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Do Porto, com desgosto!

por Zilda Cardoso, em 14.03.11

Visitei as aves do estuário do Douro, como costumo. Chovia… da chuva que molha muito. Atravessei o relvado encharcado e fui espreitá-las de perto. A ribeira levava pouca altura de água e muito castanha, mas corria com força para o rio. Algumas gaivotas e guinchos e garças e rolas, olhavam atentas para o caudal e esperavam. Seria bom para elas, quero dizer, seria rendoso em termos de alimentação, aquele estado da ribeira?

Elas pareciam tranquilas. De vez em quando, uma depenicava qualquer coisa sem que as outras se alvoroçassem. Depois apareceu um homem no jardim a falar com elas e fazia gestos de quem atira comida, julguei que as chamava para que vissem a comida que lhes arremessava. Enganei-me, ele só falava com elas, não lhes dava nada mais do que a sua atenção. Falou-lhes da margem, falou de diversos pontos, decerto para que todas ouvissem, para que não falhasse nenhuma.

E depois foi-se embora. Era vizinho, queria socializar, saber se estavam bem.

Precisariam de migalhas, mas não me lembrei de lhas levar, fui de surpresa. Mergulhei em melancolia ao ver aquela população que não espera nada, mas precisa e recebe. Nestes lugares totalmente alagados que é onde estamos todos… onde se abrigarão?

É um tempo nostálgico, melancólico, saudoso, não admira que me sinta assim. Porém, por que havia de sentir saudade? Nostalgia? Melancolia? Ou saudade é outra coisa ao contrário do que diz o dicionário?

Pensei no Japão em verdadeira crise: um sismo, uma onda gigante, uma explosão nuclear. Que é tudo o mais em comparação com o que lá se passa?

E também não há solução para já - pode haver outra explosão, pode haver uma “explosão nuclear descontrolada” na central nuclear, como em Chernobil.  Para evitar isso, foi preciso aliviar a pressão, libertando radioactividade, vapor radioactivo, para o exterior”. O problema estará nas dificuldades de arrefecimento, o que poderá acontecer e pôr em risco outras centrais no País. Um reactor pode fundir quando todos os sistemas de aquecimento, ou arrefecimento, de uma central nuclear deixarem de funcionar). O reactor aquece…

Para mim, há principalmente o grito daquela mulher (referido no “Publico) que não encontra comida, nem água, não tem electricidade nem gás:

“Só me apetece chorar, mas preciso de ser forte”!

Há lugares antes povoados onde há apenas lama e não se sabe de sobreviventes. E há todos aqueles que não encontram sítio para se abrigarem nem sabem como se movimentar sem meios, sem estradas, sem pontes…

Melancolia, sim. Mágoa, luto, desgosto, todos sentimos deste lado do mundo. Saudade do que tinha antes, sofre aquela mulher de Sendai.

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publicado às 19:02


14 comentários

De Isabel Maia Jácome a 15.03.2011 às 00:38

também tenho estado tão impressionada...
parece-me tudo tornar-se tão mais pequeno e ao mesmo tempo, todo e cada pormenor da vida , tão maior e mais grandioso...
lindo o seu texto uma vez mais...
...profundamente rico...
simples e tão cheio...
obrigada mais uma vez
Sempre
Isabel

De Vicente a 15.03.2011 às 11:42

O Japão e o seu povo estão a passar por tempos terríveis que eventualmente ainda poderáo piorar.

Mas em todo o mundo há situações políticas que levam às mesmas consequências de sofrimento, penúria, desolação e desespero. Veja-se a Líbia, a Tunísia, a Costa do Marfim, o Egipto, etc..

Há que encarar todas estas tormentas como uma "purga" do mundo por todas as provocações à Natureza, ao desvario do poder e ao repúdio de uma vida tranquila e "caseira" com o que há.

Ler um bom clássico, ouvir uma bela sinfonia, dedilhar uma guitarra ou passar as mãos por teclas de piano, tocando, serão seguramente uma bela terapia.

De Zilda Cardoso a 15.03.2011 às 12:52

Vamos ficar bem depois desta purga? Vamos ficar bem? Então valeu a pena. Essa bela terapia serve... para quê? Serve aos que estão fora, para ignorarem o desgosto. E para os que estão a sofrer directamente com os desvarios? Directamente. Serve-lhes de alguma coisa? Precisarão de ser ajudados?

