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É preciso inventar um novo Carnaval

por Zilda Cardoso, em 13.03.11

Sentada no cadeirão florido, nesta 3ªfeira de Entrudo, murcha e mal temperada, sem perfumes e sem cores, ouço a Sinfonia Festiva, de Smetana, compositor boémio da Boémia, enquanto leio placidamente o Milagrário pessoal, de J. E. Agualusa...

Lembrei-me do arquitecto Álvaro Siza que por vezes desenha o que vê de si enquanto trabalha nos seus projectos ainda sonhos, pensamentos que quase sempre se vão transformar e concretizar. Será que o arquitecto gosta desta música?

Levantei-me, pousei no chão o livro, o caderno, o lápis, os óculos, calcei os chinelos e fui à varanda: queria verificar se o dia estava mesmo murcho ou se estaria a falar par coeur, e lá fora estariam todos animadíssimos a festejar o Carnaval.

O que vi, deixou-me sem esperança. O dia não podia estar mais definhado e até chovia. Muitas pessoas da cor do dia passeiam, algumas levam guarda-chuva aberto, outras conversam sob densos metrosíderos. Mesmo os carros são, na sua maioria cinzentos, e o mar colabora nesta ópera moderna, sedada, sem paixão.

E interrogo-me: Temos nós um dia feriado, nesta época de crise, de manifestações, de greves (que eu julgava que só se faziam em tempo de prosperidade para reclamar equitativa distribuição de bens)  para festejar o Carnaval de forma inesquecível, para fazermos a enorme tolice em que andámos a magicar todo o ano, totalmente à vontade e em liberdade… Para dizer adeus às coisas perversas que andamos a praticar antes de entrarmos num período disciplinado, arrependidos e saciados, saciados e arrependidos, preparados para celebrar a morte e a ressurreição de Cristo...

Isto é a coisa mais triste que tenho visto.

Na minha infância e na adolescência, que ingenuidade, achava a festa de Carnaval divertidíssima. Ia ao cinema onde era permitido jogar serpentinas e confetti nos intervalos da sessão e travavam-se batalhas renhidíssimas com minúsculos sacos de areia disfarçados no meio das serpentinas, alguns muito bonitos e trabalhosos, home made, figuravam legumes ou frutas. Atirávamos a cenoura ou a maçã, sem que Salazar desse conta, à cabeça de um qualquer e aquilo doía, e era o máximo de regabofe. Depois o filme era Bucha e Estica e morríamos a rir com as suas fantochadas.

Ainda assistíamos ao desfile de máscaras nas ruas, nada de desfiles cariocas que são sempre patéticos aqui, já que não têm nada a ver com as nossas questões nem com os nossos frios.

Hoje, sinto-me mais foliona a ouvir a sinfonia festiva e saltitante do compositor oitocentista austríaco, ou checo ou boémio, e a ler o Agualusa do que parecem estar os passeantes da Avenida onde desde há anos era habitual ver as criancinhas, pelo menos, com máscaras de mau gosto. (Em Veneza, as máscaras são uma beleza, cores e desenhos maravilhosos. Enviaram-me uma série de diapositivos de máscaras deslumbrantes).

Entro, retomo o Milagrário.

“A poesia nos chega dos lugares mais inesperados… Hoje mesmo liguei o rádio… Ia mudar de estação quando um dos versos (que a moça cantava) me pegou de surpresa: “Fiz minha casa no teu cangote”.  Achei lindo, aquilo.

Surpreende-o encontrar um bom verso na música popular brasileira?, desferiu Iara…

O que eu quero dizer é que todas as palavras são mágicas, só precisam ser combinadas de forma correcta… O esforço dos poetas não é outro senão o de devolver às palavras seu brilho antigo. Sua magia”.

Pode ser isso a poesia, pode ser uma combinação correcta de palavras mágicas, também acho.

“Se eu topar um dia com um manancial de palavras secretas, acredite, vou cuidar delas com o maior desvelo. Matarei por elas”.

 Foi um Carnaval sem combinação correcta de palavras mágicas. Onde está o antigo brilho, a magia, a poesia?

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publicado às 14:16


6 comentários

De Ana a 13.03.2011 às 15:58

Sim, onde está o antigo brilho, a magia ,a poesia?
Dentro de nós, digo eu. Adormecidos , esquecidos ou simplesmente abandonados.

De Isabel Maia Jácome a 13.03.2011 às 18:50

Gostei tanto das suas palavras…
E eu, perdida nesta minha “guerra” ou “revolução” de vida.
Mas, querida Zilda, no fundo parece-me tão simples o que quero…
Ah as palavras com que penso e escrevo…Ah este ser e não ser, este como, esta procura e descoberta… este não ficar imune à pergunta, à dúvida, à paixão e à entrega, ao riso e ao choro, aos gestos mil dos outros que connosco se cruzam…
Não. Não quero ficar amorfa, nem em compasso de espera.
Quero ser activa na mudança. Quero mudar-me a mim!
Assumir-me sem pressas, mesmo que erre.
Confrontar-me e confrontar o mundo...
Quero cor, sim. E gostar, ou não gostar dela. E senti-la bem perto, como ao som e ao sabor e ao mundo de encanto…
E dizer depois, ou ao mesmo tempo o que sinto… provar com gula o que ainda posso e devo…saborear quando for preciso…e abanar as pessoas, nesse abanar-me a mim…
Fazer, Zilda.
Fazer mesmo que doa.
Mudar logo a seguir, se for preciso.
Vê o que as suas palavras fazem em mim?
De jorro, porque me tocaram profundamente as suas palavras e o seu texto!
Obrigada, Zilda… precisamos de si!
Sempre
Isabel

De Zilda Cardoso a 01.04.2011 às 21:07

Lembrei-me que talvez a Isabel gostASSE DE VER O BLOGUE DE José Alberto de Oliveira - franciscano, poeta e professor.

De Isabel Maia Jácome a 04.04.2011 às 19:53

Obrigada uma vez mais, Zilda.
Visitei, gostei e acrescentei aos favoritos!
Que bom e que bonito... e que bem me soube e creio me vai saber, lê-lo!...
Obrigada. Obrigada, Zilda.
Beijinho,
Isabel

De Joana Freudenthal a 13.03.2011 às 21:32

Zilda,
Não podia ter arranjado melhor qualificação para os desfiles cariocas em Portugal: PATÉTICOS. A nossa cultura e tradição não chegam?
Que tristeza...
Beijinhos.

De Vantag Galeria a 17.03.2011 às 19:46

carnaval maravilhoso é com o Palhaço Jardim na Madeira :)

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