As fotografias estão péssimas e custa-me mostrá-las, mas gostava de divulgar uma actividade de grande valor social. Não é iniciativa do Museu mas foi apresentada pelo seu director.
Fiquei a saber que havia instituições como o Centro de Apoio Social dos Anjos, o Recolhimento do Convento da Encarnação, a Comunidade Terapêutica da Ponte da Pedra, o Qualificar para Incluir, o Teatro do Centro, a Escola da Segunda Oportunidade, o Centro Educativo Santo António, a Comunidade Terapêutica da Horta Nova, Biblioteca Municipal de Beja, o Centro Social de S. Cristóvão e S. Lourenço, o Centro de Dia da Sé onde pessoas de muito valor desenvolvem um trabalho interessante junto de jovens desintegrados.
Ontem, domingo, na Biblioteca de Serralves foram apresentados textos de jovens que frequentam essas instituições onde recebem algum apoio para as suas dificuldade de adaptação às escolas e ao ensino, à leitura e à escrita, à vida. Eles escreveram textos e fizeram desenhos, outras pessoas leram furiosamente, cantaram e tocaram e foram aplaudidos.
Gostava de ter algumas informações sobre estas actividades de grande valor social.
Reproduzo um dos textos lidos e distribuídos.
Dos estudos, desisti. / De trabalho, fui mudando. / Nas drogas, mudando fui. / De festa em internamento, / de excesso em abstinência, / de cura em recaída. / Procuro uma linha recta / depois das curvas da vida… // - Porém, será que uma recta / é o mais curto percurso / entre dois pontos, dois nós? Se são cegos esses nós, / com palavras os desato, desatei, desatarei. / Semeio pão de palavras / que são côdea e miolo. / Se delas não precisar / serão migalhas de almoço. Virão as aves comê-las. Consigo me levarão. / E eu serei pó de estrelas…
Estava um vento dos diabos, mas fomos para a beira-mar. Havia dois dias que adiávamos. Eu e o meu neto pequenino, o que há-de fazer quatro anos um dia destes, gostamos de passear por ali. E procurámos os parques infantis.
Foi um entusiasmo lá dentro, ele e eu, naqueles aparelhos coloridos de verde, de vermelho, de amarelo…
Ele imaginou-se num navio de piratas das Caraíbas. Instava vivamente a tripulação, que era eu, a atacá-los, depressa, depressa, ali, daquele lado, já. Subimos, descemos, deixamo-nos cair, subimos de novo: uma encenação veemente e esclarecedora!
O barco grande vermelho começou a afastar-se graças ao ímpeto da nossa acção.
Depois disso, eu quis vir embora, recuar a bem dizer. O vento continuava arrasador e não se justificava mais a nossa presença no grande campo de disputa com o vermelho a escapulir-se, mar largo já. Mas ele insistia, queria avançar em perseguição do monstro, ir atrás dele aos saltos, apesar dos incontáveis senões. E rodava o leme, espreitava pelo óculo ostentosamente, investigava o fundo do mar…
Meia hora depois, quando saímos (acabar a luta, abandonar o lugar – foi o cabo dos trabalhos!), estávamos esfrangalhados pelo esforço conjunto de resistir ao vento e ao inimigo, ambos selvagens, inconvenientes, espalhafatosos, ainda cheios de caprichos e, vamos lá, de gargalhadas. Que vertigem!
Subimos a ladeira verde de relva até à esplanada sarapintada de flores brancas pequenas e outras maiorzinhas amarelas. Ele chamou-me a atenção para a necessidade e o seu desejo de apanhar algumas. Apanhava-as com muito pequeno pé e elas caíam-lhe das mãos.
Disse-lhe para as meter no meu bolso, as brancas e também as amarelas, coitadas. Meteu uma boa quantidade e esqueceu-as. Ainda lá estão… asfixiadas. Deixaram de sorrir para todos nós.
Que faço com elas? Teve tanto empenho em apanhá-las, não compreendo. Mas deve ser próprio da extrema juventude. É?
Ou então eram para mim, para que eu tomasse conta delas, para me darem prazer, e eu é que as esqueci.
Seja como for, fiquei a pensar no entusiasmo dele seguido de abandono imediato. Não pensar muito para além do momento, do presente, talvez seja boa ideia.
