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O Congresso de Agustina (II)

por Zilda Cardoso, em 20.10.14

Miguel Real, no auditorio 2 da Fundação Gulbenkian, presidido por Ramalho Eanes, falou de A Sibila e da revolução que o romance provocou no panorama literário português.

O que mais me diverte a respeito do romance e dessa transformação profunda é o que a Agustina disse, num certo momento, há já muitos anos, depois de ouvir complexas análises e críticas à obra: “Julguei que estava a escrever a história da minha tia Amélia!”

O livro foi premiado em 1953 e em 1954 e reeditado desde então com sucesso de críticos e de leitores.

É considerado inclassificável pelos teóricos da literatura, mas também neo-realista e modernista da "terceira fase do modernismo português". Não penso que alguma destas apreciações importe. O que é genial na autora é a sua capacidade de conceber mundos e construir possibilidades lógicas e narrativas. E de reflectir sobre a sua própria construção.

 

Houve muitas sibilas nos séculos passados, já não há. Eu conheci algumas: eram mulheres inteligentes e de pouca instrução. Agiam por intuição ou assim se dizia.

Não tinham muitos estudos científicos mas adivinhavam o que iria acontecer segundo todas as probabilidades e o corrente bom senso. Os homens tinham medo delas, diziam que eram bruxas, que tinham poderes.

Na mitologia grega, sibila é uma profetisa: foi Sibila que Agustina chamou à sua tia Amélia e ao romance mais original da época em que apareceu, aquele que tornou famoso o seu nome de escritora.  

É também uma das personagens da ópera com libreto seu, estreada na Fundação em 14 de Outubro no âmbito do Congresso, uma das três mulheres com máscara de ferro que a protagonizam.

Reproduzo um pequeno trecho de A Sibila.

“É esta a mais grandiosa história dos homens, a de tudo o que estremece, sonha, espera e tenta, sob a carapaça da sua consciência, sob a pele, sob os nervos, sob os dias felizes e monótonos, os desejos concretos, a banalidade que escorre das suas vidas. Os seus crimes e as suas redenções, as suas vítimas e os seus algozes, a concordância dos seus sentidos com a sua moral. Tudo o que vivemos nos faz inimigos, estranhos, incapazes de fraternidade. Mas o que fica irrealizado, sombrio, vencido, dentro da alma mais mesquinha e apagada é o bastante para irmanar esta semente humana cujos triunfos mais maravilhosos jamais se igualam com o que, em nós mesmos, ficará para sempre renúncia, desespero e vaga vibração. O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome.”

Serão estes pensamentos intuições filosóficas...? Ou metáforas...?

 

 

E... alguma coisa terá sido dita durante estes longos dias de reflexões...?

 

 

 

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publicado às 12:24

história da minha ida ao Congresso (I)

por Zilda Cardoso, em 18.10.14

Tenho de explicar vários detalhes:

Primeiro: o congresso a que me refiro é o promovido pelo Círculo Literário Agustina Bessa-Luís e que terminou no dia 15 p.p. na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Segundo: o meu interesse que foi o de conhecer melhor a obra de Agustina, analisada quase dissecada agora por estudiosos, académicos, professores catedráticos, políticos, pensadores e críticos, escritores e ensaístas, nos aspectos ético e político.

As numerosas comunicações apresentadas, muito interessantes, dão bem ideia do valor da obra que é digna de toda a divulgação que lhe dermos, não apenas no País como e especialmente fora dele.

Aqui fomos alertados para o facto de não nos podermos conceder o luxo de não dar a conhecer a extraordinária criação de uma grande romancista criadora de mundos, escritora inteligentíssima, nascida e a viver neste pequeno país com todos os seus inúmeros mínimos problemas.

A mim, faltou-me cabeça para apreender o que gostaria de ter apreendido: dois dias de intensa e concentrada atenção, desde as 9 da manhã até possivelmente às 24 horas, no dia da Ópera, era decerto mais do que podia arcar, por muito gosto que tivesse no que estava a fazer.

Duas salas estiveram sempre ocupadas em simultâneo com palestras a respeito dos temas propostos; falaram da Obra, da Autora, da Mulher e do seu Génio, tudo com maiúsculas.

Espero que fosse apenas o apontar de problemas que precisam ser resolvidos quanto à difusão. Um deles, é o da falta de traduções para Inglês, tornado espécie de língua universal, sem o que não há divulgação com a grandeza que merece.

