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À conversa com Jorge Cardoso

por Zilda Cardoso, em 29.07.14

 

 

 

 

Uma obra na exposição dos sócios da Árvore no Museu Soares dos Reis despertou em mim enorme curiosidade.

 

É uma peça de Jorge Cardoso, intitulada Semiótica  Aplicada M e P, 2014, que me fez reflectir sobre o que defini, para uso pessoal, como arte. Que é para mim, sobretudo divertimento, aquilo que me desperta sentimentos bons, recordações agradáveis e pensamentos aprofundados.

 

Olhando para esta pintura e impressão jacto de tinta, fotografia sobre papel fine art, pensei qual teria sido a ideia do autor. Não apenas como intenção, todos têm uma intenção mesmo que vaga ou sobretudo vaga (“vamos ver o que vai sair daqui”, dizem) quando começam um trabalho artístico, mas, neste caso, tudo me pareceu perfeitamente definido e planeado, pronto para transmitir uma ideia, um conceito.

 

Por isso, fui saber o que era arte conceptual antes de tentar falar com o autor.

 

E, entre variadíssimas definições, encontrei uma que talvez satisfaça: “a documented critical inquiry into the artist's social, philosophical and psychological status”..

 

Falei depois com Jorge Cardoso.

 

- Tens uma formação académica – economia - que não tem nada a ver com arte e desenvolveste um trabalho também ligado à economia, ao negócio, às contabilidades e à burocracia… isso explica a tua preferência pela arte conceptual? Ou há outras razões?

 

- Sempre me interessei por arte, por arte de vanguarda e achei que a ideia é mais importante do que o objecto que o artista produz. Por outro lado, interesso-me desde há muitos anos por fotografia e é essa aptidão e esse conhecimento – estudo e experiência - que uso no meu trabalho conceptual. Mas não poderia ficar só pela fotografia; a ideia, o conceito a transmitir pareceu-me sempre essencial. Faço isso principalmente por meio da fotografia.

 

- Não é também uma aversão ao tradicional, ao convencional e um interesse manifesto por novas expressões artísticas ou por uma expressão mais original em que mesmo a ideia de autor é nova? Elepode ser apenas o que dá instruções sobre a maneira de executar.

 

- É tudo isso, com certeza. E é também a minha paixão por sinais. Vejo signos ou sinais no mais insignificante objecto, atitude, frase, esgar, gesto…

 

Mas como definir arte conceptual? Os escritos sobre arte, quer sejam de crítica quer sejam teoria, têm-se desviado para matérias mais do campo da filosofia do que das artes plásticas!

 

Esta tendência das últimas décadas não explica a obra de arte de um modo mais claro e entusiasmante do que se fossem usadas outras bases de argumentação; quase diria que é precisamente o oposto!

 

Muitos dos referidos textos usam a semiótica como campo explicativo de certas evoluções artísticas.

 

 

 

E a Semiótica  é o estudo dos signos, sendo signo o elemento que é utilizado para exprimir uma dada realidade, é o significante do significado… Eu sei, eu sei… já perdemos metade dos leitores!

 

 

 

Mas e se escolhermos para demonstrar o que é um signo uma coisa tão familiar como uma placa com o nome de uma rua…

 

Simples?

 

E não é engraçado estar em Macau e encontrar uma placa a dizer Rua Cidade do Porto?

 

Sobretudo porque a placa é portuguesíssima de construção mas tem nos azulejos a mesma frase escrita em ideogramas chineses (foto 1 do díptico) e, por outro lado, o ambiente circundante pouco tem a ver com o visual da cidade do Porto.

 

Depois a busca do contraste foi evidente: vamos procurar se há uma Rua de Macau na cidade do Porto!

 

É a foto 2, do lado direito: trata-se de uma rua de traçado curvilíneo e que é desconhecida por todos os moradores do bairro a quem pedimos tal informação! A placa está desbotada, a fachada degradada, o relvado cheio de lixo… em contraste o estendal de roupa tem formas de escultura minimalista e de bom gosto. Mas nada que lembre Macau…

 

 

 

O elemento humano está ausente embora do lado direito tenhamos um signo do mesmo através de um fato de macaco com carapuço que está a secar…

 

 

 

Depois há outras pistas escritas por cima das fotografias a tinta laranja…

 

Terei explicado alguma coisa?

 

Acrescento ainda que nunca esqueceremos a semiótica como disciplina dos signos mesmo que, nalguns casos, os signos, estes signos, evoquem realidades bem diferentes do local onde estão!

