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O silêncio nas nuvens

por Zilda Cardoso, em 22.04.14

 

 

Acho que o Pinhão ganharia o prémio da vila mais feia de Portugal, que me perdoem as pessoas da terra que não terão todas culpa ou não poderão fazer grande coisa. E pode ser apenas o meu gosto.

De modo que, estando o hotel mesmo no centro da vila, não podendo caminhar nas suas ruas pelo trânsito pesado que permanentemente circula, voltei-me para o rio e as montanhas, voltei-me para o longe das coisas, daquilo que queria ver de perto, afinal.

Voltei-me para as coisas que posso ver de longe.

As montanhas pertencem a um mundo grandioso, imponente, magnífico. A base estava lá, os montes - uns altos outros baixos, mais ou menos redondos, caprichosamente sobrepostos, sempre recortados num céu azul, hoje tão azul este azul, os homens pincelaram-nos de diversos tons de verde. Encheram-nos de pontos de tamanhos variados, riscaram-nos em incertas direcções, decoraram-nos como lhes apeteceu. Resultou bem, este conjunto é uma obra-prima. E cada montanha destas é um esmero.

Fico feliz de olhá-los, aos montes, sempre lá, tranquilos.

Às vezes, o azul em que se recortam tem manchas brancas ou cinzentas, mais ou menos escuras e leves e entufadas onde tenho vontade de ficar escondida e confortável a espreitar o mundo. Talvez seja bom conversar um bocadinho com o silêncio de lá. As nuvens, bem dispostas neste espaço, redefinem-se a todo o momento, deixam ver agora menos azul, mas mesmo assim, é aquele azul que me anima a continuar por aqui um pouco mais.

 

 

 

Ontem havia vento, notei a diferença para a beira-mar. O som do vento aqui é mais grave, menos áspero. E a água do rio verde-escuro não tem nada a ver com esmeralda preciosa. Tem a ver com a preciosidade do azeite. E com a terra.

Tenho uma varanda com plantas e flores, inserida no grande jardim, donde poderia observar tudo isso se o chão não estivesse cheio de ninhos de vespas picantes. Receio por mim e fico dentro, por dentro dos vidros, o que não é o que aprecio.

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publicado às 11:46

"Impostura de língua"

por Zilda Cardoso, em 21.04.14

 

 

 

 

Tinha ideia de que na estação de Campanhã havia escadas que era preciso descer e subir com a bagagem… A menos que já tivessem feito obras e houvesse elevador e possibilidade de travessia em ponte sobre as linhas. Entrei na plataforma com o desejo de que a do Pocinho fosse uma dessas da entrada, que não houvesse que atravessar coisa alguma, nada, nem subir nem descer.

Tinha comprado o bilhete e vi que não havia lugar marcado. Um empregado disse-me qual seria o comboio que não tinha lugares marcados. “Lugares marcados? Deixe-me rir! Olhe, o comboio para o Pocinho é esse, este do lado de cá, cuidado não entre no outro, vai parar a Valença.”

Não, não entro. Mas então este comboio…

 

 

“Isto nem é comboio nem é nada. Estava no lixo e nós fomos buscá-lo. Os portugueses compraram, recuperaram e puseram nos carris. São esses, parecem charutos, não têm nenhumas comodidades. Isto faz-me cá uma impressão! Nós fomos buscar à sucata. Estava mesmo lá, não estou a brincar!”.

Entrei receosa no comboio da sucata e sentei-me num lugar qualquer, pus as tralhas - mala, computador, saco de ombro - a meu lado, na outra cadeira e lá fui. Deixei-me ir.

O que mais me enfadou foi o cheiro de gasolina queimada de motores. Prefiro os antigos comboios a carvão. É tão saudável o aroma da lenha! Mesmo as faúlhas negras que, em tempos, nos cobriam a roupa ao fim de poucas horas, eram delicadas e perfumadas.

Mas, pronto! Começou a surgir a maravilha da paisagem e do rio verde e oleoso e quase esqueci o transtorno da sucata recuperada. Paguei €5,45 Porto-Pinhão, que podia reclamar?!

