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"Elogio do Inacabado" (2)

por Zilda Cardoso, em 18.01.15

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Pensei que, para dar sabor à minha vida e a legitimar, preciso de inventar e realizar uma coisa, digamos, não-paroquial, todos os dias, cada dia. Uma coisa diferente, inteiramente nova.

Que seja um desafio.

Tentei em várias ocasiões: será melhor de manhã, amanhã. E amanhã começo por cumprir um ritual de coisas tolas - tomo chá de hortelã, meio copo de água de Evian, uma mini chávena de café filtrado (a menos estúpida dessas coisas que realizo logo de manhã), como cereais de milho, uma banana… Talvez uma torrada de pão de girassol!? Ou deixo passar sem pão… Difícil sempre decidir estas formulações delicadas!

E vou-me esquecendo do principal. O principal a que me refiro não tem nada a ver com desentendimentos, dispersões e desabafos… É o principal de que fala Agustina no seu texto Três Mulheres com Máscara de Ferro (1).

Quando chega o meio da tarde, estou tão estafada de empreendimentos entediantes e palavrosos que não sou capaz de criar coisa nenhuma fresca, fulgurante de interesse e colorida como será para mim o não-paroquial. Sinto-me exausta e não me permito ter uma atitude lúdica e solta, como queria.

À noite, registarei o que quero inventar na manhã seguinte, é melhor. Para isso, devo preparar-me de véspera, claro, e começar a produzir ainda no jejum.

Será uma experiência radical, imagino, que me dará o prazer intraduzível de ir estando por aqui.

Pode resultar. Encontrarei uma perfeição, um acabado (alguma coisa se acaba antes de tudo acabar?) que fará com que eles se rendam à minha insuportável lucidez.

Só depois observarei o sol desde o seu aparecimento (à hora a que já vai alto no céu). Todavia, ele pode primar pela ausência e isso é o pior.

Abro a janela, juro que abro a janela de par em par, todos os dias. Se ele não vem, estou tramada. O que farei ao prazer de pensar e à minha justificação de existência?

Confio na fidelidade do sol ao caminho traçado, conquanto, por vezes, ele me troque as voltas e permita que umas nuvens cinzentas o tapem e modifiquem a emoção do momento e a cor, neste ambiente: das casas, das árvores, do céu, do mar.

Evitava referir-me ao mar, mas já aí estou. Inclino-me para ele sempre. Se houver mar na minha paisagem, o mar fará a diferença. Quero dizer, ele será desigual cada dia e há portanto para mim uma possibilidade de descoberta interessante.

Acredito que ao fim de um tempo se repita, mas, para mim, ainda não esgotou o seu pacote de diferenças, de expressões diferentes que vai mostrando.

Quando acabar esta sequência, começará a renovar-se?

Posso inventar sem muita originalidade que hoje é um dia de mar-de-ínfimas-diferenças em relação ao de ontem. Ou direi, só para ser exemplo, já que é isso que urge, o de amanhã será similar ao de hoje, alias, sem tirar nem pôr. Papel químico.

Estaria a mentir, provavelmente: posso ficar o dia todo a imaginar inexistentes igualdades entre amanhã e hoje.

Mentir, falsear e iludir é extremamente contemporâneo. Dizer inverdades será mentir? É uma cogitação, apenas, que vou colocar na moleskine como lembrete para reflectir a partir das sete horas da manhã de amanhã.

Posso antecipar um pouco: direi que o mar é inquietante, por exemplo. Ninguém duvidará. Ou tentarei descobrir como veio aqui parar em frente da minha janela, neste lugar de miragem, por que meios… Seria uma análise muito complexa e, perguntar-lhe a ele, está fora de questão.

Podia ser um estudo feliz, valioso e sedutor. Porém, não é essencial que seja ou não atraente a esse ponto. Quero é descobrir o apaixonante, perfeito, emocionante e totalmente falhado episódio expressivo do meu contentamento.

Escolho apaixonante como sinónimo de inquietante. Inquietante é uma pessoa como Agustina que disse tudo, somos arrasados pelas suas palavras, porque não há nada a acrescentar.

Está acabado. Portanto, nada acrescento.