Há tantas coisas para pensar, tantas coisas importantes como árvores em flor, nuvens brancas e novos tons de azul no alto, perfumes ténues e delicados sabores. Tantas coisas que influenciam a nossa vida e que a nossa atitude influencia. Coisas simples e essenciais.
Que temos agora então?
“Chegou a hora de pensar mais sensatamente”. D.L.
O que se faz, quando se não pode fazer nada? O que se faz quando não se pode fazer o que se quer... o que se tem para fazer?
Quando se não pode ler nem desenhar, nem ver cinema nem televisão? Quando se não pode fazer o que sempre se fez…
Quando se não pode usar o computador e comunicar com os amigos desse modo simples e simpático? E servir-se e empregar o computador doutras maneiras…?
Quando se não pode mesmo prestar atenção olhando? Ou só prestar uma atenção miudinha com os olhos fechados? E mesmo que isso seja feito com ligeireza a cabeça dói?
Que tem ela?
Tem de se cogitar ligeiramente, sem insistência, sem exagerar… Ir ao fundo de qualquer questão está fora de questão. Ir ao fundo implica coisas agrestes, ásperas, incómodas. E, de certo modo, desagradáveis.
O melhor é pensar simplesmente. Meditar com tranquilidade. Sabem como é?
De forma tão útil!
Separando os pensamentos ásperos dos macios. Esquecendo os ásperos.
Pode-se prestar atenção à própria respiração, por exemplo – nada mais simples, é verdade. Reparar o que acontece.
Talvez ver o acontecimento em todos os pormenores – inspirar, pulmões cheios, reter por instantes como um fole vasto, expirar, esvaziar também a barriga, até ficar como um figo mirrado. E para cima e para baixo, voltar ao princípio.
Ver o movimento da respiração.
Haverá pequenos ruídos no ambiente… ao longe, bonitos sons … um pássaro. Serão pequenos sonidos, um alegre background para os mais simples pensamentos.
É claro que eu penso de imediato: vou terminar de respirar, no momento. Vou ouvir-me parar agora mesmo: será uma experiência única e divertida. E vou assistir ao que se passar logo depois.
Assistir e compreender. Entender os benefícios de compreender isso.
Não há nada que queira mais que assistir àqueles segundos e minutos, dar-me conta deles. Ver o que acontece a seguir ao fim. Falo da respiração.
Será uma coisa nova, inteiramente nova e diferente, resplandecente, talvez. Sobretudo elucidativa. Para quem, quando, como?
Os benefícios da meditação de que falo são notórios: os pensamentos não se enrolam uns nos outros, não fazem complexas conexões que levarão a conclusões imprevistas e provavelmente erradas. Os pensamentos restam simples e, por isso, não incomodam. Pelo contrário: dão espaço e à-vontade. São aceitáveis e bem-vindos. Estamos ou passamos a estar integrados no mundo, tal como ele é. Possivelmente, tal como ele é.
E estes pensamentos aceitáveis são úteis e levar-nos-ão à paz interior e à outra. É o afastamento dos pensares perturbadores que nos liberta de enganos, é o que disciplina a mente reduzindo as emoções aflitivas.
Sabemos que com ódio o cérebro não funciona de forma correcta. Pelo contrário, tratar os outros com afecto e respeito, cultivar esses sentimentos, deixa a nossa mente tranquila.
Afastei as emoções, aceito a simplicidade, estou já bem.
“O importante é que cada um seja um bom ser humano…” D.L.
Por que haveria eu de querer saber o que é arte?
"Hoje em dia a ideia de definirmos arte é tão remota que não acredito que alguém tenha coragem de fazê-lo".
A verdade é que quero e gostaria de partilhar convosco as conclusões da minha precária investigação.
Na enciclopédia livre, Wikipedia, está muito clara a definição: técnica ou habilidade, é uma manifestação de ordem estética ou comunicativa a partir da “percepção, das emoções e das ideias, com o objetivo de estimular essas instâncias da consciência e dando um significado único e diferente para cada obra”.
No início da História, a arte teria funções mágicas e rituais. Ao longo dos tempos adquiriu outras funções e tão diferentes que, apesar dos grandes debates actuais, continua indefinida.
Até há pouco, ainda considerava que a arte devia ter características criativas e estéticas. Mas depois de ver em Serralves a mais recente exposição ou o que é de Artur Barrio, mesmo essa ideia simples se desvaneceu.