Ao revisor perguntei se o comboio parava muito tempo na estação do Pinhão e ele respondeu olhando-me com alguma rispidez: “O suficiente!” Fiquei deleitada com a inteligência dele. Como soube o que eu queria saber e para que queria saber? “O suficiente”, tinha ele dito e eu repetia para mim: sim, senhor! Compreendo: ele sabia o que eu queria saber e por que razão.

Senti-me encorajada a perguntar: E qual a estação imediatamente antes do Pinhão em que o comboio pára? “Covelinhas!”

Fiquei tranquila, só devo prestar atenção a este nome que de facto vi aparecer daí a pouco em letras graúdas na estação, ao meu lado. Depois de passá-la, comecei a sair para a plataforma do comboio e fiquei lá encostada. Alguém que já colocava as suas tralhas junto da porta – enorme pacote com rolos de papel higiénico e diversas coisas esquisitas e familiares – disse-me: “Mas o Pinhão ainda não é aqui”. Tem duas ou três estações antes”. E citou os nomes sem hesitação.

  

 

Deve saber, pensei. E agora, que faço? É na próxima? É bastante mais longe? Posso arranjar uma grande trapalhada se sair na próxima e só depois reparar que ainda não era… Para que é que me meto nestes comboios do lixo, em linhas esquisitas com apeadeiros cujos nomes não se vêem do lugar onde estou e por onde o comboio passa rápido, mesmo este, dito da sucata?

Fiquei a reflectir sobre as respostas possíveis. Na verdade, para que me interessaria saber as estações onde o comboio não parava antes daquela em que iria sair? Para muito pouco. Queria era estar prevenida contra a ansiedade do momento, para mim importantíssimo, de me escapulir.

O funcionário deve saber, que diabo! Mas… um diz-me que é a seguir, outro que ainda faltam três estações! Alguma coisa está errada.

Eu, enquanto não chegasse o momento capital do meu dia, estaria inquieta.

Não podia desperdiçar nenhum segundo de atenção no complicado percurso do lugar até à porta, não podia correr nenhum risco como de não chegar a tempo e de deixar passar a minha estação. Nem sabia como se abria a porta de saída! E se não estiver ninguém que saiba abrir a porta? Já vi que tem um fecho original, de todo invulgar! Garbage.

Logo a seguir, ressurge a senhora das tralhas requintadas e das certezas absolutas que me diz: “É aqui. Vê, não é a seguir a Covelinhas!”.

Agradeci. Ela não viu que o que me interessava eram as estações em que o comboio pararia, não aquelas que havia e eu nem via. E fez-me alguma confusão.

Mas foi muito prazenteira e ajudou-me com a mala amavelmente, depois de sair e colocar as coisas dela no chão do Pinhão.

Tinham-me dito que, mesmo ao lado da estação, havia uma campainha mágica que, se a tocasse, apareceria de imediato um empregado do Hotel que me levaria as malas. No entanto, como a estação e a vila são do lado esquerdo da linha atravessei e perguntei na bilheteira pela campainha. “Não sei nada de campainha, sei que o Hotel é do outro lado e vai ter que sair lá ao fundo e atravessar de novo”. Ele não estava muito bem-humorado. Aceitei, não lhe cabia a ele…

Voltei a atravessar, derreada, desesperada, eu que tinha escolhido este alojamento para não ter que andar com a mala de um lugar para o outro! Enfim…

A campainha estava lá, o empregado solícito veio, subimos e descemos escadas, percorremos compridos corredores e grandes salões e deparamos enfim com a recepção.

Foi tudo muito simples.

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publicado às 14:22

Escrever… para quê? Falar… para quem?

por Zilda Cardoso, em 19.04.14

 

 

As palavras em si têm muito pouco valor, como todos sabem por experiência e por ciência.

