Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Exposição no Museu

por Zilda Cardoso, em 23.07.14

 

 

 

Até 7 de Setembro, a Árvore expõe as obras dos seus sócios artistas no Museu Soares dos Reis.

No catálogo da exposição, Germano Silva diz:

“De há vinte e cinco anos a esta parte, quando aparece a primavera começa a pensar-se, na Árvore, na organização da exposição colectiva dos sócios”.

“Artistas já nossos conhecidos, de méritos firmados, vão expor as suas obras ao lado das de jovens promessas que despontam no campo artístico numa mostra colectiva que todos desejamos que seja “um espaço de convergência criativa”.

“Vamos fazer, pois, desta exposição, uma verdadeira festa da Arte”.

Fui ver a exposição: é uma festa da Arte, na realidade, pelos sorrisos que faz despontar, pela júbilo e pela boa disposição que nos traz em relação ao que parece um mundo novo.

A imagem da Árvore é ali importante porque ela simboliza o Cosmos e exprime “a vida, a juventude, a imortalidade, a sapiência”. Está ali tudo. E a comemoração disso que esta exposição apresenta repetir-se-á e continuará em cada ano.

Será um eterno retorno de coisas novas e aliciantes que vão renovar o mundo.

Alguns artistas da Vantag apresentam trabalhos fotográficos muito interessantes como Jorge Cardoso (semiótica aplicada M e P) e A. De Lima (colagem e impressão digital) e Paz Amorim que mostra esculturas em laminado de madeira de grande originalidade.

Havia muitos outros trabalhos de que falarei amanhã.

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:06

ALCINO CARDOSO

por Zilda Cardoso, em 21.07.14

Não que não gostasse de ficar connosco, mas sentia-se cansado. Acredito que estava cansado de tanto trabalhar, de tanto decidir, de tanto se dar aos outros.

 

E de sofrer, também. Estava cansado de sofrer.

 

Teve uma vida por de mais preenchida e, por isso, viveu muito para além do que os 85 anos que lhe contamos deixa supor.

Há um ano que renunciou. Levou muito consigo – a sua inteligência, a vontade, a sua sabedoria, a dignidade. O seu génio.

 

Descansa agora e nós sentimos-lhe a falta e recordamo-lo no ainda indeciso silêncio desta madrugada de 21 de Julho.

Que é também um silêncio para sempre.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:47

Homenagem a Alcino Cardoso

por Zilda Cardoso, em 17.07.14

 

 

 

Homenagens a Alcino Cardoso testemunham prestígio e competência

 

Alcino Cardoso, figura destacada do C.D.S. e ex-secretário de estado do Turismo, tem estado ultimamente em foco. A sua acção, quer como dirigente partidário quer como gestor financeiro, quer ainda como governante, tem sido pretexto com efeito para manifestações de apreço justificadas pelo dinamismo e simpatia pessoal que o caracterizam.

Em Vila Praia de Âncora em 20 de Setembro findo, por ocasião da entrega de uma ambulância aos bombeiros voluntários locais, recebeu público testemunho de gratidão pelo empenho que demonstrou na obtenção de fundos alemães que permitiram a aquisição daquela viatura. Teve então oportunidade de salientar que “turismo não é só hotelaria, é também uma boa rede viária, é também equipamento para a saúde”.

O Skal Club de Lisboa, num jantar organizado em sua honra no Hotel Alfa, quis manifestar a Alcino Cardoso o apreço que lhe mereceu a sua actuação à frente da Secretaria de Estado do Turismo. O Dr. Arménio António Cardoso Cardo, em representação do Skal Club, saudando o homenageado, sublinhou as suas qualidades humanas e de governante, as quais foram também postas em destaque pelo Director-Geral do Turismo, Dr. Cristiano de Freitas. No final, Alcino Cardoso agradeceu sensibilizado a homenagem que lhe foi prestada.

No passado dia 2, mais de uma centena de empresários e gestores do centro e norte do país reuniram-se no Porto para outra homenagem a Alcino Cardoso, governante que o foi, por duas vezes, e com inegável brilho, nas áreas da Agricultura e Turismo e autarca que deixou um vazio ainda não preenchido no executivo da Câmara Municipal do Porto, conforme na oportunidade acentuou o Presidente da Assembleia Municipal do  Concelho.