O que é o que está na sala central do Museu de Serralves?
Quero dizer, é criativo… mas estético?! Tem função sociológica, lúdica,religiosa, moral, experimental, pedagógica, mercantil, psicológica, política e ornamental como foi sugerido?
Fiquei a saber que a definição é uma “construção cultural” variável e sem significado constante nem sequer numa mesma época nem numa mesma cultura.
Reproduzo aqui alguns aspectos de que se fala no texto consultado:
Não pode ser mais vago. E será subjectivo.
“A arte expressa o que não existe e indica a possibilidade de transformação e transcendência”.
Será "expressão" onde “fins e meios se fundem numa experiência agradável”.
“Arte é a interpretação da verdade”.
“Expressa uma forma de fazer que ao mesmo tempo inventa a sua própria linguagem e os seus meios”.
Também fiquei a saber depois desta visita a Serralves que a arte não seria o resultado de um projeto determinado antes, mas encontraria simplesmente o seu resultado no processo de fazer. Penso que é isso que se pode ver na sala central …Navegações/Divagações… por entre escolhos e baixios….
E a obra de arte só existe na sua interpretação, na abertura de múltiplos significados que pode ter para o espectador, segundo a ideia conhecida depois de Umberto Ecco.
“Consagração institucional, autoridade, ou resposta do público ou de pessoas consideradas peritas”, pode ser uma forma de definir.
Ou assim: "um objeto artístico é em primeiro lugar um artefacto, e em segundo, um conjunto de aspectos que legitimou a sua proposta de merecer atenção especial de alguma pessoa ou pessoas agindo em nome de alguma instituição social".
A questão “foi chamada de arte pelo 'sistema de arte'? Em nosso século, isso é tudo o que é preciso para definir arte".
Arte é qualquer coisa "que foi criado com o fim expresso de ser considerado como tal e foi colocado em um contexto em que é visto como tal".
Finalmente, a definição da Encyclopedia Britannica: arte é aquilo que é criado deliberadamente pelo homem como uma expressão de habilidade ou da imaginação.
“Parece bem claro que hoje em dia mais ou menos qualquer coisa pode ser chamada de arte”.
De vez em quando, necessito voltar a ler ou a ouvir ensinamentos de mestres na arte de viver.
É o que faço com alguma frequência. E gostaria de partilhar convosco este meu interesse, que me parece ser o de toda a gente, parece-me ser a bem de todos.
Tenho comigo um livrinho Meditações do Dalai Lama, edição Martins Fontes, São Paulo 2002. É uma compilação, um volume muito pequeno, que resume o pensamento de uma personalidade respeitada e amada em todo o mundo: ele, ELE, que tocou o coração das pessoas independentemente de crenças religiosas e políticas.
Dando a conhecer as suas ideias, posso contribuir para inspirar outros para que vivam melhor e ajudem a viver melhor.
“Devemos ter alguma forma de política. Política é uma forma de resolver conflitos. A política que vem de uma motivação sincera é construtiva”.
“Todo o mundo adora falar sobre calma e paz, seja na família, no contexto nacional ou internacional; mas sem paz interior, como podemos chegar a uma paz de verdade? Paz mundial através do ódio e da força é impossível”.
“Devemos adoptar uma perspectiva mais ampla e sempre encontrar coisas em comum entre os povos do norte, do sul, do leste e do oeste. Os conflitos surgem com base nas diferenças”.
“As fontes básicas da felicidade são um bom coração, compaixão e amor. Se tivermos essas atitudes mentais, mesmo cercados por hostilidade, sentiremos pouca perturbação. Por outro lado, se nos faltar compaixão e nosso estado mental estiver cheio de raiva ou ódio, não teremos paz”.
“A verdadeira prova de honrar os Budas ou Deus é o amor que se oferece aos nossos semelhantes”.
“Raiva e agitação deixam-nos mais susceptíveis à doença”.
“A minha religião é a bondade. Uma boa mente, um bom coração, sentimentos calorosos – estas são as coisas mais importantes”.
“Às vezes, a religião torna-se uma fonte a mais de divisão e até de conflito aberto. Por causa dessa situação, acho que as diferentes tradições religiosas têm uma grande responsabilidade em proporcionar paz mental e um senso de fraternidade entre a humanidade”.
