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Uma viagem de quase três horas por terras tão
investigadas e populares, tão conhecidas... … dá bem tempo para inventar uma
história e para escrevê-la. Tempo e espaço. Era esse o meu desígnio, mas muitas vezes, as
coisas não acontecem como as projectámos. Sai tudo enviesado, torcido, oblíquo,
a começar pelo lápis sem bico e por esta caneta vazia ou que se recusa a
escrever por alguma razão desconhecida.
Sai tudo entrecortado da minha bela caneta
azul Saint-Honoré!
Olho para o ecrã do televisor instalado no
tecto da carruagem e vejo um farol colorido de ideias. Farol de ideias, mas
dali não sai nenhuma para mim. E depois acontece como sempre nestas viagens: um
senhor vem amavelmente ensinar-nos a cozinhar no meio de grande verbosidade e
bonita paisagem como fundo.
Ao meu lado, está uma revista aberta e
leio:” Se viveres a vida como se cada dia for o último, um dia terás razão”, em
letras gordas, a vermelho, de um lado ao outro de duas páginas. Quer dizer que
vai haver um último dia? Alguém tinha dúvidas?
O Sr. Cozinheiro continua implacavelmente a
cozinhar, está a fazê-lo sobre uma mesa coberta de pano verde e o que parece uma larga
escadaria por trás. Ele corta com grande perícia e uma faca monumental sobre
uma tábua, corta vários elementos que junta numa panela vermelha. Nunca levanta
a cabeça. Julgo que tem óculos escuros, mas não tenho a certeza, podem ser
espessas sobrancelhas negras.
Desisto da caneta, não consigo decifrar o
que escrevo. Encontrei outra anã e que não deve nada à beleza e digo,
continuando a observar o ecrã, é um cozinhar monótono, sem qualquer entusiasmo
nem preocupações estéticas nem… quais serão as suas preocupações? Culturais? O cozinhado
dá vómitos.
Junta polvo com a mistura molhada do que
esteve a cortar e que parece ser de frutas vermelhas e rosadas e beges
mastigadas. Polvo em caril, anuncia. E eu penso, deve ser bom, devia ter
prestado mais atenção.
Afinal trata-se de mostrar que vinho vai
bem com o caril. E talvez com a paisagem.
Falta meia hora e não escrevi a minha
história. O ambiente não é inspirador, nem mesmo uma história
magrinha, transparente, uma de bailarina, por exemplo.
Bailarina no comboio? Bailarina só ossos
clássica, a dançar em pontas nos corredores do comboio Porto-Lisboa? Parece
original. Talvez os balanços ajudem os
movimentos do seu corpo, não tenha que fazer tanto esforço, saia uma coisa
diferente, leve, com pouca cor e música igualmente pálida e elegante.
Suspiro fundo. Relembro, ainda uma vez,
palavras de Agustina:”Eu nasci para falar de todas as coisas como se elas não
tivessem voz. Assim faço.”
E eu? De que falo?
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