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Memórias da Hungria - Naumburg (Saale) 2

por Zilda Cardoso, em 14.09.11

  

     

"As refeições continuaram a ser-nos fornecidas pelo exército e nós adicionávamos-lhes alguns temperos e pequenas coisas com que ficavam enriquecidas. A alimentação era racionada e distribuída em senhas ou cartões – não se podia comprar muita coisa, mas chegava para todos. As nossas caixas de provisões foram guardadas na cave, onde estava a lavandaria. Devido à guerra, o sabão faltava na Alemanha, de modo que as roupas eram fervidas em caldeirões.

Para mim, inicialmente, o trabalho doméstico além de pesado, era estranho: qualquer coisa a que nunca tinha sido habituada. Z., inquieto, arranjou para mim uma ajudante – a esposa de um sargento que já fora governanta em várias casas de família da aristocracia. Ela auxiliou-me muito, lavando e passando.

Num dos quartos da frente, foi improvisada uma cozinha com a colocação de uma velha cómoda e sobre ela, um aquecedor a gás. Mas servia apenas para refeições ligeiras. Para o que fosse mais demorado, eu utilizava a cozinha da Srª Prüfer que me tinha permitido o uso do seu fogão. Deixava a panela, e ela depois, quando a comida estava pronta, avisava-me.

Outro problema era o banho. Uma vez por semana, a proprietária cedia-nos a sua sala para um banho completo. Lembro-me de que, na época, o banho de chuveiro não era muito comum na Europa e todos tomavam banho de imersão, na banheira. O inconveniente era que, naqueles dias, para se economizar água e luz, a família toda tomava banho na mesma água. Tal como se dizia: guerra é guerra!

Nas traseiras da casa havia uma horta de bom tamanho, seguida de um imenso armazém da manutenção do exército, separado do nosso jardim por uma cerca de arame.

Os Prüfer tinham uma filha da idade de D., Elisabeth. As duas ficaram grandes amigas. Elisabeth convidou D. para acompanhá-la a um dos acampamentos da Juventude Hitleriana que o meu filho N. acabou por frequentar também com outros amigos. Os rapazes gostavam muito dessas actividades, tal como hoje gostam do escutismo. E os pais pensavam o mesmo que eu - era uma ocupação saudável, disciplinada e disciplinadora.

D. e N. frequentavam uma escola. O ensino não era bom, mas iam aproveitando para aprender a língua.

Assim, lentamente e apesar das adversidades da guerra,  integrávamo-nos na vida dos alemães.

 

 

A luta continuava dos dois lados. Os alarmes anunciando ataques aéreos multiplicavam-se. Por fim, eram praticamente uma constante. O nosso abrigo anti-aéreo era a cave da própria casa, adaptada segundo os regulamentos, mas nem assim suficientemente segura. Para mim, no entanto, servia perfeitamente, na base do “seja o que Deus quiser”, pois como o abrigo ficava dentro de casa, eu podia continuar os meus afazeres quotidianos sem interrupções. Apesar de tudo tínhamos que persistir e sobreviver: era necessário cozinhar, lavar e secar a nossa roupa e as montanhas de fraldas do bebé.

O mais difícil era dormir, dormir tranquilamente.

As crianças depressa arranjaram amigos e iam brincar para casa de um ou de outro, onde fosse mais espaçoso. As pessoas eram simples e prestáveis, estavam sempre dispostas a ajudar. M. arranjou uma amiguinha chamada Gerda e aprendeu com ela de imediato o sotaque da Saxónia. Recordo de a ver correndo pela rua fora, ofegante, com as duas tranças voando atrás de si… Quando ouvia alguma notícia na rádio, gritava já de longe:”ATAQUE DE UNIDADES PESADAS NA TURÍNGIA”. Esta frase acabou como slogan na família. Aliás, M. estava sempre cheia de novidades, boatos e notícias importantes.

Integrámo-nos plenamente na vida da população local e pouco contacto tivemos com os nossos compatriotas. Como Frau Doctor, a senhora doutora, acabei por me tornar uma figura popular na Rua.

No nosso abrigo, fiquei a conhecer também a Srª Ernst, que era uma vizinha muito simpática e querida, com os seus cabelos brancos e olhos muito azuis, pequenina e magra, mas ainda muito activa. Usava constantemente a insígnia do partido nazi. Ajudou-nos muito até ao final da guerra e acabou por se converter ao catolicismo por influência minha".

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publicado às 09:25





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