Seja como for, espero que os diversos textos sejam publicados para regalo de todos e estudo dos que apreciam estudar.

Às 22 horas do dia 14 houve ópera – um libreto de Agustina e música de E. Carrapatoso que é um grande feito – um acontecimento inesperado e terrivelmente curioso. Os protagonistas em palco são três das suas principais personagens femininas, as mais fortes: Quina ou a Sibila que a tornou célebre, Fanny que na nossa imaginação se liga a Camilo e às famílias inglesas do Porto no século ultra-romântico e Ema ou a Bovarinha aliada a Flaubert, a Manoel de Oliveira e ao Douro.

Agustina pode pensar e escrever do modo que quiser, usando os meios disponíveis, sobre qualquer tema – não deixa espaços em branco.

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publicado às 20:04

Agustina e Luísa Dacosta

por Zilda Cardoso, em 11.10.14

Duas amigas a viver no Porto por quem tenho um carinho muito especial, são ambas notáveis escritoras: Agustina Bessa-Luís e Luísa Dacosta.

Nas suas escritas, não há nada que as aproxime, mas neste momento recordo-as por uma razão: estão tranquilas, arrumaram o papel e o lápis depois de muitos anos de trabalho intenso e de preocupações com o mundo, de tentativas de o compreender e de descobrir novos sentidos para o que acontece. E de nos mostrarem as suas descobertas.

Tinham em comum a paixão da escrita e foram muito longe no caminho que queriam percorrer, especialmente Agustina.

Tem um grupo muito importante a trabalhar na divulgação da sua obra, é o Círculo Literário Agustina Bessa-Luís que realizará ainda este mês (14 e 15 de Outubro) um congresso em que serão apresentados trabalhos sobre ética e política na sua obra. O Círculo propõe-se promover a divulgação das obras na Europa e na América das formas possíveis.

 "Este Círculo tem por objeto específico ser um lugar de encontro de leitores e admiradores da obra de Agustina Bessa-Luís e que decidem pôr a energia associativa, através de realizações de carácter próprio - estudos, reuniões, manifestações artísticas e científicas, publicações etc. - ao serviço do conhecimento universal da sua obra."

E, a-propósito de Luísa Dacosta que ninguém que a conheça gostaria de ver esquecida porque está muito longe de merecer, publico um pequeno texto escrito em 1992 por Eduardo Prado Coelho que diz muito do que ela é.

  • “Acontecimento para mim importante nesta Expolangue: o encontro com alguém cuja força, energia, alegria da palavra, me seduziram de imediato. Falo da Luísa Dacosta, de quem pouco tinha lido, confesso, e nada com um mínimo de atenção. Ela chegou a Paris num momento difícil, por motivos de saúde, o que não ajudava nada. Contudo, mal começou a falar percebi que era uma pessoa que precisava de conhecer. E senti-me extremamente incomodado com a ideia de que durante todos estes anos passei ao lado dos seus livros. Gostaria que tivéssemos conversado, mas o local era inóspito e as circunstâncias muito pouco favoráveis. Espero que fique para a próxima, e que a próxima ocasião chegue cedo. Porque o que mais me tocou na Luísa Dacosta foi um certo uso da linguagem capaz de impor a autoridade das palavras sobre o mundo, e uma espantosa capacidade de pensar entre as palavras, e uma sabedoria que lhe permite conhecer o mar não apenas como realidade concreta e quotidiana mas como pensamento. A Luísa escreve do interior da ideia de mar sobre aqueles que habitam essa ideia como se ela tivesse a evidência de uma casa”.

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publicado às 11:43

História de um almoço anunciado

por Zilda Cardoso, em 10.10.14

Combinámos com muita antecedência, já não almoçávamos juntos na casa deles, há demasiado tempo.

E pronto, fui de táxi para não falhar na hora, sobretudo. Sabia como era importante ser pontual, respeitar o acordado, ainda há quem o preze.

Tinha eu tido uma manhã muito ocupada. E devia procurar a casa, não tarefa fácil. Iria demorar. Muitos prédios tinham sido por ali construídos desde que eu frequentava a casa com regularidade, ruas tinham sido abertas, patamares, plataformas, escadas, pedaços de jardins - o mapa do sítio estava radicalmente alterado.

Deixei o meu carro à porta de casa e fui de táxi. Quando disse a morada ao taxista, ele respondeu todo risonho: “Não sei onde é, mas se a senhora me der umas dicas… vou lá”.