1) É preciso ler o texto que serviu de livreto da  ópera com aquele título representada na Gulbenkian na ocasião do Congresso de Outubro. Interessante é o texto de Mónica Baldaque que aparece nesse livro em resposta à pergunta “o que é o principal?” e que será uma resposta de Agustina à mesma pergunta.”Aprendi no livro do Bambi a sabedoria da velha perdiz: o principal é resistir a levantar voo quando se ouvem os tiros.”

(2) Título da mais recente publicação de Agustina Bessa-Luís. 

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publicado às 13:36

Um lugar de culto

por Zilda Cardoso, em 13.01.15

 

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Fico a contemplá-lo como se nunca o tivesse visto antes, com surpresa, com gosto, com fascínio. Com amor.

Neste momento, o sol põe-lhe um brilho deslumbrante por uma grande extensão em diagonal até à linha do horizonte longínquo. Entretanto, entre a praia e a linha, muitos acontecimentos – os que posso ver e os que adivinho, o que está à luz do dia e o que se passa submerso.

Agua que raramente é transparente, mas vermelha, amarela, azul… cores que vão desaparecendo à medida que observamos camadas mais profundas, o que daqui não posso ver. Por isso, para mim, é sempre azul, verde ou cinzenta.

Perto do litoral, há plataformas continentais com até uma profundidade de 200 metros e há peixes minúsculos e outros de variado tamanho, forma e cor. Recordo-me de os ver, enormes, nadando para o rio e saltando alto fora de água como golfinhos, para meu regalo.  

Acho que não há falésias, por aqui, mas, mais para além, haverá montanhas submersas, planícies e declives, fossas profundas que resultaram de fracturas tectónicas; e a crosta oceânica formada a partir do magma solidificado.

Diz-se que a vida surgiu primeiramente no Oceano e o sal… donde veio o sal? Bom… não acreditei na explicação científica, por isso, não desenvolvo aqui.

Estão a ver que fui informar-me junto da Internet, mas o que quero comunicar não é nada disto. Quero falar do que se passa à superfície deste mar. E acima.

Para mim, é extremamente curioso. Muito raramente há silêncio, o ruído do movimento pode ser macio, por vezes, é desvairado, quando o mar se atira contra as rochas que sempre estiveram lá, mas como se nunca as tivesse visto, aparecessem de sobressalto e ele tivesse que as expulsar. E a espuma ferve, nestas ocasiões.

Por vezes, as mesmas rochas escuras metamórficas são lhe indiferentes, passa quase sem lhes tocar. Outras ainda, é cordial e acolhedor e a espuma não é senão uma linha branca e ligeiramente ondulada, bordando as rochas.

Escolhi para viver este lugar que continua a agradar-me ao fim de muitos anos. Para mim, sempre as diferenças na paisagem são suficientes para me manter interessada. E curiosa, se bem que haja quem a ache monótona.

Pergunto-me o que vai acontecer a seguir, quando todas as gaivotas se forem ou quando o sol não acordar; quando não soprar nenhum vento, se não houver nuvens a riscarem a abóboda nem barcos na água. Quando as ondas, as marés, as correntes, os vórtices não animarem este fluido ou quando ou se ele se tornar gelo parado ou vapor a expandir-se.

Não estarei cá para ver. E não quero ver.

Acredito que, como insinua Sophia, a atenção que presto ao mundo seja o único culto que Deus me pede.

(Vou continuar a falar dele)

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publicado às 17:11

João: grande companheiro

por Zilda Cardoso, em 11.01.15

 

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Foi para mim um dia com ressonância luminosa.

Não foi preciso muitas horas para nos convencermos de que nos estimávamos profundamente e que isso ia durar enquanto existíssemos os dois.

Encontrei-o diferente, um pouco triste, atitude menos solta, sofrendo possivelmente o Natal, a época festiva, de modo que, como todos, ficou mais ou menos doente. E enjoado de açúcar e caldas, canelas e sumos de limão, ovos-moles e papos de anjo, castanhas de não sei quê, rabanadas e mexidos sem fim.