“A fim de alcançar paz genuína e duradoura no mundo com base na compaixão, precisamos de um senso de responsabilidade universal. Primeiro, precisamos de tentar o desarmamento interior – reduzindo nossa raiva e ódio enquanto aumentamos a confiança mútua e a afeição humana”.
(Imagens de José Miguel Vieira na sua viagem à Tailândia)
Se bem que goste de vir aqui e venha com muita frequência...
por causa do rio... pelos pássaros... por causa do jardim... pelas pontes... pelo estuário... pela junção das águas da ribeira, do rio, do mar... pela paisagem do outro lado...
sempre deploro isto.
E pergunto: é admissível canhões bélicos pousados sobre as flores brancas do relvado? As que nascem ali sem ninguém semear? Que nascem lá porque querem e gostam de estar? Que são frágeis e brancas, ingénuas e minúsculas? Que ficam bem na cidade junto dos pombos de paz que não são brancos mas podiam ser?
Mesmo nos livros recentes, nas mais modernas escritas, pode haver um velho que conta histórias.
Então, pode pensar-se que os velhos gostam de contar histórias. Sobretudo, histórias de viagens. Epopeias. Não sei.
Vou reproduzir alguns versos do livro Uma Viagem à Índia, uma "aventura dramático-burlesca" como lhe chama Eduardo Lourenço, de Gonçalo M. Tavares, que fala de um velho.
E das histórias que efectivamente conta.
Mas ler as histórias do G.M.T. que é jovem, é por de mais divertido. É muito mais divertido que qualquer outra coisa que alguém possa contar.
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Por vezes Bloom gosta de ouvir dos
velhos sábios histórias alegres. E
assim comprova que no passado também
existiu alegria, e que esta não surgiu
com a electricidade, como alguns
defendem. Grandes paixões e ódios,
com mais frequência ocorrem
depois da meia-noite. E tal não é uma prova,
mas uma consideração.
…………
42
E contar histórias de amor para preparar soldados
para a guerra é o mesmo que apontar a arma
para si próprio – nenhum general comete erros desses.
Bloom, diga-se, também não gostava de narrativas
amorosas: ao lado, agora, de um velho sensato,
pediu, pois, uma história que se pudesse escutar
ao mesmo tempo que se bebe um vinho tinto
e viril. E assim foi.
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Escutar uma boa narrativa é aproximar-me
mais da Índia, pensava Bloom. E o velho,
amigo recente, começou, então,
a contar uma história. Fazia frio, fazia vento,
contou o velho, mas um exército levantou-se
inteiro de uma vez e tão sincronizado como
se fosse uma pessoa só. E porque fazia frio
e fazia vento,
e ainda para rectificar pormenores no mapa,
esse exército declarou guerra a outro.
..........
A névoa cinzenta translúcida
humedece telhados e ruas e varandas
o rio rochas velhas
árvores cerradas
Gaivotas sobrevoam sem oriente
A água… há por ali, não cai livremente
Toca ao de leve na realidade
E cede tudo embebido e diferente
De outra cor de outra textura
Divergente.
Se eu soubesse quem superintende nestes problemas, dirigia-me a ele, directamente. Escrevia-lhe e colocava o assunto que me preocupa com muita clareza e consideráveis detalhes. Por que ele é importante, o tema.
E muito valioso.
Estou à espera que caia no mundo, à superfície da Terra, quero dizer, uma chuvada monumental, com força, uma chuvada que lave o meu carro empoeirado. Não peço muito: sei que basta um aguaceiro dos bons e ele ficará a reluzir. E também me dou conta da importância deste acontecimento, espero que toda a gente entenda.
No fundo, o que precisava que acontecesse é muito simples. Precisava que a água aquecida evaporasse e se transformasse em vapor de água que, misturado com o ar subisse, formasse nuvens carregadas e escuras.
(Um dia destes, houve aqui uma nuvem espessa inteiramente negra que eu julguei - agora, sim, vai cair - e depois soube que era óleo queimado no porto de Leixões).
O vapor de água das nuvens condensa ao atingir altitudes elevadas ou ao encontrar massas de ar frias, transformando-se novamente em água que é pesada e cai como chuva.
Era isto. De mais a mais, no meu sítio, onde deve haver um alto índice de evaporação da água, deviam ocorrer chuvas com muita frequência.
