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Memórias da Hungria - Rostok

por Zilda Cardoso, em 26.08.11

"Cansados da longa viagem de comboio, muito sacudidos e sujos, sentíamos acima de tudo a falta de um bom banho. As autoridades militares comprometeram-se a conseguir alojamento para a família, mas não foi fácil e levou muito tempo. Chegámos arrasados a Rostok.

Como sempre, impaciente e apressada, eu estava ansiosa por ver os meus filhos lavados e limpos numa cama branca.

Lêramos nos jornais e sabíamos, através da propaganda nazi, da existência da Liga das Mulheres Nacional-Socialistas e eu resolvi procurar essa organização. Fui atendida imediatamente e encaminharam-me para um lar de jovens da Juventude Hitleriana. A directora, Srª Herzog, recebeu-me com um sonoro Heil Hitler!

Havia vagas no Lar porque era época de férias.

Ela aceitou imediatamente dois dos meus filhos M.e N. K. era pequena de mais e D. ficou para ajudar-me. No último mês de gravidez, eu poderia ter o filho a qualquer momento; por isso, agradeci muito feliz e fui buscar as crianças ao comboio.

Fiz as malas e despedi-me daquele transporte mal-cheiroso e cheio de fumo que nos havia prestado um grande serviço – ajudara-nos a escapulir. As outras mulheres e mães de família lançaram-me olhares de inveja.

Os meus filhos mal chegaram ao Lar da Juventude, caprichosamente limpo, desapareceram no chuveiro desinfectado e cheiroso; quando voltei com as roupas, já estavam deitados entre lençóis brancos a rescender a sabonete de amêndoa.

Havia poucos alunos durante as férias, por isso, enquanto estivemos em Rostok, os meus filhos puderam ficar lá.  Não pagávamos nada, naquele país socialista! N.e M. adoraram ficar, principalmente N. Estar entre meninos da sua idade era uma novidade para ele e, em vez de aulas, podiam brincar na neve fazendo bonecos, ou travar batalhas com bolas de neve, andar de trenó, patinar no gelo e coisas assim.

Uma vez, almocei com eles. Antes de se sentarem à mesa, as crianças davam-se as mãos fazendo uma roda e a uma ordem da Srª Herzog diziam juntos “Guten Hunger” ou boa fome e com bom apetite devoravam o simples e nutritivo almoço.

Isto que era bom, não resolveu todos os nossos problemas – ainda restava conseguirmos morada para os quatro. Ninguém podia ficar nem no comboio nem na estação. O mais difícil era transportar todas as nossas coisas - malas, sacos e caixas de alimentos. Rostok era um lugar de veraneio, mas onde colocar quatro pessoas mais semelhante bagagem? Andámos de um lado para o outro... Não, não era fácil. Até que encontrámos espaço na casa de uma família checa: um quartinho nas águas furtadas. E foi lá que nos instalámos: D., K., Z. e eu.

A nossa alimentação ainda era fornecida pelos militares e eu tinha que a melhorar porque Z. andava com complexos de fome e pedia-me para fazer coisas muito complicadas. O pior era eu ser totalmente desajeitada na cozinha, a ponto de a dona da casa, com pena de mim, me ensinar a usar as nossas reservas da maneira mais proveitosa.

Z. fez amizade com o General depois que este descobriu os seus talentos para o bridge. Agora já tinha argumentos para se ver livre de todas as tarefas desagradáveis e cansativas, pois no fim de contas, não podia recusar os convites do General, não é verdade?!

Apesar de estar cansadíssima devido ao meu estado, a arrumação da bagagem ficou inteiramente a meu cargo. D. cuidava de K. e cozinhava às vezes as “papas” do Z. no fogareiro do quarto.

E assim íamos levando a nossa vida de refugiados: tínhamos um quarto quentinho, comida à vontade e, dadas as circunstâncias, tudo andava pelo melhor no melhor dos mundos.

 

No entanto, começou a circular o boato de que iríamos seguir viagem. Ficámos apreensivos com essa notícia. A perspectiva de sair de um lugar relativamente seguro e tranquilo para voltar a uma Alemanha bombardeada diariamente e ainda com o meu filho por nascer não era nada animadora.

O parto seria questão de dias. E Praga… tão perto de RostoK… com óptimos hospitais à nossa  disposição! Embarcar de novo no comboio? Mais um dilema! Ainda uma decisão importante a tomar! Recomeçar desse modo a viagem para um destino desconhecido?

O que fazer?

As notícias continuavam alarmantes; na Alemanha, os americanos, em voos rasantes, metralhavam pessoas nas ruas.

Havia uma solução – ficar eu em Rostok ao cuidado da Liga Feminina e da Sr.ª Herzog. E depois? Como iria reencontrar a minha família. E como poderia sozinha viajar com um recém-nascido? O correio já não funcionava há algum tempo e tampouco o telefone.

O problema estava a parecer-nos cada vez mais difícil de resolver, mas Deus ajudou-nos. Fomos visitar o General e a sua mulher em Praga e lá, na mesma noite, começaram as minhas dores de parto".

 

(Memórias de uma família em fuga)

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publicado às 21:08


2 comentários

De Marcolino a 27.08.2011 às 11:24

Olá Zilda!
Há estórias de vida que, depois de conhecidas, nos fazem amadurar o comportamento diário. Esta foi uma delas!
Abraço
Marcolino

De Zilda Cardoso a 27.08.2011 às 12:49

Olá, caro amigo. Como tem passado?
Vou continuar um pouco mais com essa história que é dramática, mas que deve ser lembrada. Serve para relativisar os nossos pequenos dramas diários

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