Tudo ao mesmo tempo, misturado com reprimendas e proibições, prendas de todo o tamanho e rejeições mais ou menos acentuadas. Demasiada emoção.

De modo que ainda hoje estava pálido e olheirento, mesmo frágil. “Faltei à escola e vomitei”, disse-me.

Já passou, quase passou, tantos dias passados.

No próximo ano, haverá mais, afinal o doce também pode amargar.

Porém, hoje almoçou comigo simplesmente. Fomos a Serralves, mas não quis andar muito nem ir dar pão aos patos nem correr nem jogar. Regressámos tranquilamente e logo que chegou, com um papel branco, o lápis novo às cores e borracha vermelha, desenhou e compôs o que reproduzo.

Afinal, valeu a pena. Foi um dia muito feliz.

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publicado às 19:16

Charlie

por Zilda Cardoso, em 11.01.15

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Quero criar um ambiente sugestivo para a minha e para a vossa fantasia, não descrever o que vejo.

Neste momento, corro atrás de uma palavra que me foge no meio de muitas que podia escolher, se quisesse. Mas  é aquela que prefiro, sem sombra de dúvida.

Vejo que está la, não sei procurá-la. E ela vai-se desvanecendo.

É constituída por letras perfeitas das que já ninguém sabe fazer. Mas por que razão se afunda? Vinha a propósito de Charlie Hebdo e eu não concordo com nenhum destes movimentos de que temos notícia nem com os jornalistas. Os outros são loucos, sabemos.

A palavra que não posso definir é qualquer coisa noutra língua que me prometi ir procurar no dicionário, baseada numa pequena intuição. Porém, o dicionário não contempla intuições, só palavras bem desenhadas e concretas que queremos ajustar à nossa vontade e urgência.

Devo ser sagaz: tem a ver com liberdade de expressão, é o que sei.

Aproximei-me? Não me parece.

Não me posso desolar: está sol e é Inverno. O sol é fresco e agradável, o silêncio não é copioso, pessoas passeiam e passam serenamente ou em passo cadenciado como se perseguissem uma ilusão, um sonho, um nada.

O meu olhar é disponível e acolhedor, ninguém presta atenção, tal como era meu desejo maior, são poucas e vão rodeadas de palavras, muito rodeadas. Deixam um rasto curioso, luminescente, vago.

Insectos não trabalham neste jardim, o roseiral é apenas arbustos quase sem cor e sem rosas.

Tudo tão leve, tão brandamente perfumado! Não me importo de viver aqui o resto da vida.

A água do tanque é apenas um fiozinho com brilho, onde um raio de luz se meteu sem ruido e alguns pássaros bebem.

Um vento meio adormecido vem, não conheço nada tão acariciador e carinhoso.

Como vim aqui parar? Só o banco onde me sento, o único ao sol sendo de madeira, foi nitidamente morada conspurcada de pássaros.

É neste lugar que pretendo viver, mas eles não me querem.

Poderei alongar o meu dia aqui, apesar disso? Não me parece, há outros obstáculos: as cores principiam a alterar-se, o azul ganha manchas esbatidas, as sombras que não aprecio alongam-se caídas no chão, o ar arrefece.

Promete ser noite em poucos minutos (não me lembro de alguma vez ser noite a esta hora, que estranho, nem mesmo em Dezembro!).

Mas que bem que estou aqui.

Levanto-me e caminho e vou.

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publicado às 10:28

Três Mulheres com Máscara de Ferro - o que é o principal?

por Zilda Cardoso, em 09.01.15

 

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Admirável este texto dramático de Agustina apresentado em Lisboa na Gulbenkian por ocasião do Congresso, em Outubro.

Foi mostrado como libreto de uma ópera muito moderna com música de Eurico Carrapatoso e arranjo cénico de João Lourenço. Os figurinos muito sofisticados, a dramaturgia, a coreografia, a concepção das máscaras e doutras formas que aparecem em palco são muito originais e curiosos.

Encontram-se no palco as três mulheres que se não conhecem.

Não, não é isso. Trata-se de três personagens importantes na obra de Agustina que apenas ligeiramente se voltam umas para as outras. São ícones, são máscaras por momentos chamadas à existência.