De Vicente a 15.03.2011 às 16:05

sim vamos ficar melhor, mais unidos e realizando que uns pagam pelos outros.

aliás há 400 milhões de anos a terra ficou coberta de gelo e morreram muitos e outros sobreviveram.

os Homens têm a mania que controlam tudo e que com o progresso podem impedir o que tem de ser e nos ultrapassa.

apesar de não serem clássicos porque recentes sugeria-lhe que lesse dois belissimos livros recentes:

-The Grand Design por Stephen Hawking creio já haver em português como o "Grande Desenho"

- ARMAS GERMES E ACO OS DESTINOS DAS SOCIEDADES HUMANAS por Diamond Jared na edição da Relógio d'Água

ah e claro um chá de tília ao lanche....para lhe acalmar os ímpetos...anda muito azeda:-)

De Zilda Cardoso a 17.03.2011 às 20:58

Detesto chá de tília, mas aprecio qualquer outro que não seja recomendado pelo Vicente Mais ou Menos. Porque mais ou menos é sempre uma coisa ou uma atitude mais ou menos duvidosa. Não gosto.
Como sabe o que aconteceu há 400 milhões de anos-luz (diga-me que não são anos-luz)?!
Vou tentar arranjar esses livros... doces. Depois falamos.
Abraço.ZM

De Vicente a 17.03.2011 às 23:48

Já nem me atrevo a abrir a boca! Ainda apanho com qualquer coisa forte...sei lá!

A verdade fere minha amiga, por isso anda embirrenta....ahahaaah....adorava ver a sua cara de raiva e de fúria:-)

Mas, há sempre o diálogo como o entre o PSD e o PS!

De Zilda Cardoso a 18.03.2011 às 13:33

Espelho meu, há alguem mais forte do que eu? Quem diz alguém, diz alguma coisa. Sim, sim, arranjarei alguma coisa suficientemente forte para lhe arremessar e o partir todo. Não é a verdade que fere, tenho a certeza. A verdade é uma coisa boa e perfumada, sabe bem, imensamente bem saboreá-la. E nunca verá a minha cara de fúria e de raiva, porque ainda tenho que a fabricar, ainda não decidi com que material. Onde posso ir buscá-lo, sabe alguma coisa disso?
O diálogo entre esses dois é adorável e muito instrutivo. Devemos todos aprender com os nossos Maiores, não foi assim que nos ensinaram?

De Vicente a 18.03.2011 às 15:33

Gracias a la vida
pelos passos que damos
sobre as pedras de calcário
entalhadas com os cacos escuros
das nossas lágrimas
Nos passeios iluminados
pela força do mundo
pontas de cigarros lixo papéis
Gracias a la vida
por andarmos solitários
abraçados à morte
ombro a ombro com a calma do desespero
Mas de olhos levantados
para a dança da luz dourada
entre as folhas dos plátanos
de ramos de prata
Gracias a la vida
pela ilusão do amor
pelo engano do amor
pelo sonho do amor
E até pelo corte premeditado e fino
do amor espada
Gracias a la vida
pelos beirais pelas bicas
pelas fontes onde nada escorre
as paredes grafitadas
as mulheres mal amadas
os pedintes no trânsito com crianças alugadas
Pelos drogados enfiados nos buracos das casas
e pelas beatas nas igrejas
e pelas velas apagadas
Gracias a la vida
pela sempre beleza das coisas naturais
pelo mar pelas nuvens
pela alegria do sol
As brincadeiras de meninos à beira rio
as noites quentes de estrelas ao frio
E gracias a la vida
pelo toque acidental
do olhar e das mãos
Pelo ocasional
bater sincronizado
do coração
noutro coração.

Mercedes de Sosa

De Zilda Cardoso a 18.03.2011 às 17:13

Ainda há quem seja capaz de escrever um belo poema apesar de tudo.
Há sempre pelo que agradecer, é sempre possível descobrir belas coisas - o mar, o céu, a luz entre as folhas dos plátanos, as estrelas. o rio - as coisas naturais que por vezes nos arrasam só para ficarmos a saber que estamos a ir longe de mais, ou depressa de mais.
Obrigada, tsunami, terramoto e explosão... Mas escusavam de ir tão longe, que diabo, éramos capazes de aprender com fenómenos mais brandos. E obrigada tb, Mercedes de Sosa e Vicente e todos quantos permitiram que lêssemos o v/ pensamento e ouvíssemos o bater do v/coração..

