Sábado, 21 de Novembro de 2009
LUTAR ATÉ VIVER (2)

Continuo a transcrição da nota preliminar do livro LUTAR ATÉ VIVER de Vitor Raimundo Martins e da família, pois todos colaboraram na sua feitura - escrita e ilustração.

 

 

"A HEPATURIX é uma associação de jovens
transplantados e com doenças hepáticas crónicas e nós, os pais
que a fundámos, tivemos um papel determinante na defesa da
“Escola de Coimbra” criada há 15 anos pelo Sr. Prof. Alexandre
Linhares Furtado e hoje liderada pelo seu filho!
Felizmente que o Dr. Emanuel Furtado manteve-se
connosco e à frente do programa TRH. Hoje, passados mais de
dois anos e meio sobre essa “crise”, continuamos com algumas
preocupações, mas pelo menos o programa funciona!
Assim têm-se salvo algumas vidas “pequeninas”, porque
nem todos os casos teriam resposta no estrangeiro, como aliás se
verificou nessa altura com o envio de uma criança para Madrid e
que acabou por ser transplantada em Portugal.
Como entretanto a transplantação hepática deixou de ser
notícia pelas “piores” razões, apercebi-me que o assunto tem tido
tendência a esbater-se. Ao poder político e a quem decide, espero
que o livro sirva pelo menos para relembrar que é necessário
investir na formação de mais cirurgiões!
Espero também que este seja um testemunho útil para
todos aqueles que tenham a infelicidade de passar por um
processo idêntico! Aos outros, ficará apenas a história…"
... que é uma belíssima história de amor.
 
 
A minha neta Mini tinha 7 anos quando desenhou esses cavalos (ela é apaixonada por cavalos) e agora dedica a sua obra prima ao nosso  pequenino herói de Lutar até Viver.

 


sinto-me: bem e esperando o melhor


LUTAR ATÉ VIVER

 

 

Peço licença ao autor, Vitor Raimundo Martins, para transcrever aqui uma parte da nota preliminar que antecede a história comovente que nos conta no livro LUTAR ATÉ VIVER a ser apresentado em diversas cidades do País nos próximos dias.

 

 

Em 2004 ‘o mundo’ da transplantação hepática era-nos

completamente desconhecido.

Entrámos neste meio por causa do transplante hepático

do nosso filho e ficámos a conhecer uma vertente da medicina

muito nobre e desconhecida da sociedade em geral.

Entretanto, ao longo dos meses fomo-nos apercebendo

das virtudes, das insuficiências e de algumas particularidades.

Recentemente, o programa de Transplantação Hepático

Pediátrico (TRH) passou por algumas dificuldades que poderiam

ter custado a sua continuidade em Coimbra e em Portugal, pois

apenas em Coimbra se fazem transplantes hepáticos pediátricos.

Hoje, graças à HEPATURIX muita coisa tornou-se pública

através dos jornais, das rádios e das televisões. Tudo isto

mostrou ao país uma realidade desconhecida de todos, mesmo de

alguma classe médica!"

 

(continuarei esta nota preliminar e contarei a história do menino que será o nosso herói nos próximos tempos)

 


sinto-me: com muita esperança


Sábado, 14 de Novembro de 2009
Estou encarregada da minha vida!

 

 

Você está incumbido de viver a sua própria vida!
Li isto algures e fiquei a repetir, a repetir. A reflectir.
Claro que ninguém pode viver a minha vida e portanto eu tenho que a viver. Depende de mim vivê-la a meu gosto. Vivê-la bem e de bem com os outros, com os que constituem comigo o mundo.
Eu é que decido o que fazer com as informações que me são dadas, li também no mesmo escrito. As pessoas podem dar-me os esclarecimentos que quiserem, mas eu decido se os aceito ou não. Se me servem ou não. Se acredito.
 
 
 
Com isto, sinto-me de tal modo responsável por mim, tantas decisões a tomar, tantas coisas em que estou envolvida. E interrogo-me: Como poderei mudar o que para mim não funciona? 
No entanto, sei agora que não quero ser um exemplo do que a humanidade pode atingir com pensamentos positivos. Não quero. E não acredito que esteja encarregada de tudo, inteiramente responsável pelas mínimas e pelas grandes decisões que tomar, não creio saber sempre o que hei-de fazer. E não julgo poder não ter dificuldades, poder gostar de tudo mesmo daquilo que acontece comigo.
A minha grande decisão é esta:  quero depender de Alguém.
Sozinha não.
                                                  

 


sinto-me: irresponsável


Sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
FALACIOSAS CAMADAS

 

  

 

 

JORGE CARDOSO tratou fotografias suas de há muitos anos e transformou-as em arte.