 

 

 

- Mas os sinais para que chamas a atenção são sinais de quê? Quero dizer, que realidades evocam os sinais que apresentas neste trabalho? Eles significam alguma coisa que não está lá? São pistas, como dizes, e sinais. São significantes. Qual é o significado deles? Cabe ao espectador tentar compreender?

 

 

 

- Sim, nalguns casos como as inscrições a laranja, não teria piada ser eu a revelar… Depois de o espectador descobrir o jogo de palavras aí escondido vai concordar comigo.

 

 

 

No resto, não é mais do que disse antes: os signos escolhidos pretendem apenas facilitar a compreensão do que é a semiótica… as placas com os nomes das ruas, os próprios nomes das ruas e a minha escolha de nomes  que representam locais… Consegui assim o efeito de contraste entre o que o nome sugere (por exemplo, Porto) e o que se vê à volta da placa (um não-Porto, neste caso Macau); e vice-versa na outra foto. Destaco também a componente humor que relaxa em relação a temas “sérios” e também ajuda à memorização.

 

 

 

 

 

- Então a arte conceptual está a ser usada para explicar a semiótica… Ou a semiótica está a ser usada com êxito como ou pela arte conceptual para se explicar? Ou…

 

 

 

 

 

Jorge Cardoso prometeu continuar a conversa num outro dia. Hoje, a meu pedido, esclareceu apenas  que o trabalho actualmente em exposição - um díptico - é composto por duas fotografias  de 150cm por 100cm cada e o anexo é uma singela folha A4 com definições, desde a semiótica até à toponímia e ao humor…

 

“Porque o humor é característica fundamental em qualquer trabalho meu”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 09:18

Aix ou Eks

por Zilda Cardoso, em 26.07.14

 

Aix-en-Provence… ligo-a a um episódio da longínqua aula de Geografia com o professor a falar dessa cidade da Provença a propósito de não-sei-quê; e nós,  alunos, a tomarmos notas, afadigados e em grande tensão porque era necessário escrever muito rapidamente para acompanhar a fala dele na cátedra.

Não havia nenhum outro jeito de estudar aquele tema senão consultando as nossas notas. Por isso, a concentração era essencial.

De modo que…tudo se passava em silêncio pesado.

Mas eu olhei para o lado, para o caderno da minha vizinha de carteira. Foi o fim… apenas uma olhada… mas vi que ela tinha escrito EKS em vez de Aix e aquilo, imaginem, naquele ambiente dramático, foi o bastante para me fazer desatar a rir descontrola e abafadamente. Não me pude conter e o professor, de tão zangado, pôs-me… lá fora. Na épocaera um alvoroço! Um perfeito escândalo!

Nunca mais esqueci nem ele, tive muitas ocasiões de confirmar isso: no ano seguinte, apanhei-o de novo a Geografia, Económica talvez, e muito mais tarde em Moledo, onde ambos tínhamos casa. Apanhei-o a jogar a malha muito a sério e interroguei-me se me poderia rir naquele novo contexto sem provocar tumulto.

Detalhes de mínimas realidades marcantes.

Porém, Aix, que agora revi nesta viagem à Provença a pretexto de visitar os lugares onde viveram e trabalharam os pintores meus preferidos, continua uma cidade de província com palácios elegantes e monumentos muito antigos mal encaixados nas ruas torcidas e nas praças novas, alguns quase deixados ali, todos estes anos, por favor.

Lá está o glorioso Cours Mirabeau com o seu grande movimento habitual, os largos passeios e a dupla fila de enormes plátanos formando túnel, os restaurantes e os cafés eternamente cheios de gente esfomeada e dessedentada e feliz.

E as fontes, as fontes são importantes.

O Cours parte da Place de la Rotonde com a monumental fonte redonda e três estátuas no centro representando a Justiça, a Agricultura e as Belas Artes, segundo informa o folheto guia do turismo.

Outra fonte apresenta o Roy René, o Bom, realizador de muitos cometimentos valiosos; mas aparentemente a sua fama liga-se ao vinho provençal e às uvas de grande qualidade e, por isso, aparece aqui de cacho de uvas moscatel na mão esquerda, o cetro na direita e a coroa no alto, é preciso olhar o céu para a ver.

Outra das fontes de que se fala é a da água que vem a 18 graus da fonte termal de Bagniers, não acho que algum dos visitantes de Aix ligue qualquer importância a esta raridade.