Para compreendermos o que nos é dito, é necessário não apenas conhecer a língua, mas usar variados outros recursos. Devemos valer-nos da observação dos gestos de quem fala e da análise das suas expressões e atitudes enquanto fala. E ouvir. Escutar é melhor.

E como sabemos se estamos a interpretar correctamente os gestos, as expressões, as atitudes?

Do mesmo modo, para compreendermos o que lemos não basta saber ler: há que possuir muito diversos conhecimentos e capacidades.

Quer dizer, e por estranho que pareça, nada do que diga respeito a compreensão é fácil, quer se trate de fala quer de escrita.

Haverá formas de compreender, não há uma forma. Pois que a forma como entendo seja o que for depende do que sou como pessoa e das circunstâncias internas e externas que determinam a minha disposição, no momento, seja, o contexto que pode ser muito complexo.

Assim, é possível eu mesma, com todas as minhas características próprias activas, entender o que leio ou o que ouço de forma diferente em momentos diferentes e distintas circunstâncias.

E acontece naturalmente eu compreender duma forma, tu doutra e ambos termos razão.

  

 

  

De que é, neste caso, que estamos a falar?

Vale a pena falar ou escrever a não ser como arte não destinada a comunicar… e que ganha riqueza e valor com os múltiplos sentidos?

De que estamos a falar?

Falo de literatura e não sei se posso falar de oratória, por exemplo, que será uma arte de falar (há com certeza discursos que se não destinam a informar apenas e por essa razão lhes chamo artísticos) e há o teatro que começa por ser literatura ou antes escrita, e termina no palco como fala (artística). Fala que é uma interpretação de quem fala o texto, escrito para o espectáculo, para ser interpretado por quem ouve e vê, quero dizer, é para quem assiste (ouve e vê) lhe dar o sentido que entender, de acordo com o seu imaginário.

Concluo que não vale a pena falar ou escrever a não ser como arte não destinada a comunicar… e que ganha riqueza e valor com os múltiplos sentidos que podemos desvendar.

 

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publicado às 16:58

O FIM QUE CONHEÇO

por Zilda Cardoso, em 13.04.14

 

 

 

  

A vida é isso que corre por mim

- acenei timidamente -

e que não pára.

 

A vida é isso intenso e rápido

luminoso e verde e duro,

não o que fica

 

na estrada comigo gozando a solidão.

 

Deslizo sem pressa como representação

para o fim que sei onde

mas não como.

 

 

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publicado às 14:46

outra vez o vazio

por Zilda Cardoso, em 12.04.14

 

 

Quando todos se vão

e fico no silêncio…

sofro pensando

que regressarão

a tempo de

eu não ter tempo

de pensar o que pretendo

 (encontrar-me

explicar-me

perceber por quê).

 

Escuto ruídos

aí vêm, já vêm.

É quase outro dia.

Mas será o mesmo:

não achei respostas,

não tive tempo

é outra vez vazio.

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publicado às 16:36

Heróis do nosso tempo: Alcino Cardoso

por Zilda Cardoso, em 11.04.14

 

(discurso/testemunho proferido na recente homenagem no Rotary Club do Porto-Douro)

 

É natural e é verdade que cada um de nós marca, de diversos modos, a comunidade em que vive. Alguns, pelas suas virtudes e acções, deixam, quando nos deixam, marca mais profunda do que outros. Não queremos esquecê-los.

E, pergunto, que civilização seria a nossa, se não recordássemos os que partiram, se não os homenageássemos!?

Que civilização seria…?

Vemos que as grandes personagens da literatura e do teatro - dos romances e das tragédias clássicas que nos formaram continuam a emocionar-nos, muitos séculos depois da sua criação. Evocámo-las a cada passo - os nossos heróis - como evocamos as personagens históricas que presidiram à criação do nosso mundo. Tornamo-las imortais.

