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Porto-Lisboa de comboio

por Zilda Cardoso, em 21.10.11

 

Uma viagem de quase três horas por terras tão
investigadas e populares, tão conhecidas... … dá bem tempo para inventar uma
história e para escrevê-la. Tempo e espaço. Era esse o meu desígnio, mas muitas vezes, as
coisas não acontecem como as projectámos. Sai tudo enviesado, torcido, oblíquo,
a começar pelo lápis sem bico e por esta caneta vazia ou que se recusa a
escrever por alguma razão desconhecida.

Sai tudo entrecortado da minha bela caneta
azul Saint-Honoré!

Olho para o ecrã do televisor instalado no
tecto da carruagem e vejo um farol colorido de ideias. Farol de ideias, mas
dali não sai nenhuma para mim. E depois acontece como sempre nestas viagens: um
senhor vem amavelmente ensinar-nos a cozinhar no meio de grande verbosidade e
bonita paisagem como fundo.

Ao meu lado, está uma revista aberta e
leio:” Se viveres a vida como se cada dia for o último, um dia terás razão”, em
letras gordas, a vermelho, de um lado ao outro de duas páginas. Quer dizer que
vai haver um último dia? Alguém tinha dúvidas?

 

 

O Sr. Cozinheiro continua implacavelmente a
cozinhar, está a fazê-lo sobre uma mesa coberta de pano verde e o que parece uma larga
escadaria por trás. Ele corta com grande perícia e uma faca monumental sobre
uma tábua, corta vários elementos que junta numa panela vermelha. Nunca levanta
a cabeça. Julgo que tem óculos escuros, mas não tenho a certeza, podem ser
espessas sobrancelhas negras.

Desisto da caneta, não consigo decifrar o
que escrevo. Encontrei outra anã e que não deve nada à beleza e digo,
continuando a observar o ecrã, é um cozinhar monótono, sem qualquer entusiasmo
nem preocupações estéticas nem… quais serão as suas preocupações? Culturais? O cozinhado
dá vómitos.

Junta polvo com a mistura molhada do que
esteve a cortar e que parece ser de frutas vermelhas e rosadas e beges
mastigadas. Polvo em caril, anuncia. E eu penso, deve ser bom, devia ter
prestado mais atenção.

Afinal trata-se de mostrar que vinho vai
bem com o caril. E talvez com a paisagem.

Falta meia hora e não escrevi a minha
história. O ambiente não é inspirador, nem mesmo uma história
magrinha, transparente, uma de bailarina, por exemplo.

Bailarina no comboio? Bailarina só ossos
clássica, a dançar em pontas nos corredores do comboio Porto-Lisboa? Parece
original. Talvez os balanços ajudem  os
movimentos do seu corpo, não tenha que fazer tanto esforço, saia uma coisa
diferente, leve, com pouca cor e música igualmente pálida e elegante.

Suspiro fundo. Relembro, ainda uma vez,
palavras de Agustina:”Eu nasci para falar de todas as coisas como se elas não
tivessem voz. Assim faço.”

E eu? De que falo?

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publicado às 14:11


7 comentários

De Isabel Maia Jácome a 22.10.2011 às 20:06

Querida Zilda
... a mim parece-me que fala também de todas ou pelo menos de muitas coisas que aparentemente possam parecer não ter voz e a que a Zilda dá uma forma e existência especiais...
...a voz que vê, a voz que interroga, que se interroga e a voz que dá voz e sentimento ao silêncio de tantas coisas... as que guardamos sem saber dizê-las...ou mesmo aquelas que o silêncio nos fala...
…dá voz ainda, ao que às vezes não queremos que se oiça por temermos ridícula, imprópria, não nos termos, mas nas voltas e nos nós entrelaçados, entre o que pensamos da vida que nos cerca e do que imaginamos sem querermos quase dar conta.
…dá voz! Pinceladas da vida interior que têm tanto que se lhe diga, na alternância heterogénea do pensamento que não pára e de que nem sempre damos conta por não vivermos aqui e agora... Ínfimos pormenores que desprezamos tantas vezes por nos parecerem a maioria sem interesse: desprezamos essas coisas simples… desprezamos o que possamos pensar, sentir de menos científico, ou majestoso, ou mesmo brilhante!... desprezamos o que somos na totalidade, parece-me…para nos filtrarmos num espelho que fabricamos e que nos dá jeito.
Mascaradas que não precisamos. Ou precisamos?
Até quando???