Pelo que me toca, continuando com o tema, nunca gostei de fontes em que a água é jorrada, vomitada, por animais que devem sofrer com isso: leões por exemplo. De modo que não fiquei muito impressionada com a importância dada à fonte dos quatro golfinhos bochechudos, do século XVII.

Acho que não quero ver mais fontes nem saber dos segredos que se diz que escondem. Não quero saber de “gourmandises ensoleillées”, nem de festivais de música, nem de mercados de rua nem de tradições.

Não me importa outra pessoa que não seja Cézanne; nem património construído nem nada senão as suas obras, os lugares que frequentou, onde viveu e trabalhou, onde nasceu talvez.

É nisso que vou pensar.

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publicado às 16:17

A exposição no Museu

por Zilda Cardoso, em 24.07.14

 

  

Para mim, arte é sobretudo divertimento. Por isso, só posso falar daquilo que, considerado arte, me diverte, me dá alegria, me traz sentimentos bons, recordações agradáveis e pensamentos mais ou menos aprofundados. E filosóficos, pois.

Porque eu sou filósofa, podia proclamar isso na praça pública e todo o mundo desataria a rir. Desatava a rir, por quê?

Porque estariam a pensar em Platão e eu não tenho nada a ver com Platão. E tenho tudo a ver com Platão.

E, já que me contradigo, merece ser conhecida a minha opinião.

Vou dar-lhes um parecer pessoal sobre algumas obras da Festa que é a actual exposição de pintura e de escultura da Árvore no Museu Soares dos Reis. Talvez queiram ir lá verificar. E contradizer.

 

Começo pelo fim, segundo a ordem do catálogo.

Amáveis as Libelinhas de Virgínia Barredo e o que Murchou da Teresa Gil. Por entre as Árvores, de Sónia Teles e Silva é um desenho a tinta-da-china tal como o trabalho de Sérgio Secca de que gosto, gosto de ambos, assim como dos temas.

O trabalho de Rui Pais é horrível, mas muito bom: é a pintura a acrílico de um homem a ser morto por cravos envenenados. Que imaginação ardente e arrepiante! Para mim, é um trabalho que merece todo o interesse, aquele que dá para pensar arduamente!

Aprecio os trabalhos de escultura de Paz Amorim, a técnica mista de Otília Santos e os quase-naifs de Maria João Sarmento.

Margarida Leão, Just in Case, Luísa Gonçalves, Erva Prata, e Jorge Souto, Steal Life, têm os meus votos favoráveis. Assim como os trabalhos de José Rodrigues, de J.L. Darocha, de Helena Abreu e de (Barata?) Feio, Rua de Santa Catarina.

Há muitos mais de que quero falar, mas fica para amanhã, não convém estafar os leitores.

 

(o jardim semi-abandonado do Museu)

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publicado às 13:13

Exposição no Museu

por Zilda Cardoso, em 23.07.14

 

 

 

Até 7 de Setembro, a Árvore expõe as obras dos seus sócios artistas no Museu Soares dos Reis.

No catálogo da exposição, Germano Silva diz:

“De há vinte e cinco anos a esta parte, quando aparece a primavera começa a pensar-se, na Árvore, na organização da exposição colectiva dos sócios”.

“Artistas já nossos conhecidos, de méritos firmados, vão expor as suas obras ao lado das de jovens promessas que despontam no campo artístico numa mostra colectiva que todos desejamos que seja “um espaço de convergência criativa”.

“Vamos fazer, pois, desta exposição, uma verdadeira festa da Arte”.

Fui ver a exposição: é uma festa da Arte, na realidade, pelos sorrisos que faz despontar, pela júbilo e pela boa disposição que nos traz em relação ao que parece um mundo novo.

A imagem da Árvore é ali importante porque ela simboliza o Cosmos e exprime “a vida, a juventude, a imortalidade, a sapiência”. Está ali tudo. E a comemoração disso que esta exposição apresenta repetir-se-á e continuará em cada ano.

Será um eterno retorno de coisas novas e aliciantes que vão renovar o mundo.

Alguns artistas da Vantag apresentam trabalhos fotográficos muito interessantes como Jorge Cardoso (semiótica aplicada M e P) e A. De Lima (colagem e impressão digital) e Paz Amorim que mostra esculturas em laminado de madeira de grande originalidade.

Havia muitos outros trabalhos de que falarei amanhã.