O presidente do C.D.S., Prof. Freitas do Amaral, enviou a Alcino Cardoso um telegrama enaltecendo a obra por este realizada em tão curto espaço de tempo na Secretaria de Estado do Turismo, aspecto também sublinhado pelo Presidente da Comissão Executiva do C. D. S. , Eng. Anacoreta Correia, que invocou o testemunho de agentes de viagens e de hoteleiros com quem recentemente contactara.

Uma longa lista de oradores, o primeiro dos quais foi Mário Martins, pôs em evidência os vários aspectos da vida pública de Alcino Cardoso, que no final agradeceu as provas de simpatia de que foi alvo, reafirmando o seu propósito de continuar a servir o C.D.S. e o projecto de sociedade que o nosso Partido defende.

 

Trecho copiado de um artigo do jornal Folha C.D.S. de 15/10/1981.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:00

Agustina e a Provença

por Zilda Cardoso, em 15.07.14

  

 

  

 

  

De "Embaixada a Calígula"

 

“… olho a paisagem seca da Provença, tão hermética, pronta a mudar de rosto, a crispar os ares, a escurecer-se de roxos e azuis de aço. É uma paisagem inactiva e que não nos oferece nada de inesperado, excepto a própria vertente áspera e quase sinistra do Lubéron. Os seus verdes são agudos, sem essa penetração de humidade que veremos no vale do Pó ou que existe na nossa província do norte; quase estranhamos que os artistas prefiram a Provença para pintar e a elejam para viver, pois nós encontramos, naquela tranquilidade em que se suspende o vento, algo de vazio e contrário ao intelecto”.

Agustina referia-se decerto ao Minho quando falava daquela penetração de humidade que dá um encanto diferente ao nosso Norte.

Aprecio muito a Provença apesar dessa secura e do suposto vazio. Vejo-a fascinante na luz e nos seus perfumes, nas cores e nas flores dos seus jardins. E não me permito esquecê-la.

Mas de Moledo do Minho conheço todos os segredos.

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:23

Na praia da Arda

por Zilda Cardoso, em 24.06.14

 

 

 

Fomos hoje perto de Afife, Viana do Castelo, em busca de ondas.

Montavam no areal, na praia da Arda, um palco para o festival de surf. Muitas coisas vão acontecer por aqui – é o dia internacional do surf em 21 e é necessário comemorar dignamente. Com música, suponho.

O mar estava liso e airoso quando chegamos, mas, com a maré a baixar, uma hipótese de onda começou a formar-se. E os rapazes e as raparigas surfistas que aguardavam na praia entusiasmaram-se logo e entraram e foram por ali, a sós com a tábua (prancha, gritam-me do lado de lá) e a sua energia e o imenso desejo de ver para além, de ir mais longe, para onde talvez seja melhor. Para onde talvez o mundo seja melhor.

Fiquei olhando.

O sol ainda alto e brilhante, começava a descer e a pratear-se na água.

Um bom pintor faria uma aguarela maravilhosa desta cena. E nem precisava de ser tão bom nem de usar muito a imaginação! Tudo estava ao seu dispor. E ao nosso.

Estendo-me na areia liberta das maldades do sol pela sombra de um improvisado guarda. Fico tentando pensar, rodeada de mar e de dunas, sob o céu de várias belas tonalidades (incluindo índigo) que mudam sem descanso e se transformam com novas pinceladas e permanentes velaturas.

Fico quieta, de olhos cerrados: não quero estilhaçar nada.

O mar enrola sobre si desenrolando-se na areia com espuma muito branca, oiço o seu leve ruído cadenciado; uma pena de pombo jovem rola ao sabor do vento que sopra a espaços: é mais um murmúrio e a levíssima pena foge como se receasse uma violência.

Encontro uma concha minúscula e luzente, perfeitamente irregular que fica sendo o único vestígio material com que fico destas horas de Afife-sur-Mer nas vésperas de um festival de surf e de música.

O que evitará que me perca nesta harmonia de azuis e de verdes, de roxos, brancos e cinzentos. Nesta encantadora luz velada, de claríssimos roxos que continuam no horizonte estranhamente!