De Isabel Maia Jácome a 18.03.2011 às 17:25

Que delícia estes últimos comentários...
... acho que ando abananada com os últimos acontecimentos:
- do mundo
- e os por mim provocados...
...acho que montei uma acelera e zuummm, perdi os passos.
agora estou tonta de todo. Comigo e com tanto.
Fez-me bem este vosso HUMOR SÉRIO...
... preciso voltar a desacelerar... e reflectir mais um pouco... e crescer mais, também... mas não esquecer o "gracias a la vita"...
saudades
Isabel

De Zilda Cardoso a 18.03.2011 às 18:04

Isabel, andamos TODOS TONTOS. É muito bom o "Gracias a la vita". Tenho uma admiração enorme por aqueles que sobre o acontecimento podem comover-se e sobretudo comover os outros com as s/palavras.
É o parar para reflectir de que temos uma necessidade absoluta.
É um enorme privilégio ser-nos permitido ler essas palavras e senti-las. Senti-las. impressionar-se com elas, poder recordá-las a cada passo e voltar a senti-las e a comover-se.
Gracias a la vita.

De Vicente a 18.03.2011 às 19:11

Perdão Dª Zilda, eu não ando tonto - dizia o galhofeiro ofendido e no seu estilo formal punha as mãos no peito de indignação.

(trecho de um conto a publicar intitulado " Dª Zilda e os mais e menos")

Nota: à propos, o meu nome blogueiro contém uma grande humildade pois quando o anunciei expliquei que TODOS somos umas vezes mais outras menos...ora tome Dª Zilda...ahahaaah



De António Alves Barros Lopes a 18.03.2011 às 17:50

Tarde mas em boa hora, as minhas homenagens pelos seus textos.

Sobre o escritor António Sousa Homem nasceu no Porto em Março de 1920 e vive actualmente em Moledo. Advogado de profissão, é autor de um livro de botânica e de um roteiro do Minho Litoral, ainda inéditos.

Em 2002 editou o seu primeiro livro, Os Ricos Andam Tolos, que reunia, reescritas, algumas das crónicas que escreveu para o semanário O Independente e, em 2008, Os Males da Existência, pela Bertrand Editora.

"Um Promontório em Moledo" reúne as crónicas que António Sousa Homem escreveu para o 'Correio da Manhã'. «Não fosse uma amável série de coincidências e este cronista estaria reservado ao seu destino - terminar os seus dias de velhice neste promontório de Moledo, em frente ao mar do Minho e mantido no merecido anonimato, rodeado dos livros e dos cuidados familiares que não o abandonaram até hoje.

Só a vaidade, um bem inestimável, tanto quanto prejudicial ao temperamento humano, permitiu que mais este conjunto de textos visse a luz do dia. Não diferem dos que o leitor já conhece; um velho repete-se até à eternidade convencido de que tem, ainda, alguma coisa para dizer, mesmo num país que preza galantemente a ignorância, a mediania e a meteorologia destemperada do nosso clima ameno.»
Mais informações sobre António Sousa Homem:
http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/

O Lançamento do seu livro "Um Promontório em Moledo", apresentado por Francisco José Viegas decorrerá na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal, de Viana do Castelo no próximo dia 18 de Março (Sexta), pelas 21H30.

De António Pedro, PROTOPOEMA DA SERRA DARGA em
http://lopesdareosa.blogspot.com/2011/03/protopoema-da-serra-darga.html

De Maria Manuela Couto Viana O ROMANCE DO RAPAZ DE VELUDO em http://lopesdareosa.blogspot.com/2010/12/maria-manuela-couto-viana.html

CMPTS
Barros Lopes
Afife




De Zilda Cardoso a 18.03.2011 às 18:18

Muito obrigada, Sr Barros Lopes. Irei ler os textos que me recomenda. Quem me dera ter sabido há mais tempo da apresentação do livro de António Homem Sousa - teria ido com muito prazer.
António Pedro e Manuela Couto Viana são excelentes artistas e escritores e grandes admiradores de Moledo. Tal como eu e tal como o meu amigo.
Moledo está sempre no meu coração, apesar de agora não ir por lá muito.
Até breve.
ZC

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