Bolas, tudo o que eu não queria, porque não sabia, era dar umas dicas. Foi um lindo serviço, pensei, muito esperta... julgando ter encontrado solução fácil para o problema...

Mas lá fomos os dois, até onde o GPS indicou e depois … chapéu. “Tenho muita pena”, disse ele, “mas não posso fazer mais. Deixo-a aqui”.

E eu, com dois sacos na mão, olhei em volta, procurei os números de polícia nas portas altas que não vi e… nada, não encontrei a casa.

Acabei por lançar um SOS à distância e ela respondeu: “Estou a ver-te, não saias daí. Vou já ter contigo”.

Que bom existir uma coisa chamada telemóvel! Assunto arrumado.

Passando a outro: a casa estava um esplendor - moderna, arejada, cheia de luz e de música, de transparências e de belos objectos funcionais. Senti-me tão bem!

Conversámos com facilidade, pequenos temas agradáveis. A mesa magnífica de toalha branca, adamascada e antiga, com renda de duas agulhas muito fina e os pratos, os talheres de prata, os copos… tudo aprimorado e bem escolhido. Uma única e invulgar rosa perfumada, de uma cor-bela-que-não-sei dizer achava-se sobre a mesa.

Era perfeita.

A comida deu um quefazer especial, calculo. Os anfitriões foram a Angeiras propositadamente comprar um peixe acabado de pescar, coitado, que serviram envolvido em papel prateado e sob sal. E batatas amarelinhas cosidas inteiras, parcialmente mergulhadas em azeite dourado, saladas diversas de incertas cores, bem apresentadas, uma frescura de vinho que dizem ser branco mas também é dourado, mais pálido, decerto com menos teor de certo metal para condizer com o resto das preciosidades.

O interessante é que eu não estava fascinada mas comovida: era para mim, calculo que era para mim tudo aquilo!

Era como se fosse. Como uma homenagem!

Rendo-me, muito obrigada!

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publicado às 22:29

O Congresso Ética e Política na obra de Agustina Bessa-Luís

por Zilda Cardoso, em 06.10.14

O Congresso Internacional sobre Ética e Política na obra de Agustina Bessa-Luís, organizado pelo Círculo Literário A.B.-L. realizar-se-á em 14 e 15 de Outubro na Fundação Gulbenkian, em Lisboa.

 

Eis um pequeno trecho de 1960 da obra Embaixada a Calígula, de Agustina, exemplar livro de viagens que não me canso de admirar.

 

“Muita gente muda de lugar, passa de um a outro continente, retém na memória factos sobrevindos em diversas latitudes. Mas a viagem, com o seu mistério e a sua intimação à consciência, com as suas alegrias que nascem inexplicavelmente dum golpe de vento na poeira sobre uma ponte, duma sensação de vida isolada e profunda quando atravessamos uma terra estrangeira – ah, essa viagem poucos a podem experimentar!”

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publicado às 15:36

Algumas reflexões

por Zilda Cardoso, em 05.10.14

 

 

Fiquei a fechar os olhos e a repetir docemente as últimas palavras que tinham surgido no meu pensamento.

Mas as últimas palavras, quase sonhadas, foram perdendo sentido, foram perdendo… até já não terem sentido nenhum, desfasadas das mais, sem ligação ao que estava pensado antes.

Fiquei a dormitar, a deixar cair o livro, sentia-o ainda nos dedos… nas pontas…

Quando despertei, dessas recentes palavras, obscuras, de antes de adormecer, não me lembrei de nenhuma, fiquei a matutar na fragilidade de estrutura da memória.

Não vale a pena esforçar-me mais por memorar e desconsolar-me, aquelas palavras são com certeza insignificantes em si, puramente banais e é mais valioso esquecê-las por inteiro, sem remorsos, para que não vão ocupar inutilmente espaço na razão.

Fosse como fosse, nunca mais seriam as mesmas depois da perturbadora viagem por mundos razoavelmente desconhecidos, mesmo que continuassem a existir. E se fossem portadoras dalguma verdade, apenas poderia ser outra verdade, não a primeira.

De resto, há momentos, há muitos momentos em que as palavras e os seus conteúdos viajando nas nuvens, serenamente, de súbito, explodem, algo as faz aí rebentar, e dispersam-se. E não há nada a fazer.