Penso que o que estamos a querer apontar com esta homenagem é que o Alcino deixou uma marca profundíssima não apenas na família mas na cidade, naqueles que tiveram oportunidade de com ele conviver num âmbito mais alargado do que o seu círculo da amigos e conhecidos. Na profissão (como gestor bancário, como vice-presidente da Câmara de Comércio Luso-Francesa, como consultor e presidente do conselho de administração da BNP Factor…), como nas suas múltiplas actividades particulares a bem da comunidade, ele esteve sempre presente para ajudar a resolver problemas. E a resolvê-los com brio.

A sua atitude foi sempre positiva - não se sentava sobre os problemas esperando que se resolvessem por si ou que outros os resolvessem. Fazia tudo, com prejuízo do próprio bem-estar e da saúde, para avançar mesmo por caminhos difíceis até à solução pretendida. Foi assim que realizou os sonhos de muita gente, penso que é desse modo que o podemos recordar: reconhecendo o seu valor como realizador de sonhos.

Permitam-me que conte dois episódios que ilustram esse seu permanente desejo. Que como qualquer desejo tem valor porque se transformou em acção.

Quando preparávamos o nosso casamento, em certo momento, perguntou-me onde gostaria de passar a lua-de-mel. Ri-me pensando na estupidez do que ia dizer, mas respondi: em Paris! Sabia que não era possível: onde tínhamos dinheiro para uma viagem a Paris? Mas nada me impedia de sonhar.

Foi nessa ocasião que o vi pela primeira vez pegar no lápis e no papel e riscar uns números, somar e subtrair; consultou mapas decerto; notou uns nomes talvez e… fomos a Paris. A verdade é que fomos a Paris! Directos, de comboio, numa carruagem comum. Encontrámos o J. M. que viajava para a Alemanha onde tinha negócios. Apercebeu-se imediatamente de que éramos recém-casados pelas solas dos nossos sapatos novos. Ensinou-nos como conseguir que ninguém mais entrasse naquela carruagem e fomos os três tranquilamente, deitados nos bancos de suma-a-pau durante toda a noite. Ficamos amigos para sempre.

Chegados a Paris, procurámos o metro, de malas na mão e o mapa da cidade, em busca do hotel onde tínhamos marcação. Era perto da Ópera, não houve nenhum problema e nunca mais esquecemos essa primeira aventura. Ainda hoje, Paris é a cidade mais bela do mundo, tem para mim enorme sedução, a ligação entre nós é fortíssima.

Recordo ainda uma célebre viagem a Genève de carro, ficámos num parque de campismo perto da cidade. Ele era o representante dos trabalhadores portugueses à Conferência Internacional do Trabalho … Não, não vou contar, mas digo-lhes que foi extremamente instrutivo e estimulante.

Muito mais tarde, há poucos anos, tínhamos uma loja alugada a uma designer de moda que apresentava trabalhos seus muitointeressantes. Confessou que lhe era custoso pagar a renda. O Alcino perguntou-lhe se quereria comprar a loja. Ela que sim, que gostaria muito, mas como? Tinha apenas desejo de trabalhar. Então, usando o velho processo do lápis e do papel, o Alcino traçou um plano, fez umas perguntas, contas e reflexões e o sonho… concluiu-se. Em poucos anos, ela possuía um lugar de exposição permanente sem grandes sacrifícios, com alguns, e que lhe permitiu desenvolver a sua actividade qualificada, graças àquele precioso primeiro passo e depois, sem dúvida, com persistência, vontade e dedicação.

Acções como estas estão longe de serem raras na sua vida, tornaram-se comuns. Quantos desempregados ou subempregados ajudou a encontrar trabalho, dando-lhes mesmo trabalho na sua casa, e a subir na hierarquia da profissão dando-lhes a oportunidade irrecusável de se ultrapassarem?

 

Quantos desempregados ajudou a encontrar trabalho, dando-lhes mesmo serviço na sua casa, e subempregados a subir na hierarquia da profissão pela oportunidade irrecusável que lhes facultou de se excederem? Parece-me que pensava que cada ser humano, apenas porque existe, tem direito a usufruir de oportunidades possíveis e impossíveis e teria vontade de se ultrapassar.

