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Conversa com Jorge Cardoso sobre arte conceptual

por Zilda Cardoso, em 12.08.11

 

Muito inteligente e culto em áreas de conhecimento que
especificamente lhe interessam, não é fácil adaptar-se a um mundo organizado
segundo critérios que não são, na sua opinião, os que deviam ser numa avaliação
correcta segundo leis perfeitas, as únicas aceitáveis. Com uma personalidade complexa,
coloca qualquer problema num patamar intelectual tão elevado que se torna de
difícil compreensão para a maioria.

Tem formação académica em economia e actividade profissional na mesma área,
não era de esperar que se contentasse com o estudo da “produção,
distribuição e consumo de bens
e serviços
”, como economia é definida na Internet.  

A actividade económica é actualmente muito diversa e importante e pode definir
não apenas economia política como também a situação económica de um país. Há a
macroeconomia e a microeconomia, a economia positiva, a normativa, a ortodoxa e
a heterodoxa… a economia avalia e regula o mundo. Não há disciplina mais marcante
nas nossas sociedades ocidentais.

 

 

 

Jorge Cardoso começou muito cedo a interrogar-se sobre o mundo a partir de
outras perspectivas provavelmente menos empíricas que a ciência. Adolescente, tinha
visitado os museus e as galerias de arte, mais tarde, foi assíduo nas feiras, tornou-se
amador e sucessivamente coleccionador e galerista, finalmente, artista.

Pedi que me explicasse o que tem sido um percurso de vida invulgar. Ele citou
uma circunstância que considerou muito importante - não abandonou a actividade
económica, englobou a arte que ficou como um dos seus interesses maiores e,
acima de tudo, como forma de comunicar. 

 

 

 

Praticou a fotografia desde cedo, com muito sentido estético, se bem que ele
próprio na ocasião não tivesse quaisquer preocupações artísticas.

Numa pequena conversa sobre arte e sobre a sua arte, disse-me Jorge Cardoso:

“Nos últimos tempos, através dos
contactos que tinha estabelecido - voltei a frequentar as feiras e as
exposições - apercebi-me de que a foto estava, cada vez mais, a ser usada na
arte e de modos diferentes e contraditórios.

Isso gerou perplexidade da minha parte
e consequente interesse em investigar as ligações e as relações entre a
fotografia e a arte.

Fui aprofundando esta investigação com
leituras mais complexas e penso que se chegou a um ponto em que para se ser
artista “actual” tem de se ser filósofo.”

 

Para mim, esta é uma ideia fascinante
porque altera o que se entende por arte desde sempre. Estaremos num momento de
viragem total? Ou a arte continua a ser uma técnica, uma simples habilidade de
mãos, que parte de um conhecimento mas tem em conta em primeiro lugar
percepções e emoções?

“A literatura sobre arte das últimas décadas remete para toda uma série
de preocupações e conceitos que nada tem a ver com destreza manual, técnicas de
pinturas e composições e enquadramentos. Prende-se sim com conceitos, desmaterialização,
descontextualização, indistinção do papel do autor…

 

 

Quanto mais profunda a investigação, maior o perigo de nos perdermos em
territórios áridos. Por outro lado, podemos também procurar absorver
genuinamente a nova perspectiva e integrá-la no nosso percurso.

Tal como no passado, e a respeito de outra disciplina completamente
diferente, o freejazz,  que parecia a
evolução máxima do jazz e afinal levou a um beco sem saída, também a arte
conceptual, que num sentido mais restrito alguns historiadores remetem para as
décadas de 60 e 70, levou a extremos de difícil continuidade.

No entanto, ao longo do século XX, primeiro com o Dada, depois com o já referido movimento
conceptual, a arte nunca mais foi o que era. O facto de as preocupações
estéticas (com o belo) estarem longe das inquietações contemporâneas…
são um entre muitos reflexos de como a arte mudou”.

Há sempre uma evolução, mas eu
acho que as preocupações estéticas nunca deixaram de estar presentes mesmo na
mais estranha arte conceptual. Mas pode ser uma estética do feio ou outra. O
que não são é… obras para decorar as paredes, para tornar as salas bonitas. No
entanto, as tuas peças…

“Gostaria de dizer-te isto, antes de falarmos nas minhas peças. Houve
um momento em que me pareceu que podia ter algo a acrescentar no campo da arte.
A minha abordagem seria pela via conceptual, mas a apresentação servir-se-ia de
algumas pistas materiais embora usadas fora das metodologias clássicas”.

Foi uma ideia muito engenhosa, devo
dizer, dadas as tuas características pessoais.

“Talvez sim, mas se eu explicar a minha trajectória, pode
compreender-se melhor…

Se conseguires explicar de modo
simples…

“Tendo presente toda a parafernália de opções que as ferramentas
conceptuais permitem, trata-se de saber o que transmitir e como reflectir a
mensagem.

E tendo em conta que um dos motivos da investigação foi o papel da
fotografia na arte, acabam por ser decisivos alguns acontecimentos.

Com  o aparecimento da fotografia digital, foi ainda mais abalada do que no
passado a noção da sua objectividade.

Até no campo do fotojornalismo,
começaram a surgir alguns escândalos por manipulações escondidas mas
descobertas.

(continua)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 07:21


1 comentário

De Cabecilha a 19.08.2011 às 12:35

"...não era de esperar que se contentasse com o estudo da “produção,
distribuição e consumo de bens
e serviços”, como economia é definida na Internet..."

hahaha gostei desta :)

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