Esta é uma de uma série apresentada em Ponte de Lima na Torre da Cadeia Velha no mês de Outubro.

 

É um trabalho invulgar: o suporte da imagem é alumínio texturado, um grande painel, sobre o que estão afixadas com parafusos bem visíveis, a uma certa distância, placas de acrílico com imagens fotográficas geométricas ou não. O conjunto é tridimensional, um tanto sofisticada e propositadamente artesanal.

O painel lembra a fotografia antiga a preto e branco, mas tanto o suporte como o material acrílico a modificam de modo que outras imagens aparecem e se sobrepõem. O que fica são camadas, layers, e lying layers ou seja camadas aparentes, mentirosas. É também  referência à posição reclinada da Lolita no sofá, tal como se vê noutras obras expostas.

Há referências à técnica digital nas letras e nos números. Segundo Jorge Cardoso, letras e números são pistas para decifração de... mistérios, digo eu, existentes por ali, no belo espaço medieval.

As palavras mão não mente sim ou apenas mão não mente com a última palavra fugidia a vermelho alaranjado aparecem pintadas em todas as obras. É a ideia de que a fotografia não é necessariamente a verdade, mas pode ser arte possível de ser reproduzida mecanicamente. Poderá falar-se de descontextualização, de ambiguidade e de abstraccionismo? Não sei.

Um elemento interessante da exposição (que não está aqui suficientemente explanada, lamento) é a música e uma voz off que repete certas palavras e dá à sessão um acentuado ar de humor inteligente e conhecedor de novas técnicas e novos conceitos de arte. 




Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
O que é a Política?

 

Que pergunta!!
A política organiza as relações entre os homens - até aqui todos de acordo. Não lhe interessa o homem como às outras ciências humanas, mas a comunidade dos homens.
Segundo Hannah Arendt, não há nada de político no homem, na sua essência. A política não nasce com o homem, nasce com a comunidade.
E porque os homens que vivem em comunidade são muito diferentes uns dos outros e a política tem de cuidar das relações entre eles (repito), a tarefa dos políticos não é fácil. A política, pelo menos em democracia, deve  tratar como iguais seres que dificilmente se assemelham.
Vejam as contradições: a política tem de elaborar e instituir as relações entre os homens esquecendo que são diferentes ou, se quiserem, considerá-los iguais, sabendo que são diferentes.
De que modo pode ser assegurado que indivíduos tão desiguais beneficiem dos mesmos direitos? Porém, isto tem que ser garantido num regime democrático. Ou falaremos de “igualdade relativa” e de “diversidade relativa” (Arendt)? E em que aspectos são os indivíduos diferentes? E em que aspectos são iguais?
Trinta e cinco anos de moderna democracia permitem-nos pensar que gostamos de viver neste regime cheio de defeitos.
Gozamos um espaço de liberdade que é próprio desta actividade política: temos liberdade de expressão e demagogia, delírio consumista e desmoralização, sofistas por todo o lado. A desordem intelectual e a desordem social, instalam-se. E há alunos e seguidores de sofistas para quem a verdade e a justiça não contam. E há corrupção talvez porque a lei não tem carácter sagrado, é convenção e verdadeiramente não obriga. E o indivíduo…
Talvez devamos voltar a pensar no indivíduo e na necessidade de excelência moral e espiritual, na indispensabilidade de educação, de cultura, e na definição dos conceitos e princípios que o orientam, que nos devem orientar.
Como a todos, o porquê da corrupção imparável vem-me ao pensamento com frequência. Exaltamo-nos com tudo o que dizem e temos razões para nos sentirmos zangados.
Mas será que estão definidas fronteiras sobre o que é considerado corrupção e crime e o que não é crime?  Será por  esta razão que os processos nunca chegam ao fim... que não há conclusões... nem inocentes nem culpados...nem verdades nem mentiras?

sinto-me: meditativa


Chove de baixo para cima?

 

Concordo que é difícil que chova de baixo para cima e, concluindo que, mesmo assim, quero dizer, de cima para baixo, já é chuva a mais, proponho que vamos saber o que o grupo-teatro de Leiria tem para nos dizer a este respeito.
 

