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memórias e histórias

por Zilda Cardoso, em 28.08.11

Praga, República Tcheca: Castle from Petrin Hill 2

(Imagem de Praga no Inverno, obtida na Internet)
 

“O meu marido, Z., levou-me no carro militar para a clínica alemã.

Colocaram-me sobre uma mesa e Z. saiu: não pode ficar comigo. As contracções pararam e eu adormeci. Naqueles dias, era muito difícil obter medicamentos, pois tudo estava reservado para os hospitais militares. Eu fiquei na clínica de um grande médico, conhecido internacionalmente, o Prof. Knaus.

Para reiniciar o trabalho de parto, os médicos recorreram a um processo antigo – deram-me uma grande dose de quinino e um banho quase escaldante. Saí da banheira como uma lagosta. Mandaram-me passear pela sala e eu recordo-me de olhar pela janela e observar as crianças a patinar no gelo no terreno vizinho.

Era um dia lindo de Inverno. Ao meio dia, nasceu Ors. O parto foi difícil, ele trazia o cordão umbilical enrolado no pescoço e pisaduras na cabeça. Como analgésico, só existia aspirina, mas eu estava imensamente feliz por ter mais um rapaz e nem me importava com mais nada, apesar de ele ser muito pouco bonito com uma cabecinha em forma de pêra e hematomas roxos.

Não havia quartos particulares, havia apenas enfermaria e os visitantes que vinham ver os doentes olhavam com compaixão para o berço. “Coitadinho! É o primeiro?”, perguntavam. E eu respondia quase com raiva: Não, é o quinto!

Entre as companheiras de enfermaria, uma delas chamou a minha atenção pela sua beleza e dignidade. Também acabava de ter um filho. O marido veio visitá-la; estava de uniforme, era um oficial condecorado, com muitas medalhas no peito. Uma ordenança ajudava-o. Soube que estava completamente cego – tinha perdido a visão em combate.

Naquele tempo, na Alemanha, era difícil fazer distinção entre classes sociais. Todos vestiam de maneira simples e o nível cultural da classe média era bastante alto, nunca se sabia com quem se estava a falar. Além do mais, com tantos refugiados que inundavam o país e tantos sotaques diferentes, ninguém reparou na nossa língua, na nossa maneira de falar. Todos pensavam que éramos da Prússia Oriental e nunca consideraram os húngaros como estrangeiros. Eu também não me sentia estrangeira entre eles.

Enquanto estive no hospital, só houve um ataque aéreo. Nesse dia, nem esperei pela enfermeira, peguei no meu filho ao colo e fui para o abrigo. Quando lá cheguei, já tudo tinha acabado.

Alguns dias depois, voltei com o bebé para Rostok, para junto da minha família.

A nossa unidade já se preparava para seguir viagem, mas ainda ninguém sabia para onde o destino nos levaria. Com um bebé de dez dias, tinha de enfrentar de novo os vagões sem higiene, sem a menor possibilidade de dar banho… Apenas tínhamos uma bacia que usávamos para lavar as mãos. Ainda na clínica consultei o pediatra sobre isso, mas ele acalmou-me dizendo que não me preocupasse, que a falta de higiene não matava ninguém. Bastava que o alimentasse bem e não haveria problema.

Começamos a empacotar de novo e a arrumar a bagagem.

N. era o mais tristonho, mas também M. sentia ter de sair do Lar onde haviam passado dias tão agradáveis. N. nunca tinha estado num internato entre rapazes e até chorou quando nos despedimos da Sr.ª Herzog com um Heil Hitler!

Mais uma vez, seguimos caminho sem saber para onde, enfrentando os perigos da guerra.

Era Fevereiro.

 Ainda tínhamos uma vaga esperança na vitória da Alemanha.

Porém, em território alemão, a nossa viagem não era tão calma como tinha sido até Praga. Viajávamos só de noite. Durante o dia, parávamos em trilhos abandonados das estações. Nunca tirávamos a roupa nem durante a noite, pois em caso de alarme, devíamos abandonar o comboio de imediato e ir para campo aberto aos tropeções por causa da escuridão. Fosse como fosse, sempre era mais seguro do que permanecer dentro do comboio: se o inimigo descobrisse onde estávamos, atiraria com metralhadora a matar, para cima de nós.

Graças a Deus, não nos atacaram, apenas ouvíamos ao longe o ruído da explosão das bombas e víamos o incêndio que se seguia.

Uma vez tive de sair do comboio à noite. O meu marido devia apresentar-se ao comandante e eu fiquei sozinha com as crianças e o bebé. A ordenança do Z. ajudou-me a sair para o campo, entretanto tive de ir buscar qualquer coisa e deixei o bebé no colo do soldado que, no meio-termo, desapareceu na escuridão. Ao voltar não os vi, fiquei numa aflição. Perguntei: Onde está o soldado com o O.? Apontaram para a valeta onde estava a patrulha porque o nome do bebé em húngaro significa também patrulha.

Estávamo-nos aproximando de uma estação periférica de Dresden e assistimos a um terrível ataque aéreo, talvez a um dos maiores e mais violentos que houve e a que tive de assistir: destruiu uma das mais belas cidades históricas da Alemanha. Estava apinhada de refugiados de todos os cantos e recantos da Alemanha. Por coincidência, naquele mesmo dia, parou outro comboio idêntico ao nosso, vindo da Silésia.

Viajava nele a família Sammet e a G. com quem o meu filho N. casaria em S. Paulo, muito mais tarde, em 1960.

Em Fevereiro de 1945, chegámos a Namburg na der Saale”.

 

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publicado às 09:08


1 comentário

De Isabel Maia Jácome a 31.08.2011 às 00:06

Querida Zilda
Não me canso da forma como escreve.
... e fico contente com o trabalho que promete.
Abraço grande... ...
Isabel

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