Voltarei a este lugar para notar as diferenças. Com um sorriso prevenido.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:31

Moledo tem mais encanto...

por Zilda Cardoso, em 23.06.14

  

 

 Van Gogh ter-se-ia apaixonado pelo Minho se tivesse tido notícia destes lugares, se os tivesse visitado. Não tenho dúvida: teria ficado por cá, rendido.

E então talvez pudéssemos ver agora os seus campos de trigo não loucos nem secos e retorcidos, mas macios e húmidos, sem corvos e sem curvas, suaves, quase amorosos.

Estou em frente a um campo chão, grandíssimo, liso, em Moledo do Minho Aldeia, ao nível da estrada interior. Ninguém o semeou, mas hastes louras e altas que semelham trigo ondulam nele com brandura quando um vento vem e a sua pequena música as faz vibrar.

Apenas uma estreita faixa de milho de belo colorido, saudável e fresco, atravessa o chão alagadiço, o resto é essa erva alta e já seca de que colho alguns caules para as minhas jarras de Inverno.

 

 

 

Em tempos, ouvia chamar a este sítio, o paul, um lugar fértil e verde, fácil de trabalhar, um milheiral pertença de muitos e deveras estimado pela população que agora o abandona. O milho era para os animais que davam leite e que já não vivem por aqui.

Sento-me no banco de pedra, tendo a meu lado as hastes cortadas, louras e espigadas e fico por um tempo a reflectir, com um sol dardejante de Junho a dar-me de forma muito inconveniente.

Mas não resisto, fico: tento perceber a linguagem destes lugares; há anos que tento. Apenas sei os cheiros e recordo o brilho da água que não corre. As cores são esbatidas e não agradam a qualquer, e eu mesma teria preferido ver por entre os caules dourados papoilas e papoulas carmesim.

Alguém um dia descobrirá o segredo do seu permanente encanto. Porque ele continua aqui, quero dizer, em Moledo Aldeia e Praia, à mistura com a minha leve nostalgia.

E assim me vou finalmente com um sorriso que nem eu sei definir.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:51

Agustina Bessa-Luís, Embaixada a Calígula

por Zilda Cardoso, em 18.06.14

"Entre uma multidão que se interpela, que se exprime afanosamente, que se chama à distância, que se abre em aberrantes votos de confiança, que se oferece, que se interessa, que arma pavilhões e convida amigos e desperta vizinhos, encontrar alguém que está calado e permite que façamos a seu respeito suposições erradas e fantásticas - isso é como descobrir a pedra filosofal.

Para o diabo o mundo elástico das boas intenções, as campaínhas no pescoço do belo senso; para o diabo os sindicatos da simpatia. o quase entendimento, a meia-verdade, o saltinho sobre o ombro da minúscula razoabilidade! Fechem as máquinas de falar, desandem os botões da verbosidade, façam má cara aos visitantes, despeçam os oradores oficiais, cancelem o contrato dos conferencistas. Silêncio, silêncio...

Escondam o rosto um momento, desçam as cortinas, preguem as janelas, chorem se quiserem, mas silêncio!

Dai tempo a ouvir um anjo que passa, uma cigarra que canta, uma pedra que rola, uma flor que morre. Também isto é sério, também isto é justo, também isto é revelação, e caridade, e inteligência.

Dai tempo a vós próprios que sois vivos e que o pudeis saber. E silêncio".

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:08

Mas que pressa é essa!?

por Zilda Cardoso, em 14.06.14

Falta um minuto para o comboio partir e eu na fila da bilheteira… e posso nem sequer arranjar bilhetes… e posso ter que permanecer naquele desconforto de estação até à partida seguinte… e posso… Massacrava-me.

No guichet, a empregada manteve-se perfeitamente indiferente e lenta de gestos e de expressão sem querer dar conta do meu ferver.

Mas, pronto. Vi-me com o bilhete na mão e corri para o comboio que chegou antes da hora marcada (acho que foi dois minutos antes da hora marcada, não juro!)