 

TE-ATO (Grupo-Teatro de Leiria)
Sala Jaime Salazar Sampaio
Rua Pedro Nunes (Transversal Arquivo Distrital / Terreiro)
 
 
Quarta, 11, 21h30: Sala Jaime Salazar Sampaio | Leiria
Sexta, 13, 21h30: SOM | Marinha Grande
Terça, 17; 21h00: Teatro Gil Vicente | Cascais
 
 
Não chove de baixo para cima
 
Texto e interpretação: Sandra José
Encenação: João Lázaro
Apoio Técnico: Ana Rita Santos
 
Uma peça que tem merecido forte aplauso do público face a um texto surpreendente e uma interpretação rigorosa.
 
Contactos:
Maria Manuel Rocha Marques (Directora) 914 660 772
João Lázaro (Director Artístico) 962 904 385
teatroleiria@gmail.com
 



O Poder das Palavras

 Quando um regime político passa a democrático, o poder das palavras torna-se por de mais evidente. No Parlamento e em qualquer lugar público, é necessário não apenas ter ideias mas saber defendê-las. Por isso, mudança total na educação.

 

 

Com a democracia, na Grécia antiga, surgiram os sofistas, profissionais do ensino de como usar a palavra para convencer, contestar, argumentar, fazer valer a sua opinião. Todavia, a opinião, para Sócrates que viveu na mesma época, é vazia, expressão de conveniência e de paixão.
As opiniões exprimem interesses individuais e de grupos, não constituem sabedoria; cabe aos sábios, denunciar essa falsa sabedoria. Será ele, Sócrates, o homem sábio (ou o seu modelo) – o que sabe que nada sabe para além deste saber. Há uma ironia nesta constatação de ignorância, mas há também a certeza de que é a partir da consciência da própria ignorância que se pode chegar a conhecer. Tudo isto, cada um de nós aprendeu na escola; é conhecimento básico, princípio da filosofia.
Acontece ainda no nosso tempo que os sábios, ou seja os que procuram justificar inteiramente as suas opiniões, acabam derrotados pelos que conhecem a “técnica das técnicas”, a fascinante arte do discurso; e são capazes de persuadir mesmo numa causa injusta.
Interrogámo-nos: como vamos aprender a distinguir…?
As palavras podem enfeitiçar e arrebatar ou envenenar e corromper, têm um poder imenso.
Mas podemos fazer a escolha entre opinião e saber, dizia Sócrates; entre a opinião oca e a filosofia que é conhecimento e pode dar conteúdo e ser juiz de todas as opiniões.
Sabendo que o discurso não informado e retórico pode levar à injustiça e à violência, parece urgente estudar os problemas e, pelo uso da razão que é logos, penetrar na realidade e talvez encontrar a verdade.
E não me digam que já ninguém procura a verdade e a justiça. Não será necessário ir até à logocracia, mas “a ordem, a eficácia e a racionalidade” trarão certamente o que mais se aproxima da justiça que pedimos e a que temos direito. Haverá ainda considerações de outra ordem, já que não somos apenas cabeça e razão mas também coração e emoção e por isso alguma paixão entrará nas nossas resoluções.
(Falarei um pouco de política como dizendo respeito à comunidade dos homens e às relações entre eles).

 

 


sinto-me: à procura da verdade socrática


Sábado, 7 de Novembro de 2009
A verdade da história

Um dia, Agustina disse-me respondendo a uma fala minha: "Para que quer saber a verdade? É muito mais importante que a história seja interessante que verdadeira".

Fiquei a reflectir.

Algum tempo depois, acabei de escrever o livro publicado há alguns anos em que conto a história da minha bisavó Ana Augusta.

Era do que eu falava com Agustina. Fiz investigação e encontrei muitos documentos com grande valor informativo. Segundo a lógica que conheço, a minha bisavó pensou e actuou de certa maneira. E é essa presunção que apresento para além do que concluí da análise dos documentos.

Pode ter-se passado como eu conto, ou não. E ninguém nunca saberá, ninguém nunca vai poder contar a verdade.