 

 

Desde que encontrasse nas pessoas que o solicitavam qualidades que lhes permitiriam atingir os próprios objectivos, desde que acreditasse nelas, ele descobria em si faculdades que lhe possibilitavam ajudar a realizar quimeras ou o que se apresentava como quimera. Nesse aspecto, era um maravilhoso prestidigitador que eu vi actuar como tal inúmeras vezes ao longo da sua vida. Só que as suas actuações mágicas não eram representações, saíam das suas mãos objectos reais, concretos e sobretudo úteis.

 

Era deste modo que o seu génio se acendia. Era assim que revelava a sua generosidade construtiva, foi aí que se empenhou até ao termo das suas forças.

E na actividade profissional, a atitude foi a mesma: estava ali para ajudar a construir. E ajudou.

 

A Assembleia da República apresentou um voto de pesar, pouco depois do seu passamento, um deputado leu o impressionante currículo que conhecemos, foi transmitida a cerimónia pela televisão. Alguém viu? Para nós, seus familiares foi emocionante o silêncio pesado de 60 segundos, a Assembleia em pé prestando homenagem perante o País a que ele, de diversos modos, dedicou tanto da sua energia e inteligência, como vereador, como fundador de um partido político e conselheiro, como deputado, como secretário de Estado, como trabalhador incansável.

Nas suas actividades particulares, pertencia a todas as instituições de benemerência que a ele recorreram nalgum momento, a associações desportivas e culturais onde voluntariamente trabalhou e cumpriu desde o Clube Fluvial nos seus começos difíceis até ao Círculo José de Figueiredo no Museu Soares dos Reis, a este clube rotário que fundou e a que deu uma vida extraordinária durante muito tempo, à Misericórdia do Porto, ao movimento monárquico fundando a Real Associação no Porto, às Confrarias e Ordens Militares e Religiosas (com intenções de beneficência) desde a do Santo Sepulcro, à de S. Maurício, à de N.S.ª da Conceição de Vila Viçosa, à Ordem de Malta…

Teve uma vida plenamente realizada, segundo ele próprio, porque trabalhou com discernimento e persistência, com coragem e vontade de vencer. Confessou um dia gostar de definir caminhos e objectivos, de participar, de procurar um sentido para a vida. Gostava de explicar a outros como a nossa existência poderia ser melhor se trabalhássemos todos para o bem comum. Afirmava que, através da profissão, se sentia integrado numa comunidade da qual e para a qual vivia. E na comunidade, estimava ser apreciado, sentia-se bem no meio de todos (ou de muitos), vivia para eles a ponto de se deixar absorver pelos seus problemas (palavras suas).

De modo que, para o Alcino, não houve fortunas herdadas nem reformas milionárias nem pensões semelhantes; nem tampouco subsídios, indemnizações, altas recompensas e coisas semelhantes apesar da importância dos lugares que ocupou: apenas o trabalho teve valor. E serviu e chegou para o que pretendia fazer da sua vida. Afirmo que ele conhecia e apreciava as vidas dos heróis clássicos e as dos santos, a sua vida foi a de um desses heróis que importa agora dar a conhecer.

 

Assim: ele foi o que quis ser. Definido o caminho, seguiu-o. Essa vida que escolheu viver foi baseada no trabalho apaixonado e inteligente que lhe permitiu construir tão próximo do próximo.

 

O que quero dizer é que celebrar a sua vida é um acto de justiça.

Nesta época de queixas e de acusações, a sua atitude dinâmica foi exemplar e é uma lição. Parece-me justo pensar que outras homenagens nesta cidade vão ser prestadas; que é uma aspiração legítima nossa, da família e dos amigos, prolongar a sua memória que é o que este clube - os seus ilustres membros - estão a realizar, como europeus orgulhosos da uma civilização de subidos valores tal como é o apreço pelos que contribuíram para o bem comum de forma pouco comum. 

E que contrariam, contrariam, com esta atitude respeitosa o que se diz: que este tempo sombrio é o do “desesperante declínio da nossa civilização”. Não é, enquanto evocações como esta acontecerem.