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Muita gente sente da mesma maneira, quero dizer, tem os mesmos sentimentos em relação às mesmas coisas, mas pouca sabe falar disso de forma que interesse aos outros, quero dizer, com um mínimo de distância.

Ele sabe, é tão inteligente! Acima de tudo, sabe pensar o que sente, sabe explicar o que pensa. E di-lo. Ou escreve-o. E ficamos a saber, se formos quase tão inteligentes como ele. 

 

 

 

 

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publicado às 15:02

"Registo do gorjeio"

por Zilda Cardoso, em 03.10.14

As horas não passavam, estava terrivelmente maçada. Decidi que há muito não visitava os pássaros do estuário, quase me esqueci deles.

Levei pão seco e dei-o aos patos da minha preferência, sempre aguerridos e ávidos ou esfomeados, antes que as gaivotas invadissem o terreno e não deixassem ninguém mais aproximar-se.

Pelo caminho, pensei: sempre o mesmo, o mesmo caminho. O mar á direita com reflexos prateados do sol de sempre. O rio com cores brilhantes. As árvores, meu Deus, as árvores, os passeios, as casas, as ruas, os nomes… tudo igual e impossível. O céu é mais uma vez azul e não tem nuvens nem desenhos de algum padrão.

O que esperava eu que me desse contentamento? Que me libertasse? Esta redundância?  

Os carros passam nos mesmos sentidos de ontem e de anteontem, as pessoas para lá e para cá usam os mesmos gestos mais ou menos fluidos, as gaivotas soltam os gritos estrídulos de todos os dias…

Não me é possível continuar a apreciar o lugar, a menos que uma bomba arrase tudo, esvazie tudo, e a vida possa começar a partir do deserto. Comece inteiramente nova.

Reparo, olhando com intensidade e concentração, que as árvores e as suas folhas parecem esmaecidas, mas os reflexos na água têm já algumas das sombrias cores garridas do Outono. Os sons amadurecem e os odores são mais murchos. Como pude não reparar?

Já não é Setembro, ainda não é Outono.

Do meu lugar ao sol, retirado, fico-me a contemplar os folguedos dos pássaros mergulhadores e dou-me conta da alegria com que mergulham e correm e saltam e fogem firmes.

O mar não tem uma onde hoje, agora, apenas fulgurações e promessas. O ar incrivelmente quente sem humor algum, é abafado e estranho.

Aproximo-me da imensidão do mar, ao meu lado e, no meu desejo de ternura, penso no que há nele de transcendente, se há.

De súbito, compreendo.

Um desses pássaros compactos e enormes passou por mim e tocou-me ligeiramente. Oh, muito ligeiramente! Já me sinto bem, acarinhada, mais curiosa ainda e animada.

Estou rodeada de vida crepitante, onde estiver, participo nela quer queira quer não, (e quero), como num jogo que me desperta e me possibilita sentir-me menos só.

Como doutras vezes, concluo que todo este mundo me diz respeito, não necessito ter medo… apenas o olhar disponível.

Agora vejo e sei que vejo, o que for. Apenas preciso de encontrar as cores das palavras apropriadas ou as palavras das cores adequadas, as que correspondam ao meu sentir, ao meu ver e ao tempo que passa, para poder falar disto.

"Registo do gorjeio", palavras de Barthes citadas por E.P.C.

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publicado às 07:40

Questão de sobrevivência: a política

por Zilda Cardoso, em 30.09.14

 

 

 “A política é um tecido de mentiras e de imposturas ao serviço de interesses sórdidos e de uma ideologia ainda mais sórdida”.

É assim que consideramos a política nesta altura da nossa vida de humanos a viver em sociedade na Terra?

E, naturalmente, detestamos o tema porque péssimo numa tertúlia, como assunto geral e permanente de maus noticiários, de discussões polémicas e de discursos contraditórios de um enorme grupo de pessoas que assaltam os meios de comunicação social e, desse modo, nos assediam em permanência com as suas opiniões em geral sem fundamento.

Porém, a política é também e principalmente outra coisa. É questão de sobrevivência.

Ocorre uma pergunta: Por que razão ou de que modo… um caso de sobrevivência se pode transformar num emaranhado de mentiras, etc… como afirma Hannah Arendt?

Que eu saiba, nenhum ser vivo vive em sociedade  não organizada. Por definição. Pois viver em sociedadesocietas, em latim - significa viver em associação amistosa com outros. E sociedade é um conjunto de seres que convivem de forma organizada.