Presenças que expõem com independência os seus problemas, contam a sua história em linguagem apropriada a cada uma, mostram a sua visão do mundo e as suas experiências de vida. E vestem-se de acordo com tudo isso. (Fascinam-me os figurinos!)

Todos os seus gestos significam outra coisa para além do que indicam (e isso temos que descobrir), as suas histórias são diferentes, aparentemente muito diferentes, mas no fundo, iguais no que interessa, no principal.

O que é o principal? É uma pergunta muito repetida no texto, parece importante. Parece essencial.

Mesmo conhecendo as personagens dos romances de Agustina, e depois de as ver e ouvir em palco… não sei o que é o principal, o fundamental das diferentes histórias que são contadas.

O que é o principal na história de cada um de nós, pergunto eu a cada um de vós.

O amor? O sofrimento? O silêncio?

Talvez deva ficar para depois, a resposta. Mas a leitura do texto que é muito pequeno deve ser feita com cuidado para sabermos

responder.

Dá imenso gosto..

 

 

 

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publicado às 13:24

Concerto de Ano Novo

por Zilda Cardoso, em 04.01.15

As valsas de Viena são para mim o exemplo do que pode ser popular e de grande nível artístico. São imensamente agradáveis, divertidas e tecnicamente perfeitas, julgo.

O concerto de Ano Novo na Casa da Música do Porto tornou-se tradicional: seguiu a tradição dos concertos de gala do século XIX , segundo se diz no programa da Casa do dia 2 de Janeiro de 2015.

Foi tocado o Convite à Dança de C.M. von Weber, a Quadrilha dos Artistas, de Johann Strauss II, uma suite de valsas de J. Brahms, Contos dos Bosques de Viena, de Johann Strauss II, a abertura da Cavalaria Ligeira, de von Suppé, a polca Trovão e Relâmpago, de Johann Strauss II, uma polca de Josef Strauss, À Prova de Fogo e de Richard Strauss, o Cavaleiro da Rosa.

Tudo sem intervalo e ainda com uns retalhos finais a imitar o concerto de Viena habitualmente transmitido pela televisão com Otto Tausk, o maestro holandês,  a controlar as palmas da plateia, divertidíssimo.

Para mim, foi valsa a mais sem dança. A dança fez muita falta, tal como os salões sumptuosos e os lindíssimos vestidos das bailarinas. Amarrados à cadeira, nós, espectadores, não nos sentimos muito românticos. Embora me digam que se trata de “concerto para fruição pura da música”, o que ouvimos na maior parte do tempo foi luxuosa música para dançar.

Gosto de ver e ouvir os “emblemáticos Concertos de Ano Novo da Filarmónica de Viena, iniciados em 1939”,e sempre transmitidos pela RTP, mas precisamos de os copiar ao vivo?

O ambiente apropriado para esses concertos é na Áustria, na Alemanha, na Boémia, nos deslumbrantes salões dos seus palácios dourados. Talvez ainda ouça um dia e veja um concerto de Ano Novo nos salões da Bolsa, do Porto, com baile e fatos a rigor e dança e sorrisos. Ou então na Casa da Música com música popular portuguesa sofisticada, cheia de vida e energia contagiante e feliz.

As belíssimas valsas de Strauss (de qualquer deles) não permaneceram muito tempo em redor de mim nem em redor de ti como auréola. Mas sim o eco do carinho de que fui objecto: de quem me desafiou e me levou lá.

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publicado às 17:31

O terceiro dia

por Zilda Cardoso, em 03.01.15

E já vamos no terceiro dia.

Continuo a procurar diferenças.

Poderá vir a haver uma para mim, importante. Será para melhor com ressonâncias.

Alguma coisa que procurava há anos, poderá realizar-se neste 2015? Há uma possibilidade e isso promete pôr-me sonambulamente afortunada.

Como poucas coisas poderão… É tudo tão avesso ainda, tão absurdo, obscuro e metediço! Tão incompreensível! Quase tudo.

E eu magoada, ressentida, não vejo actualmente razões de conciliação com o mundo.

Assim, os meus quereres são ainda desajeitados, são fluídos… Tanto que apenas encontro felicidade nas palavras (em palavras que são felizes).

