se a existência se pudesse exprimir pela inteligência humana…

… inquietante preparação de si… (Encontrei esta frase nestes meus apontamentos e pergunto-me: será a vida inquietante preparação de si para a morte? É assim que deve ser entendido?).

Mais importante que qualquer outra ideia que tenha sido mostrada na ocasião é a afirmação de R.S.: “A nossa vida é menos pequena quando lemos autores como Vergílio Ferreira”.

 

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publicado às 19:39


2 comentários

De Vicente a 01.11.2011 às 23:21

Se não nos concentrarmos no pensamento de bons autores elevando a mente, creio que cada dia que passa mais amargura se apoderará de nós, insidiosa, maléfica, destruindo-nos as “guardas”!

Sobretudo eu já nem olho só para Portugal. O que nos espera em cascata com tanto despautério?

Se nos pusermos na pele dos gregos, das famílias empobrecidas que, disse-me um amigo, partilham agora andares colectivamente e repartem o dia-a-dia com penosidade e extrema infelicidade, talvez possamos vislumbrar alguma "razão" na falta de realismo de quererem um referendum!

Estão fartos da Europa e dos próprios políticos gregos que os levaram a esta situação! E mesmo que olhem para o passado e se culpabilizem, o presente é que é feito de miséria, desemprego, fome, desespero! E acontece agora, em cada dia, em cada fim de mês!

Para pior não irão, pensam os gregos, ao menos que sejam senhores do seu (pobre) destino!

E o precedente poder-se-à estender a todos estes países sob o jugo de uma batuta europeia desgovernada e perdida.

E é isto que me angustia, pois naturalmente vamos pagar a factura e será ainda muito mais pesada!

Não sei mesmo o que pensar, o que decidir em relação ao futuro aqui em Portugal!

O que fazer de poupanças? o que fazer da propriedade de bens imóveis herdados que a cada dia se desvalorizam sem nunca mais terem decente retorno? como suportar ainda mais impostos previsíveis? etc, etc, etc.

E já é este o dilema da maioria dos portugueses conscientes:

como sobreviver na velhice com magras pensões ilegítimamente reduzidas e taxadas depois de se descontar toda uma vida? como defender o nosso emprego, quando tudo à nossa volta cai em pedaços?

E tudo isto tem que ter resposta independentemente de saberem o que nos dizer, ou melhor, de sabermos como decidir.

Porque, inevitávelmente, o que tiver que acontecer virá!

São tempos de grande tormenta!

De Isabel Maia Jácome a 06.11.2011 às 01:37

Querida Zilda
Há aulas em que não consigo deixar de me questionar sobre o quanto me apetecia e parece mais proveitoso ouvir e pensar sobre o que nos transmitiu Virgílio Ferreira... Felizmente que outras me aquecem e conseguem estimular... mas as questões pessoais continuam.
Deve ser de me sentir sempre mais perto do limite depois dos cinquenta... e não me apetecer perder mais tempo com indecisões caras, mesmo sendo ainda tão indecisa, aparentemente!
É preciso "meter a mão na massa". Começar por pouco, mas acima de tudo, persistir, persistir. Essa foi uma boa lição apreendida no dia de ontem que adorei.
É fantástica a sede de ouvir e de aprender, reflectir e prosseguir. Acreditar! Porque há jovens que valem a sério e nos conseguem surpreender.
Foi o que me aconteceu numa aula de empreendedorismo ontem. Um jovem professor, FANTÁSTICO! :) :) :) Ainda há jovens em Portugal com qualidade... espero que este não se vá embora!
...gostava mesmo de poder estar numa dessas reuniões a ouvir questões literárias e filosóficas... e ao mesmo tempo a aperceber-me que estou a sentir a vida. A minha e mais toda a que fervilha à minha volta!
beijinho
Isabel

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