No que respeita aos humanos, eles organizaram-se, nós organizámo-nos estabelecendo regras de conduta que nos deveriam permitir viver uns com os outros de modo a não nos destruirmos ao virar de cada esquina, mesmo querendo. Porque há a regra ou a lei resolvida, convencionada, estabelecida a que se deve obedecer e também a penalização para o não acatamento.

Percebemos a necessidade de estar de acordo, de partilhar interesses e preocupações. Na verdade, estamos tão ocupados com as nossas invenções proveitosas e possivelmente geniais que não nos sobra muito para, a todo o momento, engendrar guerras devastadoras. Mas ainda sobra o suficiente, bastante para nos torturarmos e aniquilarmos no que parece ser uma guerra de todos contra todos, sem fim. No tempo de Hobbes como no nosso, em qualquer tempo, essa hostilidade é visível, é palpável.

Compreendemos a necessidade de estar de acordo, mas não só não é o que acontece, o que continua a acontecer (essa partilha que não se faz de boamente), como não vemos possibilidade de vir a suceder de modo conveniente num qualquer futuro.

Muitos de nós se têm esforçado, ao longo de milhares de anos de estudo e de reflexão, de experiência e de crítica, por remediar esse mal, pensando e criando regras e sistemas de organização cada vez mais perfeitos.

Talvez seja da nossa natureza e, se é assim, não há muito que possamos fazer.

O que podemos ainda fazer?

O conjunto de regras que inventámos para vivermos de forma mais conveniente e mais consentânea com os nossos interesses é o que chamamos política. Não é possível viver, mais, sobreviver sem esse bem de valor fundamental.

Sabemos já que, apesar dos esforços, os conflitos persistem, não abrandam e eu só posso pensar…talvez não estejamos a fazer o suficiente, o conveniente, o adequado… ou talvez… simplesmente não sejamos deuses capazes de criar na perfeição.

Depois de tantos anos a raciocinar em política, continuamos a não saber actuar politicamente nem nos compreendemos politicamente, diz Arendt.

Acredito com Hannah Arendt que esta é a causa básica do nosso permanente desentendimento: nascemos e crescemos relativamente iguais relativamente diferentes, mas a nossa política é pensada para absolutamente iguais.

Em todas as sociedade que conhecemos (e estou a pensar nos cidadãos de um país que escolheram governantes para zelarem pelo bem-estar do grupo que se sujeita à sua autoridade política e todos às mesmas leis), há uma pluralidade de indivíduos cujas relações complexas são regulamentadas pela política.

Não podemos dispensar essa regulamentação. E esse é o objecto da política.

As dificuldades não nos vão fazer abandonar o tema, é evidente. Não vamos permitir que o país, o mundo, se transforme numa selva ou em coisa-má-que-não-podemos-imaginar: vamos redefinir estratégias, o que nos cabe para todo o sempre é tentar melhorar.

Enfim, o que é próprio da política é uma tarefa impossível em termos absolutos: será criar um mundo perfeito e transparente como o cristal.

Cabe a cada um uma parte nessa criação.


 

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publicado às 12:45

Embaixada a Calígula, de Agustina Bessa-Luís

por Zilda Cardoso, em 24.09.14

“Queria, em vez de viajar pelas capitais embandeiradas, viver num tempo limpo e sem exasperação, em que eu pudesse ler os versos de Neruda sem me ocultar daqueles que têm o coração alvo demais; ou que pudesse entrar numa igreja sem que me chamem reacionária.

Porque é que uma rã, de ventre redondo e húmido canta livremente nos arrozais e não lhe dizem:”Qual é o teu partido, o teu credo, o teu clã?” Eu não quero ser outra coisa senão esse pequeno verde, sem gramática demasiado oficial, sem copiosos sentimentos além das estações, o medo das águias imorredoiras ou das cobras meio adormecidas.

Estou em Portugal, as mesetas sombrias e onde cheira a fumo parecem mover-se com o vento duro e triste. Vão-me fazer perguntas, meu Deus, vão-me fazer perguntas”!

Com o silêncio de pedra, os olhos baixos, vão-me fazer perguntas. Direi que encontrei amigos e coisas belas, que os países são invejáveis com o seu pão delicado, as suas gentes frias, os portos onde vemos sempre um homem esfarrapado voltando as costas ao mar. Se eu trouxesse um frasquinho azul rescendente ainda do velho veneno florentino, então como me receberiam com orgulho! Talvez me convidassem para..."