Muito obrigada.

Zilda Cardoso 

(

 

 

 

 

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publicado às 10:56

VER NO ESCURO

por Zilda Cardoso, em 29.03.14

 

 

Nestas últimas semanas de muitos afazeres, quase esqueci as ervas aromáticas minúsculas que lutam por crescer na minha varanda junto do mar. Dependem de mim e pedem atenção.

As flores … entrevi aquelas duas enormes do Cargaleiro sobre fundo vermelho, uma cor-de-rosa, outra azul e turquesa, e as miudinhas das travessas de porcelana oriental pregadas na parede.

Algumas vezes, durante este tempo, vi de soslaio, lá fora, o ar luminoso ou a chuva que cintila, o nevoeiro cinzento e zangado ou, pelo contrário, o que tem também luz, e as nuvens caprichosamente encaracoladas, admiráveis, mas nada verdadeiramente me impressionou. Reparei sim nos vidros sujos, no vento que teima em entrar pelas frinchas, nos muitos ruídos das inúmeras máquinas de cada apartamento deste prédio de muitos andares e muitas obras, e noutras desagradáveis realidades.

 

 

 

 

É fácil viver num andar alto, plano, sem escadas e sem outros inconvenientes trabalhosos, mas não é bem numa casa. Não posso tocar no céu nem na terra; só com o olhar, se tiver muita vontade. Estou longe de tudo. É um mundo de interesses que dificilmente se conjugam: que carinho encontro, que carinho dou? Não parece o lugar apropriado para uma relação familiar.

Porém agora no espaço remodelado onde estou cerrada, branco e imaculado, posso ligar tudo isto que vejo daqui - as aromáticas, os brilhos diversos do ar, os sorrisos sedutores e abertos do mar, os seus silêncios e um larguíssimo horizonte com pássaros contra o azul. Posso ligar tudo também com um pouco do caminho que costumo percorrer.

Calculo que o ar fresco seja muito do agrado dos pássaros que voarão com entusiasmo para sudoeste quando começar a escurecer.

Ontem quando a luz natural se apagou, foram os relâmpagos todo-poderosos que iluminaram o cenário, vindos talvez das profundezas mais sombrias, não sei.

  

  

Saí à varanda para perscrutar: os ruídos dos trovões eram outros ruídos.

É para mim uma época agitada, esta, em que preciso de soluções, decifrações, conclusões, umas e muitas, e não encontro. Tenho perguntas e confusão quando desejo o entendimento que sempre quis.

Com tristeza, penso por que estão os meus pais muito longe, desejariam poder apoiar-me delicadamente. Penso neles agora: deslindariam. Eles deslindariam com amor.

Talvez não necessite de grande clareza de raciocínio: preciso apenas de ver no escuro.

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publicado às 17:00

Todas as máquinas nascem com instruções

por Zilda Cardoso, em 16.03.14

Esta máquina fotográfica digital sem espaço na memória… para que me serve?

De súbito, dei-me conta de que ignorava como eliminar fotos já daqui passadas para o computador. Tento uma coisa e outra e… não é. Não é isso.

Tirei apenas duas em Serralves: uma à magnífica magnólia arroxeada e outra ao rododendro vermelho. Acabou. Tinha-me esquecido dessa possibilidade e… vim ao Parque fotografar as cores deste dia como se viesse descalça.

Terei coragem para perguntar a algum desconhecido como se eliminam…?

Achei que estava preparada para fixar centenas de imagens brilhantes de um dia esplêndido de sol, como este! Meu Deus, quando me conciliarei com as instruções das máquinas?

Ao fim de duas horas de considerações idiotas e muito rebatidas, acometi uma jovem com ar solícito, pedindo-lhe para eliminar todas as fotos em memória na minha máquina. (Não lhe perguntei se sabia, naturalmente). O que ela fez com a maior das facilidades sem consultar nenhum manual.