Tive a culpa, quis vir pela marginal porque o percurso era mais bonito. Quem arrisca a perder o comboio para vir por um caminho mais bonito?! Há obras no túnel antes da ponte e o trânsito demora o dobro, mas continuo a apreciar vir pela beira-rio para Gaia, para as Devesas. Aposto que repetirei na próxima oportunidade.

Depois de entrar numa carruagem qualquer que visivelmente não era a minha, de ter caminhado um espaço infinito a puxar a mala até ao lugar que me foi atribuído, sentei-me junto duma senhora monumental e consegui tirar do meu mínimo saco um lápis e um bloco notas.

E, apertadinha, anotei o seguinte, dois pontos.

Várias coisas aconteceram antes de terem começado a acontecer os acontecimentos daquele dia peculiar. Por exemplo: Alguém na estação, quando estava na aflição de obter o bilhete ou…, naquela dúvida, alguém muito amável me perguntou se eu era eu. Sim, disse eu. Sou eu. Mas por quê?

Então olhei para um pouco mais longe e vi uma senhora que muito bem conhecia do Facebook. E compreendi.

Mas que prazer!

E eu com aquela pressa, o comboio já estava na gare … Apenas pude acrescentar: tenho que apanhar aquele comboio, desculpe.

E apanhei-o já a sair para os jacarandás.

Fiquei contente antes de começar a reflectir.

Como pude estar na frente desta Amiga sem lhe agradecer as atenções e amabilidades com que me tem mimoseado?

Que pressa foi esta?!

Nunca nos tínhamos encontrado fora destas lides bloguianas e facebookianas e acho que inauguramos um novo conceito concreto de amizade.

Interesso-me mesmo pelo que se passa com a minha amiga e acharia muito natural que me chamasse às 3 da manhã para falarmos do assunto urgente que a preocupa. E ficaria mesmo lisonjeada.

Sinto a falta de notícias suas quando as não há e alegro-me quando está feliz. As máquinas humanizam-se a olhos vistos, porque permitem e promovem estes encontros entre humanos. Os seres humanos mecanizam-se. E sentimo-nos. Estamos a encontrar-nos uns e outros, humanos e máquinas.

Então, noutro registo, conheci a minha amiga virtual/real e a sua jovem simpática filha. Lamento não ter tido com elas uma conversa sossegada. Digo que difícil foi para mim não ter cavaqueado um pouco, sabido coisas, interessando-me.

Não é necessário conhecer uma pessoa de todos os ângulos para se ser amiga dela. Talvez seja o contrário. Há uma relação amistosa entre nós, gente do FB e, creiam-me, nunca sinto a menor vontade de quebrar esse laço.

Estas palavras foram registadas no meu coração de modo e antes de lhe serem enviadas com verdade. Interrogo-me agora: Onde ficou o nosso abraço Graça Matias Guedes?

Sentirei para sempre a falta dele.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:37

Nice e Matisse

por Zilda Cardoso, em 10.06.14

 

 

Gostei da casa, uma mansão genovesa de cores ocre e turquesa, e dos arredores – as ruinas romanas e as do Monastère numa paisagem de sol brilhante e céu azul, de buganvílias vermelhas e de belas árvores. Digo-lhe que nunca tinha observado um céu daquele azul claro tão turquesa com vagas nuvens rosa-chá muito bem desenhadas. Foi no sábado passado na Provence, onde fui em grupo “buscar” as obras dos artistas modernos que aí viveram e trabalharam.

 

A paisagem é arte efémera embora natural e ninguém a pode expor ainda que temporariamente num museu. Por isso, olhei e olhei até me cansar: nada daquilo iria repetir-se algum dia e eu devia aproveitar. E ficaria saudosa quand même.

 

Zangada com a minha máquina fotográfica, procurei guardar na memória, o mais nitidamente possível…

 

A mansão era o Museu Matisse e percorri a casa e bebi as obras fluidas, saborosas, refrescantes. Ouvi a sua música tranquila, senti-a como uma nova maneira de beleza, e o sortilégio da cor da pintura como uma felicidade ao meu dispor.

 

Ele fala de expressão, as suas obras são expressivas no sentido de que a colocação das figuras e qualquer dos objectos, os espaços vazios e as proporções representam um papel. E há o ornamento de superfície integrado no plano do quadro, todo este equilíbrio que se tornou o ponto principal da composição.