Para quem direi as minhas palavras? Irão elas fazer alguém feliz? Fazer-me afortunada?

Espero sempre a magia irradiante que virá com o momento, como uma vertigem. Mas aqui há um enigma que não decifro: deixo-me seduzir pelo inimigo, pelo demasiado comum.

O que quero é que estes dias sejam não de todo nostálgicos, isso não faz sentido, que sejam além de irrecuperáveis, estáveis, em que possa ver a vida a ver-se e eu suspensa sem coisa alguma a contrapor.

Será um jogo infinito… até que acabe. Porém, o acabar não me diz respeito tal como não me disse nem me diz respeito o começar.

Serei discreta, prometo.

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publicado às 11:52

"animalescos"

por Zilda Cardoso, em 28.12.14

Sou grande admiradora da escrita contemporânea de Maria Gabriela Llansol, de Clarice Lispector e de Gonçalo M. Tavares, certamente, qualquer deles merecedor de prémio Nobel.

Andei a ler sem desmedido entusiasmo alguns livros de G.M.T. até que encontrei a sua Viagem à India. Aí, rendi-me totalmente: ele é um génio. E durante muito tempo essa obra me desafiou a pensar e a imaginar e isto é o melhor que sei dizer de qualquer texto.

G.M.T. apesar da sua juventude tem uma vasta obra publicada e… poderei dizer que aparentemente os seus textos são cada vez mais loucos? Ou mais estranhos e originais? Ou mostram cada vez melhor, como se escreve no The New Yorker, “os modos como a lógica pode servir eficazmente tanto a loucura como a razão.”

Lembro-me de ouvir “ele escreve bem… com clareza” a propósito de um outro autor. E apeteceu-me dizer que há muito diversos tipos de escrita mas fundamentalmente podem considerar-se e dividir-se os textos em informativos, os que usam linguagem denotativa, e se destinam a informar como os ensaios e os comuns artigos de jornal. Estes só podem e devem ser claros para que se entendam e de facto informem.

E há os textos literários, linguagem conotativa, que têm a mesma função de qualquer obra de arte. Utilizam a imaginação e a fantasia, e a erudição ou simples conhecimentos e experiências de vida. No caso de G.M.T… acho tocante a forma como acontecimentos insólitos e aparentemente cândidos, acriançados são relatados como se fossem reais e verdadeiros, sem qualquer sombra de dúvida. E deixam-nos a pensar... que é uma coisa trabalhosa mas que parece valer a pena.

Vou transcrever um capítulo do livro animalescos, editado em 2013 pela Relógio d’Agua.

“aproveitemos os animais sim, a forma ingénua como são seduzidos, aproveitemos a excitação animalesca para trabalhar o mundo, consertar o que está mal, os ferros, os pregos, a falta de buracos no chão, a falta de buracos no vasto mundo que nos impede de espreitar através do escuro por exemplo e ver o outro lado onde as coisas realmente importantes festejam e se embebedam, estamos no mundo para crescer como as plantas, qualquer uma cresce, e para sermos animais como qualquer animal, não estamos aqui para ser homens senão quando discutimos, quando o pé do outro nos pisa e essa pisadela vem com um discurso – a forma como este animal inteligente argumenta tudo, esqueceu o combate directo; dispara sobre o outro, maltrata o outro como o outro te maltratou, tudo está equilibrado ou à procura ou à espera; há os preguiçosos e há os de boa vontade, boa coragem e músculos que assumem que a força não é uma coisa que vem, mas uma coisa que se faz; como artesanato”.

 

 

 

 

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publicado às 12:01

Gosto de pessoas inquietantes: o riso de Agustina

por Zilda Cardoso, em 18.12.14

“Segui pela rua do Campo Alegre, passei perto do Gólgota, lembrei-me da frescura de linguagem do último livro de Agustina Bessa-Luís com ilustrações de Mónica Baldaque. É o Colar de Flores Bravias, tem um aspecto invulgar, uma dimensão que favorece as imagens e uma linguagem de adolescente muito crescida e sábia.

Linguagem de adolescente… Agustina?