Há quase sempre nuvens, mas chuva… este ano, não estou a ver. Há grandes ventanias, mas nada de trovoadas nem de relâmpagos. As nuvens têm agora sinalizações que evitam os choques entre elas, carregadas de água e energia? Deve ser, porque não chocam.
Dizem que as estações meteorológicas conseguem prever as chuvas, observando as imagens de satélites que mostram a posição e o deslocamento das massas de ar. Considerando vários fatores, dizem prever as horas futuras em que vai chover. O que tem acontecido ultimamente deixa supor que devem ter que mudar os considerandos. Nunca acreditei.
Sei que na minha zona, por um lado, não há grande indústria, por isso, ainda bem, a chuva, a cair, não será ácida, mas doce ou básica, é muito bom. Se bem que toda a chuva seja minimamente ácida, porque contém ácido carbónico em mínimas quantidades, os efeitos ambientais da chuva considerada ácida são notáveis e levaram a medidas que restringem a queima de combustíveis ricos em enxofre.
No centro de uma cidade muito poluída, a chuva cheia de poluentes pode causar danos aos monumentos históricos. Mas nesta, tão perto do mar e com uma dimensão não exorbitante, quaisquer árvores dos jardins especialmenteas japoneiras estão tão felizes como os amores perfeitos que vi belamente floridos de amarelo, branco e roxo ao longo das ruas, nesta Primavera.
Com o mar tão perto e o rio, não teremos portanto chuva ácida, embora repare que muitas vezes as gotículas no vidro não são transparentes, mas cinzentas.
Por outro lado e seja como for, há pessoas desmedidas que pedem coisas insignificantes ou antes que só têm significado para elas como os agricultores que, é sabido, nunca estão satisfeitos em relação a este problema: ou é demasiada chuva ou é pouca. Ou o sol é de mais ou não há sol que sobre. O granizo cai e desfaz os brotos e não vai haver colheita ou o vento leva na sua frente as preciosas pétalas que protegiam os rebentos. E nada vem quando é preciso, segundo eles, se bem que os produtos naturais tenham necessidades diferentes em tempos diferentes.
Porém, o meu pedido deve estar em primeiro lugar: eu só quero uma coisa simples. Quero não desperdiçar água da torneira, da Companhia, quero aproveitar a que cai e vai directamente para o bueiro (se no caminho se não aproveitar).
É um pedido razoável neste tempo de crises várias, só me falta alguma informação como - quem superintende nisto?
Não aprecio os retratos que os artistas fazem de mim. E com isso ponho os criadores em estado de revolta e de exaltação.
Eles têm razão: eu não observo suficientemente o espelho: não me conheço.
Talvez devesse olhar mais para o reflexo sem receio. Seria então uma visão do exterior? Por isso, semelhante à dos outros, artistas incluídos?
Não sei.
Não me tem interessado olhar para o espelho, demais ultimamente, mas, sim, through the looking glass para o outro lado, para o que está por trás...
O que vejo?
Objectivamente, muitas coisas, mas quem se interessa pelo que penso, o que se me afigura, o que imagino, o que invento, o que descubro… Isso poderia ser o mais sedutor e, pelo menos, razoavelmente curioso.
Porventura se importariam com os pedaços de ondas de espuma branca criadas pelo vento norte, pelas ondas sem espuma, pelo movimento simples da água… se pudessem ver o que se imagina a partir daí?
Agora, sentada nos degráus ao abrigo da nortada, olhando o mar em fúria, penso como é fascinante e por que é fascinante olhá-lo mesmo zangado e imaginar porque estará assim danado, questão de ventos e de marés, com certeza. Não é nada comigo, não é nada que eu possa ajudar a resolver. Por isso, me desinteresso. Desinteressamo-nos.
Aquele retrato, visto o meu rosto de fora para dentro, podia estar bem. Foi lamentável a minha amiga húngara, que é pintora e encantadora, tê-lo destruído.
Adoraria vê-lo neste instante, tantos anos depois, que importa o que eu disse na ocasião.
Agora ela devolveu-me fotografias diversas que eu lhe tinha emprestado para ajudar a estabelecer os traços. E eu fiquei enlevada a olhá-las e a tentar recordar o momento, os momentos que foram todos festivos.
Como seria eu então por dentro? As fotografias dirão melhor do que as pinturas o que se passa?

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