Está tudo lá inscrito em ícones expressivos. Veja, disse-me, clica aqui e aparece isto, clica acolá e aparece aquilo. Já está. Já estão todas eliminadas.

Fiquei…! Em poucos segundos, quedou tudo decidido. Foi só necessário ter nascido nesta época.

A mim pareceu-me prodígio.

Agradeci-lhe duas ou três vezes, penhorada, cheia de sorrisos. A certa altura, já distante, voltei atrás para agradecer de novo, pela quarta vez, perante o seu espanto.

Será que eles e elas sabem que é isto que têm para nos ensinar? Que tudo-o-mais é connosco!? (Bom, quase tudo-o-mais). E foi connosco?! E com os que nos antecederam?!

Será que sabem que têm um longo caminho a percorrer sob a alçada dos mais velhos?

Terão sempre um percurso a completar com os mais velhos enquanto estes existirem.

É bom que valorizem o que sabem - o que lhes foi ensinado e o que inventaram ou descobriram.

É bom que valorizem o que receberam de herança partilhada e não esqueçam que o que inventaram não foi do nada. Há um complexo contexto histórico e há um silêncio.

Não precisam de levantar muito o queixo, apenas carecem de ser inteligentes. E constato com alguma tristeza: há poucos destes à minha volta. Felizmente, há biliões noutros sítios, por isso, o mundo continua a rolar serenamente. 

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publicado às 09:32

As camélias na Câmara do Porto

por Zilda Cardoso, em 13.03.14

 

 

 

Gosto sempre de ver as camélias todas juntinhas em magotes distintos sobre o relvado, sem folhas a complicar – sabem,  aquelas folhas gordas, bonitas, duráveis, lustrosas, bem desenhadas que ficam cândidas mesmo na jarra sem flores. Aprecio ouvir chamar Rosas do Japão às camélias e prestar atenção à sua história. Acima de tudo, à história que liga a do Japão a esta, portuense.

Os turistas adoram e havia japoneses, no sábado passado, a sentirem-se o começo de todas as coisas.

Muitos jornalistas a quererem fotografar tudo, empurrando, acotovelando para a melhor imagem, a de primeiro plano. Quase gostei de ver porque, desta vez, a estrela na passadeira vermelha era a Camélia do Porto.

Havia muito diferentes cores, distintos tamanhos, explícitas organizações de pétalas e de estames. Achei que elas estavam ligeiramente desconfortáveis ali, na Câmara Municipal, na imponência do edifício, no átrio de recepção.

  

 

Estavam acanhadas e não muito sorridentes, eram lindas, quand même.

Havia-as de cor carregada, cardinal, pétalas quase transparentes, algumas com o centro fofo de várias cores, amarelo e rosado como um pompom de estames, maiores, mais pequenos. E havia-as brancas duma perfeição cuidada, inteiramente regulares, belíssimas, sem um ponto a destoar. E cor de salmão ou de coral, grandes. E vermelhas, claro, todos os tons de vermelho e de rosado. Não havia amarelas, mas quem se importa?

  

 

 As pétalas eram redondas, pousadas e dispostas na base como a fruta de uma tarte de laranja ou doutros frutos a partir do centro. Outras camélias mostravam as pétalas de pé e podiam terminar em bico. (Nunca antes tinha reparado nestas).

 

 

 

Algumas pétalas são grandes, colocadas em camadas bem visíveis, muitas camadas… umas, muito menos camadas… outras, às riscas brancas e rosa ou às manchas, com delicadas pinceladas, apenas nas pontas ou por toda a flor, com cuidados de geometria aplicada ou um pouco à bruta…

Havia-as minúsculas e havia-as enormes, volumosas e singelas, com apenas seis pétalas ou com tantas que lhes perdi a conta, com o centro amarelo e atraente em fios de pé terminados em almofada ou pétalas iguais às outras, se bem que dobradas e redobradas para ocuparem pouco espaço…

 

 

Tenho que voltar a ver… Fiquei muito alvoroçada.

No entanto, elas preferem estar no Palácio de Cristal com vista para o jardim, estou convencida disto, por favor. Que tal dois lugares de exposição!?

