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Contrato Sentimental de Lídia Jorge

por Zilda Cardoso, em 23.09.09

 

Num extraordinário momento de clarividência, tive uma ideia einsteiniana, passei-a rapidamente a um minúsculo papel branco e agora, depois de ler, estou a ler, o Contrato Sentimental, fui procurá-lo e aqui está, na minha frente, pronto para reviver neste texto.
Digo assim: Os escritores de uma certa experiência de vida e de escrita não deviam escrever romances. A sua actividade intelectual será muito mais interessante para a comunidade e útil se for uma reflexão sobre o mundo.
No Contrato, isto é bem visível. A sua leitura é muito inspiradora e não é usada aquela imaginação de criar histórias apenas para dar prazer, obras de arte para serem admiradas, mesmo usando, como é usada, a visão do mundo do autor.
Lídia Jorge começa o seu contrato duma forma sentimental e muito bem-humorada, divertiu-me imenso.
 
 “Muitos são aqueles que apresentam razões fortes para duvidar, mas eu tenho a certeza que Portugal existe. Ainda há pouco tempo atravessei o território de Norte a Sul… “
São 180 páginas de reflexão inteligente e bem informada de quem está habituada a pensar no futuro e a traduzir o pensamento em palavras inteligíveis para os outros.
Fala de identidade, de comunicação, de língua, de cidades, de mitos…
É a propósito de mitos que diz:
“Como sucede com todos os povos, sobre nós mesmos, temos ideias contraditórias. Para já… entendemos que não prestamos. Para muitos, nunca prestámos nem prestaremos. Todos por junto, não somos capazes. Mas não sei se não será menos útil a visão oposta que convive com esta, e é a face da mesma moeda, uma visão idealizada da nossa própria imagem. Refiro-me à ideia corrente de que poderemos não ser bravos nem especialmente empreendedores, mas somos inteligentemente compassivos e bons.”
O novo povo escolhido e protegido a quem nada acontece de mal? E que não faz mal a ninguém?
Que futuro nos permitirá continuar a pensar deste modo?
Sobre a formação, escreve que "cada vez mais a instrução básica está a preparar os jovens para  uma vida que lhes exige desenvoltura, capacidade de adaptação, preparação para um novo mundo laboral, predisposição para a curiosidade, a mudança e a viagem."
Temos todos esta simpática tarefa, este compromisso connosco que devemos satisfazer: o de rebater seriamente velhos mitos e descobrir quem somos e para onde podemos ir.
 

 

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publicado às 08:59