“Nasci adulta…” É um escrito da juventude (o que parece tão original nela que julgávamos não ter tido juventude) e conta

“recordações daquelas férias que eram como um colar de flores bravias, recordações que murchavam como as flores do colar”. Mas delas ainda ficava o “perfume seco das coisas sem fim a que a gente chama saudade”.

Vale a pena ler e ver este colar de flores bravias que se converte em tocantes cores bravias nas páginas centrais do livro.

Adoro recordações de infância, férias no campo e flores e cores silvestres. E respeito e reverencio os pensamentos de Agustina. Está ali, naquele livro, o começo de quase tudo o que tem sido a sua vida e o seu pensamento de escritora”. (Pode ler mais, se quiser, no blogue O fio de Ariadne de 21/5/14).

Continuo a apreciar enormemente O Colar das Flores Silvestres, gosto de pensar que é esta a verdadeira Agustina, a Mulher. A que eu conheço há muitos anos e admiro. Aquela com quem estive em muito diversas ocasiões, com quem tive oportunidade de conversar sobre delicados e extremamente simples assuntos.

Sinto-me privilegiada por ter acontecido quando rodeada de muitas pessoas em ocasiões especiais, mas principalmente a sós, na minha casa ou na dela.

E os temas das nossas conversas eram os mais variados. Podíamos falar de características da sua escrita, ser ou não retórica, por exemplo, ou do médico que em Paris ela consultava e que me recomendou e eu consultei por minha vez por questões de ossos. Era a mesma personagem que via a Maria Helena Vieira da Silva e que me receitou exactamente o que me tinha prescrito o meu médico do Porto. Não encontrei nada de genial nem de novo nos médicos parisienses, fiquei bem com isso.

Podíamos falar da família e dos projectos inacabados ou mesmo dos ruinosos. E dos problemas pessoais de muita gente que os jornalistas adorariam conhecer, pormenores de muitos casos que estimariam divulgar como grandes furos, de importância para a carreira deles.

Falávamos de política, de monarquia, de religião. Do futuro e do presente.

E lembro-me de lhe ouvir que o que mais temia era vir a perder a memória… e das consequências previsíveis disso.

Sinto dor ao recordar estes detalhes, estas reminiscências porque… provavelmente foi o que na realidade aconteceu. E ninguém pode evitar…

Depois daquele texto feliz e doutros, possivelmente, sentiu em si talento, força e vontade de ser outra coisa, uma escritora profissional, com nome grande, referências importantes….

Estudou muito, leu, reflectiu com singular inteligência, trabalhou duramente, fez o necessário. Desafiando também. Transformou-se no que quis ser, construiu-se.

Não perdeu a sensibilidade, acrescentou sabedoria e ciência. E algum mistério, talvez, nos seus modos, nos seus pensamentos.

É uma mulher sábia e perturbadora. Fala-se muito do seu riso intraduzível e difícil de classificar. Para mim, é um riso inquietante. É isso que ele é: inquietante; e ela escritora de renome, com uma obra luminosa e universal, fascinante e imensa que merece ser conhecida e lida em todas as línguas do mundo.

 

 

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publicado às 16:15

Tenho mais que fazer...

por Zilda Cardoso, em 15.12.14

Tenho mais que fazer do que aturar

a falta de loucura dos outros”,

apareceu no Facebook, há dias. É uma frase admirável que ficou a ecoar em mim, a recordar-me acontecimentos, palavras que ouvi, que li… Uma realidade a dar-me razão.

E fiquei a dar-me razão.

Em quê? Antes de mais, pôs-se para mim, ainda uma vez, a problema dos limites. A este propósito, devo interrogar-me se vale a pena ir ao fundo das questões. E, como sempre, concluo que vale. Por isso, tenho estado a tentar compreender o que ali – naquela frase - se diz para além da disposição evidente, do humor.

Procuro perceber, mesmo calculando que não vou chegar onde gostaria, isto é, ao fundo fundo, à verdade.

Depois de experiências várias, reconheço que é necessário ser um pouco louco, não muito. Frases estúpidas, estas, porque são sem sentido. Temos apenas um problema, um único. É, como disse já, o dos limites que não posso evitar querer aprofundar.