Eu gosto da sua voz, eco da de tantos nós, sem medo, e de forma tanto pragmática e incisiva, quanto inventiva, criativa ou poética. Benditos os vários estados!!!!!!!!!

Pelas suas palavras e por ser quem é, a continuação deste meu OBRIGADA, enorme!
Saudades
Isabel

De Zilda Cardoso a 23.10.2011 às 11:31

Querida Isabel
Começo a achar que tem um dom, um dom emocional e inteligente, que deve continuar a cultivar e a aproveitar... para escrever, naturalmente. É um dom que lhe permite ver mais além do que é mostrado. Não deixe que se perca, envolvido nas complicações da vida. Não deixe que se perca. Vai permitir-lhe escrever coisas que nos vão deliciar.
Muito obrigada.

De Marcolino a 22.10.2011 às 23:05

Olá Zilda!
Devido ao meu debilitado estado de saúde, por causa da Diabetes que me atacou os tendões das pernas e pés, tenho vindo rarissimas vezes, ler e comentar, nem me assiste a paciencia para escrever as minhas poetagens.
Este seu texto é deveras lindo, é mesmo o que sinto quando viajo nesses comboios, fez-me reviver quase todas as minhas viagens no Alfa e no Intercidades.
A sua primeira fotografia deixou-me extasiado, um belissimo luar, engalanando o suave mar da Foz!
A segunda, uma belissima fotografia que nos dá a noção exata do que se vai vendo, de dentro para fora, nessas viagens, em carruagens de largas janelas panorâmicas.
Obrigado pelo seu comentário ao meu post!
Abraço
Marcolino

De Zilda Cardoso a 23.10.2011 às 11:48

Caro Amigo

Receava que isso estivesse a acontecer... que estivesse doente. Mas como sempre, está optimista, o que é meio caminho andado para ficar bem e voltar à sua actividade habitual. Que é o que eu lhe desejo.
Muito obrigada pelo seu sempre amável comentário.
Até breve.

De Ana Perez a 23.10.2011 às 01:32

Cara Zilda, espero que os designios da sua ida a Lisboa tivessem corrido pelo melhor. Estimo que a viagem de volta seja mais rpodutiva e agradável. Que a escrita seja prodiga e expressiva , que o programa de televisão seja um daqueles maravilhoso documentários do National Geographic que me fazem sempre prometer que um dia ainda hei-de lá ir, ou então que encontre o tão esperado silêncio turgido de memórias e vivências de que falámos noutro dia. Eu quando viajo de comboio gotso de olhar pela janela. Primeiro ainda me ocorem pensamentos que acabam por fugir como as àrvores e casas de paisagem que cruzo e ao fim de algum tempo consigo esvaziar, literalmente a cabeça e então ser zen.
Beijo e até breve

De Zilda Cardoso a 23.10.2011 às 11:58

Ainda bem que consegue atingir esse estado agradável numa viagem decerto tão repetida! Ainda bem.
Os documentários do N. G. são sempre maravilhosos, mas ultimamente só tenho apanhado os outros. E então viro-me para o papel, ligeiramente irritada, a pensar que uma das coisas que temos que decidir neste tempo de crise é que trabalho inútil nos ocupa e não interessa à maioria nem tem valor. E ter a coragem de acabar com ele.
Um abraço, Ana.

De Joana Freudenthal a 23.10.2011 às 14:27

Olá, Zilda!

Eu costumo dizer: «Se queres ver Deus a rir-se, conta-lhe os teus planos»...
Tantas vezes fiz essa viagem e não me lembro sequer de haver um ecran. Nunca me aborreci e fazia sempre a mesma coisa: rezava e lia, lia muito. E dormia...

Abraço com saudades.

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