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Memórias da Hungria - Naumburg (Saale)

por Zilda Cardoso, em 12.09.11

"Naumburg era uma bonita cidadezinha medieval rodeada de profundo fosso. Acho que este tipo de cidade só existe na Alemanha. Era o quinto ano da guerra e ela ainda se conservava muito bem ajardinada e cuidada.

Chegámos num belo dia soalheiro apesar de ser Inverno, com céu azul e muito frio, felizes por terminarmos uma viagem penosa e estarmos finalmente num lugar agradável. Apenas não nos demos conta de que a cidade, devido à sua localização estratégica no centro do país, estava repleta de refugiados.    

Começara a grande ofensiva dos Aliados pelo Oeste, já se avizinhavam do Reno. A leste, os Russos tinham ocupado a Polónia, a Silésia e a Prússia. Os refugiados achavam-se comprimidos entre duas forças que os empurravam para o centro da Alemanha ou “Mitte Mitteland” – o centro dos centros, como era designada a região desse modo identificada em alguns dos uniformes da Juventude Hitleriana.

E foi ali que viemos parar com a unidade de artilharia do nosso país. Felizmente, com a organização dos alemães e das entidades oficiais, foi possível alojar toda aquela gente. No nosso caso, como éramos uma família grande, dois adultos e cinco crianças, foi mais difícil encontrar um local adequado para ficar.

Os alojamentos da Juventude já se encontravam ocupados, não tivemos a mesma sorte que em Rostok. Aqui, já todos os outros húngaros haviam encontrado abrigo, enquanto nós permanecíamos no comboio.

O meu bebé estava com quatro semanas. Num certo momento, enquanto aguardava vez na Repartição Pública para Habitação, deixei-me vencer pela emoção, não resisti e desatei a chorar, desesperada. Fui acalentada por um homem alto, com roupa de operário, que se aproximou de mim e me deu palmadinhas nas costas, tentando consolar-me. Nunca esquecerei o saboroso gesto que veio num momento de grande carência…

Por fim, conseguimos uma morada: a mulher de um padeiro, com pena de nós, mudou as suas próprias filhas para um quartinho, passou para o quarto das filhas e cedeu-nos o dela. Até hoje não sei como coubemos todos num espaço tão pequeno, mas tudo é possível com boa vontade e algum sacrifício.

Ao lado da casa onde ficámos, havia um cinema e D. da mesma idade que as filhas do padeiro, fez amizade com elas. Assistiam juntas no sótão a todos os filmes que passavam, mesmo os interditos a menores.

N. virou garoto de rua, fazendo logo amizade com outros miúdos.

Z. e eu percorríamos as repartições públicas na tentativa de arranjar uma casa definitiva. Apesar dos males e inconvenientes da situação, a vida tinha que prosseguir – havia que comer, dormir, tomar banho, lavar roupa e todas essas coisas triviais que fazem parte do nosso quotidiano. A alimentação não representava um problema imediato, pois as nossas reservas alimentares eram suficientes para muito tempo. Além disso, recebíamos a comida básica da manutenção militar. O desagradável era ter de morar na casa de outras pessoas e estranhas.

Ao fim de um tempo sem fim e desanimador, conseguimos um pequeno apartamento de duas divisões, isto é, dois pequenos quartos com um fogareiro a gás num edifício de três andares, o térreo e mais dois. Entrava-se directamente no corredor ou vestíbulo e não havia sala de banho, ou melhor, segundo o costume alemão da época e por ser construção antiga, a sala de banho era comum e ficava no lance intermédio da escada, entre dois andares.

No quarto das traseiras, havia duas camas e um armário, Z. ficou com uma das camas e D. e K. dormiam noutra. No quarto da frente, dormia M. e eu. N. ficou instalado num sofá e o bebé dormia no berço que conseguimos trazer connosco. A casa estava bem situada numa zona residencial, onde só havia casas ou prédios de dois ou três andares no meio de jardins bem tratados.

O proprietário da nossa casa era um tal Herr Prüfer, fiscal de impostos, uma pessoa simples mas de bom coração, gordinho e careca, tinha mais medo da mulher do que dos americanos ou mesmo da guerra. No entanto, eu vi que também ela era bondosa, só nos aborrecia, a princípio, o seu sotaque muito carregado da Saxónia, difícil de compreender.

A nossa enorme vantagem era que todos, incluindo as crianças, falavam alemão, de modo que ninguém nos tomava por estrangeiros. Os nossos compatriotas invejavam-nos por isso e nunca consegui fazer amizade ou ter uma relação amigável com as esposas dos oficiais.

Na casa dos Prüfer, no andar de cima, morava um casal idoso e o segundo andar era ocupado por uma Frau Vollmar que sempre hospedava algum homem, inicialmente das SS e mais tarde americanos.

Com esforço, conseguimos adaptar-nos à nossa nova vida, à nova rotina."

 

(Continuo a publicar as memórias que me foram facultadas por uma família de refugiados húngaros)

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publicado às 15:41





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