 

Matisse parece ter gosto em me oferecer arte como visão do mundo. E eu agradeço-lhe porque a sua visão é feliz e me dá prazer olhar as obras. Não creio que sejam superficiais, são formas de simplicidade muito trabalhada em que as qualidades essenciais não foram destruídas. Adoro as figuras femininas, guache azul sobre papel, cortadas e coladas em tela e a Dança II que vi no Ermitage em S. Petersburgo há muitos anos.

 

Neste Museu há desenhos, gravuras, livros ilustrados, fotografias, esculturas, objectos pessoais, excelentes tapeçarias, cerâmicas, vitrais.

 

Imagino ver agora as personagens dos seus quadros dançando ao ar livre com música apropriada, a meu gosto, tranquila.

 

E sugiro: conceba as personagens livres, distorcidas, ousadas, vermelhas da Dança II movimentando-se com força tranquila no céu de Nice numa tarde de Junho. Ou noutro lugar qualquer.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:04

pessoas dissimuladas

por Zilda Cardoso, em 28.05.14

O livro que estou a ler de Agustina Bessa-Luís fez-me lembrar o que presenciei de vários modos e em várias ocasiões em Álvaro Siza: desenha continuamente em reuniões de trabalho de arquitectos, não em qualquer papel, mas em impossíveis circunstâncias. E os desenhos são interessantes e têm sido publicados em livro ou foram motivo de exposições.

O chamado Caderno de Significados de Agustina foi o resultado do agrupamento de diversos textos soltos sobre os mais variados temas, escritos em qualquer papel, ao acaso do lugar onde se encontrava: em debates muito intelectuais ou em férias, em qualquer momento desadequado. São pensamentos que tinha de registar enquanto estavam a ser engendrados, ou enquanto vivos na sua memória.

Tenho-me deliciado com eles.

Também escrevo em sítios inadmissíveis, não confio na minha memória, e guardo em cestos e arcas ou dentro de livros na estante com receio de perder ideias que me aparecem e que outros um dia vão achar geniais. Geniais!

Agora que pequenas coisas começam a ocupar demasiado espaço na minha cabeça... o que acontece? Quero dizer, por fora, a cabeça mantém as mesmas dimensões de outro tempo. Por dentro… não. E interrogo-me sobre o que terá ocupado o espaço que antes era passível de ser preenchido com objectos de todo o tamanho, cor e forma. Os neurónios a atrofiar-se, as conexões a desistirem deixariam mais espaço livre. Para quê?

Fala-se de conexões e eu fico ligeiramente irritada com as conexões e as correlações entre neurónios. Neurónios transmitem informação para outros neurónios no cérebro; há-os em abundância em qualquer idade, pode haver, mas as conexões que estabelecem essas relações desaparecem quando não são usadas. É nessa ocasião que surgem os nossos discursos sem nexo.

Que história mal contada! Mas que história tão mal contada! Por que não dizem simplesmente que ser velho é isso: é não estabelecer novas conexões entre os neurónios?

E que tem de mal ser velho? Não estava previsto? As pessoas são tão dissimuladas!

Redescobri esta palavra recentemente num texto de Agustina, tinha-me esquecido dela que era para usar com frequência. As pessoas são dissimuladas. Quando encontro uma que não é, fico muito feliz. Mas talvez haja menos pessoas dissimuladas do que antigamente quando não havia tanta liberdade de dizer e de fazer.

Agora não é necessário ser dissimulado. É uma pena. Gosto da palavra que é curiosa e divertida e… se gosto de pessoas dissimuladas? Posso não gostar?

Não sei se vale a pena não gostar. É provável que o próprio conceito seja útil e politicamente correcto. Se eu disser que determinada criatura é dissimulada, deixam de gostar dela? Eu não deixo. Além de que um indivíduo dissimulado aprende a ser mais inteligente.

“Tudo é outra coisa”, diz ainda Agustina. Tem razão. Sei que me engano muitas vezes quanto ao que vejo, quanto ao que penso, quanto ao que sei. Por que se não é assim, se alguma coisa está mal, é porque eu estou a ver mal.

Pode ser sempre outra coisa.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:09