Numa cidade que dizem cinzenta, granítica e triste, elas são a nossa alegria em pleno Inverno. É agradável vê-las a serem bem examinadas, recebidas no City Hall, o Presidente a fazer o seu discurso e tal, os jornalistas e as flores em volta a decorá-lo e a gravar, os visitantes a apreciá-las num lugar largo e aberto mas, digo, elas prezam o jardim onde estão à vontade.

Tal como a cidade, são frescas, modestas, delicadas, sensíveis, muito belas e simples mesmo quando são complexas e aristocráticas.

 

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publicado às 21:03

O sorriso do Gato Cheshire

por Zilda Cardoso, em 28.02.14

Tenho andado por aí a semear sorrisos - sem grande resultado. Se bem que a princípio o fizesse com muita convicção, o desfecho nunca foi o esperado.

Os amigos tinham-me recomendado: sorri, sorri… semeia, semeia... E eu…

Sorrir é bom, diziam-me, e muito conveniente, além de agradável.

Sorrir parecia então prometedor, mas já não tenho a certeza: fartei-me de semear e nada nasceu nem mesmo em tempo de chuva e temperatura primaveril.

Então qual o interesse em continuar…?

 

Possivelmente, percebi mal e os sorrisos não eram para derramar/propagar nem, por conseguinte, para nascer, crescer e multiplicar-se. Seriam para condimentar, espécie de especiaria cheia de propriedades terapêuticas, perfumada e colorida, chegada da Índia na última Caravela dos Descobridores. Para melhorar o sabor de qualquer coisa que eu oferecesse. Ou para aperfeiçoar a receptividade ao que apresentasse ou me fosse apresentado.

De qualquer modo, hoje, não encontro nada que se pareça com o que pretendo ter semeado.

Vejam, eu julgava...

Mas não sei por que me obstino em pensar no tema já que reconheço que só têm valor e verdade dois tipos de sorrisos impossíveis de encontrar a não ser em fantasias compulsivas.

Na minha vida, calculava ter visto pelo menos um: o meu já antigo. Inalterado. Ao espelho. 

Estava redondamente enganada. Nem esse vi. Não existe!

 

Os sorrisos verdadeiros, os que vale a pena considerar, são os das personagens de autores tão importantes como Tolstoi ou Agustina. Isto é uma constatação!

Ou o do gato Cheshire. O gato desaparece e o seu sorriso fica no ar (ou nos ramos?) por muito tempo onde antes estava, no mesmo lugar, na cara do gato. Mas daí a pouco, reaparece o gato, ele e o sorriso, para repetir a façanha de desaparecer e aparecer, desaparecer e aparecer, não sem antes ter conversado com a sua amiga Alice.

Adoro aqueles dois, o gato e o sorriso que ambos povoam a minha imaginação desde que os vi pela primeira vez, há milhares de anos, no País das Maravilhas.

Aparecer sorridente e desaparecer deixando lá o sorriso… não posso imaginar nada mais fantasioso e inteligente.

Do mesmo modo, apreciaria que o meu sorrir se prolongasse no tempo e na memória de quem o visse como o dessas personagens importantes. Se eu fosse viva como elas e marcante, ele, a existir, duraria pelo infinito fora. Ou desapareceria e reapareceria como o do gato da amizade da Alice.

 

As grandes personagens, mesmo as de Proust, quando sorriem é para todo o sempre ou para muito muito tempo. As pessoas não se esquecem de como é belo e inspirador, recordam-no.

Se eu fosse personagem de ficção nem precisava de estar satisfeita comigo nem com o mundo para sorrir; não precisava de ter o mundo a meus pés nem sequer ao meu redor.

Sorriria, fosse pelo que fosse (incluindo todas as intenções) e toda a gente estaria feliz, imitar-me-ia com prazer.

Oh! Seríamos todos felizes como os príncipes, as princesas e as fadas dos contos de outros tempos.

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publicado às 21:58