Há no livro muitos momentos em que o real é apenas evocado ou duplicado. Aí, não há mensagem nem desejo de comunicar nem intenção de dar a conhecer a verdade (que desconheço). A função da minha linguagem tal como se apresenta, é fazer com que gostem da história que estou a contar, que prezem a personagem, que me apreciem – apelo à emoção. É apresentado, sugerido talvez, um sentido ambíguo, de modo a deixar a possibilidade de serem encontrados outros sentidos. Será uma luz indirecta sobre a história, numa linguagem que mantém certa distância do real.

Há outros momentos em que a verdade é fundamental, quando se não trata de contar uma história sedutora nem de usar a imaginação, mas de dar conta de um facto real ou de uma descoberta. Eu queria transmitir o que obtive na minha investigação de arquivos vários em distritos do interior do País e em Lisboa.

Neste caso, a linguagem será clara, dita ou escrita numa língua que é verdadeiramente uma “instituição social” e um “sistema de valores” (que não pode ser alterado porque há um contrato colectivo a que temos que nos submeter para nos entendermos).

Esta linguagem denotativa convém aos jornalistas, aos analistas, aos cientistas, aos historiadores. Mas que tipo de linguagem se ajusta aos políticos?

Política não tem a ver com verdade nem com mentira, tem a ver com interesses. E os interesses são os da comunidade. Que não é uma unidade - é formada por grande diversidade de pessoas.

(Falarei a seguir de linguagem política)




Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
Laurinda

 

Laurinda Alves veio visitar-me ao fim do dia, na 3.ª feira passada, estivemos à conversa sobre pequenas realidades que lhe pertencem e que eu queria há muito desvendar, e sobre coisas minhas que ela quereria saber, mas só teriam sentido numa conversa pessoal.

Ela não soube nada da minha intenção, veio apenas para me dizer olá, como se fosse essencial.
E fez o sacrifício de vir de longe na cidade enorme, meio a pé, meio de carro emprestado, sempre risonha e bem-disposta, sem culpas para ninguém, achando o mundo maravilhoso, confiante nos bons valores comuns e num futuro promissor.
Cheia de trabalho voluntário, positiva, derramando o optimismo com que vive o presente: bom de ver e de acolher, bom sentir a proximidade, bom aproximar-me.
Fiquei a pensar que a solidão e o silêncio não são assim tão importantes e bem-vindos como por vezes parecem.
Até porque pode haver nas palavras, nos gestos, nos seus “pequenos grandes gestos” que serão de todos os dias mas que para mim foram especiais, nos sorrisos trocados… pode haver e houve claros restos de silêncio.
Estes restos, são o que mais aprecio.

(Laurinda Alves, Comendador da Ordem do Mérito pelo debate e defesa das questões educativas)


sinto-me: grata e feliz


O mundo acende-se...

 

 

 

 

O mundo acende-se devagarinho todas as manhãs e eu estou aqui, lá, em qualquer lugar, a assistir. Quero estar a assistir num espaço tanto quanto possível aberto, não me permito perder pitada de um acontecimento maravilhoso que acho por de mais tão imaginativo!

Quem se lembraria de montar um espectáculo destes?
De tantas em tantas horas tudo se renova. E de tantos em tantos dias, e de tantos em tantos meses, há novas inovações com parecenças e diferenças. Mesmo em cada segundo, em cada microsegundo ou num tempo que não sei medir, há evolução num qualquer sentido.
Tudo segundo um esquema que aparentemente foi estabelecido para se repetir por milhões de anos.
Que sei eu? Não sei, claro que não sei se por biliões, se por triliões…
Ou se tudo isso cabe na nossa aptidão para recolha de informação quanto mais na nossa possibilidade de entendimento.
Poderá haver outra unidade de tempo, ou não haver unidade de tempo nenhuma; pode não haver tempo ou não haver tempo contável, e apenas a nossa e minha pequenez possa supor isso.
 
 
Teremos um princípio de capacidade de entendimento e julgamos ter muita. Pensamo-nos os melhores e nem percebemos como TUDO ISTO QUE É BÁSICO aconteceu, como está a acontecer, como vai acontecer o quê.
 
 
Andámos por aí aos brados contra corrupção desenfreada, consumo vertiginoso, alterações climáticas desrespeitosas; ofendemo-nos com políticas desumanas... (na verdade, cogitamos na possibilidade de sermos ainda humanos) e deixamos por resolver aquele transcendente problema.
Em que estarão os sábios a pensar? E os outros?
 

 


sinto-me: surpreendida, curiosa, preocup


Zilda Cardoso


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