Mas por que hei-de necessitar de alguma loucura para entender seja o que for? Ou para me comportar de maneira certa? Para chegar a conclusões equilibradas?!

Para já, significa que quando estudo com desejo de chegar a tal tipo de conclusões, desisti previamente de procurar conclusões verdadeiras.

É isso. Neste tempo, já somos tão inteligentes que sabemos não querer mais encontrar conclusões verdadeiras. O que representa um grande avanço em relação a qualquer pensador dos séculos anteriores que baseava a sua reflexão nas conclusões rigorosas dos cientistas desejosos da verdade e convencidos de que com incomplacência a encontrariam.

Então a ciência já não procura a verdade, mesmo a antiga Ciência (é melhor escrever com maiúscula) que era a física matemática, a única que parecia poder dar respostas/verdades.

Portanto, a questão de fundo quanto a conhecimento, a sabedoria, a ciência, parece ser encontrar as fronteiras com que se deve contar para chegar a conclusões equilibradas. Até onde posso ser louca, até que ponto posso ser ajuizada, sem prejudicar, sem destruir, sem fazer mal, sem me desviar do caminho da verdade… provisória?

Pois, verdade provisória. Junto argumentos num sentido, junto argumentos no outro, rejeito todos depois de pensar arduamente: o equilíbrio tal como a verdade, está num fundo obscuro e mesmo tenebroso que se vai afastando à medida que me aproximo do conhecimento que procuro no meio que me rodeia. Ou no mundo onde estou, que também sou.

Então, é assim: verdade definitiva, não, nem pensar; verdade provisória? Difícil. Verdade equilibrada?

Aí, lembrei-me da biologia. Pensei que talvez devesse estudar aquilo de que não sei nada, rien de rien. O que me confunde. Acima de tudo por saber que é a ciência que se mantém numa espécie de estrelato cintilante, há uma porção de anos. E que levou ao nascimento de muitas novas disciplinas, por confluências e encruzilhadas. Uma ciência em fabuloso progresso.

É certo ter provocado uma revolução científica e é fácil ver que influencia a maneira de ver o mundo de cada um de nós e da sociedade em geral: a filosofia, a literatura, o cinema, a música, seja, a maneira de nos expressarmos e a forma da sociedade se organizar… Parece que tudo depende de uma ciência humana. Não de uma Ciência propriamente dita.

Gostava de saber falar disto. Mesmo sem a conhecer bem nem próximo disso, já modificou a minha maneira de pensar e de escrever. Porém, receio… não sei em que termos… fico incerta quanto ao que posso entender de um objecto que não para (pára) de se modificar, sendo que eu, que a observo e estudo, também estou permanentemente em desenvolvimento. Como tudo o que me rodeia. E em interacção com… vamos ver… entendi que somos formados por cerca de um milhão (?) de genes que interagem entre si e com o meio ambiente. Se cada gene for uma instrução, haverá um número imenso de combinações possíveis. E se possuímos um cérebro com oitenta e seis biliões de neurónios (diz-se na internet), e dez mil conexões, complexo, enorme, pesado, a nossa capacidade de entender a vida e o mundo parecia dever ser grande.

O que vislumbrei de biologia e de genética, leva-me a pensar com Waddington e Steiner, no que deve ser entendido como característica dos seres vivos.

Que importa procurar a verdade definitiva ou a verdade provisória? A verdade não é atingível. Porque o que é característico dos seres vivos é uma “estabilidade dinâmica”, através de um “processo de transformação estável”. Há a mutação aleatória e a adaptação evolutiva, mas o mais importante será renovar as reservas de variação já existentes na população. Não é fácil entrar nisto: “reservas de variação!”.

E, quanto a mim, nem sequer haverá interesse em atingir um equilíbrio entre loucura e falta de loucura, um equilíbrio estável. Atingir um estado de equilíbrio não é próprio dos seres vivos, do homem. Os seres vivos continuarão a evoluir, vamos continuar a evoluir porque é isso viver. Só precisamos de estímulo e de “stress”.

 

 

                                                     

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publicado às 19:15