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publicado às 19:24

OBRA ABERTA: não serve qualquer interpretação

por Zilda Cardoso, em 21.09.14

 

 

Depois do grande pequeno-almoço, pelas 9 da manhã, fui conhecer a aldeia que me tinha parecido interessante, numa primeira visita rápida, antes que o sol se excedesse em brilho e me confundisse.

Todavia aqui é sempre brilhante de sobra e, verdadeiramente, ignoro qual a hora mais propícia a um passeio tranquilo.

Arrisquei com a luz tão forte apesar das pequenas nuvens a suavizar, e a proeza provocou-me aquela malfadada enxaqueca.

De modo que regressei rapidamente, já com o comprimido na mão e hemicrania (bonito nome!) sobre os olhos, mais para o esquerdo. Engoli-o com água fresca mal cheguei ao escuro do quarto, e deitei-me.

Daí a pouco, estava melhor.

Já sentada na cadeira… ela voltou, a tal. Estou mesmo confusa: tomo outro comprimido, não devo? Fecho os olhos e espero por melhores horas, se bem que nem a paciência nem a esperança sejam o meu forte.

Devo esforçar-me e recordar os ensinamentos budistas que dizem ser a paciência fundamental - para um bom relacionamento, para se ser feliz… E que nos devemos esforçar, porque  "without your own effort, it is impossible for blessings to come”.

Vou tentar ler um texto mais ligeiro do que os meus preferidos e que me acompanham para todo o lado como As confissões de um jovem escritor. É de Umberto Eco escrito quando tinha mais de 70 anos e não havia muitos que se tinha estreado como escritor.

Conhecia-o bem como linguista, semiólogo, filósofo da linguagem com uma enorme reputação a defender já que os seus livros científicos eram estudados com todas as minúcias nas universidades, nos cursos de linguística e de teoria da literatura.

Os livros foram um enorme sucesso de vendas e o filme (ou os filmes) realizado a partir dos livros grandíssimo sucesso de bilheteira. O filósofo ganhou uma fama extraordinária como escritor.

O que é interessante neste livro é que ele explica o seu processo de escrita, definindo o que distingue para si a escrita criativa da científica. Diz que a criativa é aquela em que o autor procura “representar a vida com toda a sua incoerência” e a científica aquela que “procura resolver um problema específico”.

No entanto, a escrita criativa de U.E. baseia-se em estudo e pesquisa, o autor como um deus cria um mundo que “tem que ser exacto para nos podermos movimentar nele com segurança”.

Por outro lado, "preciso de desorientar o meu leitor ao mesmo tempo que mantenho as minhas ideias muito claras”, diz U. Eco a propósito de livros em que há um enigma a resolver como num policial que é o que prefere redigir.

Demora anos a compor os romances e baseia-se nas suas notas, em ideias recolhidas, em imagens, nas  palavras que escolheu. Prefere os temas que já estudou possivelmente com diferente intenção, sobre os quais acumulou “recordações, nostalgias e curiosidades”. Serve-se de banda desenhada, de gravações, de revistas, de jornais.

O processo não se inicia sempre do mesmo modo: pode ter tido uma ideia seminal, como lhe chama, ou uma imagem seminal e pode acontecer uma epifania, na sequência dela. Considera que a inspiração entra muito pouco no seu trabalho. Recolhe documentos, visita locais, descreve os lugares que visita, desenha mapas, observa a configuração de edifícios e talvez de um navio e até pode sentir a necessidade de desenhar o rosto dos personagens e desenha-o.

Então concentra-se na preparação da narrativa, pensa no estilo adequado ao tema, nas palavras certas, e nas restrições que o tema lhe impõe quanto à época em que a história se passa, ao local, às particularidades da língua e aos públicos a quem se dirige e cuja boa vontade e inteligência respeita.

E dá uma forma ao texto que sugere uma interpretação ou que a provoca e que não será única (não tem que dar explicações sobre o texto): ele é “um dispositivo criado para provocar interpretações”.

Evidentemente, fiquei encantada com todas estas elucidações e concluo com alguma surpresa que Umberto Eco trata com todo o rigor científico os seus temas criativos. Do que resultam romances extraordinariamente interessantes que, se a acção não tem a ver com a realidade, podia muito bem ter.

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publicado às 10:43