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

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publicado às 21:06

ALCINO CARDOSO

por Zilda Cardoso, em 21.07.14

Não que não gostasse de ficar connosco, mas sentia-se cansado. Acredito que estava cansado de tanto trabalhar, de tanto decidir, de tanto se dar aos outros.

 

E de sofrer, também. Estava cansado de sofrer.

 

Teve uma vida por de mais preenchida e, por isso, viveu muito para além do que os 85 anos que lhe contamos deixa supor.

Há um ano que renunciou. Levou muito consigo – a sua inteligência, a vontade, a sua sabedoria, a dignidade. O seu génio.

 

Descansa agora e nós sentimos-lhe a falta e recordamo-lo no ainda indeciso silêncio desta madrugada de 21 de Julho.

Que é também um silêncio para sempre.

 

 

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publicado às 14:47

Homenagem a Alcino Cardoso

por Zilda Cardoso, em 17.07.14

 

 

 

Homenagens a Alcino Cardoso testemunham prestígio e competência

 

Alcino Cardoso, figura destacada do C.D.S. e ex-secretário de estado do Turismo, tem estado ultimamente em foco. A sua acção, quer como dirigente partidário quer como gestor financeiro, quer ainda como governante, tem sido pretexto com efeito para manifestações de apreço justificadas pelo dinamismo e simpatia pessoal que o caracterizam.

Em Vila Praia de Âncora em 20 de Setembro findo, por ocasião da entrega de uma ambulância aos bombeiros voluntários locais, recebeu público testemunho de gratidão pelo empenho que demonstrou na obtenção de fundos alemães que permitiram a aquisição daquela viatura. Teve então oportunidade de salientar que “turismo não é só hotelaria, é também uma boa rede viária, é também equipamento para a saúde”.

O Skal Club de Lisboa, num jantar organizado em sua honra no Hotel Alfa, quis manifestar a Alcino Cardoso o apreço que lhe mereceu a sua actuação à frente da Secretaria de Estado do Turismo. O Dr. Arménio António Cardoso Cardo, em representação do Skal Club, saudando o homenageado, sublinhou as suas qualidades humanas e de governante, as quais foram também postas em destaque pelo Director-Geral do Turismo, Dr. Cristiano de Freitas. No final, Alcino Cardoso agradeceu sensibilizado a homenagem que lhe foi prestada.

No passado dia 2, mais de uma centena de empresários e gestores do centro e norte do país reuniram-se no Porto para outra homenagem a Alcino Cardoso, governante que o foi, por duas vezes, e com inegável brilho, nas áreas da Agricultura e Turismo e autarca que deixou um vazio ainda não preenchido no executivo da Câmara Municipal do Porto, conforme na oportunidade acentuou o Presidente da Assembleia Municipal do  Concelho.

O presidente do C.D.S., Prof. Freitas do Amaral, enviou a Alcino Cardoso um telegrama enaltecendo a obra por este realizada em tão curto espaço de tempo na Secretaria de Estado do Turismo, aspecto também sublinhado pelo Presidente da Comissão Executiva do C. D. S. , Eng. Anacoreta Correia, que invocou o testemunho de agentes de viagens e de hoteleiros com quem recentemente contactara.

Uma longa lista de oradores, o primeiro dos quais foi Mário Martins, pôs em evidência os vários aspectos da vida pública de Alcino Cardoso, que no final agradeceu as provas de simpatia de que foi alvo, reafirmando o seu propósito de continuar a servir o C.D.S. e o projecto de sociedade que o nosso Partido defende.

 

Trecho copiado de um artigo do jornal Folha C.D.S. de 15/10/1981.

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publicado às 09:00

Agustina e a Provença

por Zilda Cardoso, em 15.07.14

  

 

  

 

  

De "Embaixada a Calígula"

 

“… olho a paisagem seca da Provença, tão hermética, pronta a mudar de rosto, a crispar os ares, a escurecer-se de roxos e azuis de aço. É uma paisagem inactiva e que não nos oferece nada de inesperado, excepto a própria vertente áspera e quase sinistra do Lubéron. Os seus verdes são agudos, sem essa penetração de humidade que veremos no vale do Pó ou que existe na nossa província do norte; quase estranhamos que os artistas prefiram a Provença para pintar e a elejam para viver, pois nós encontramos, naquela tranquilidade em que se suspende o vento, algo de vazio e contrário ao intelecto”.

Agustina referia-se decerto ao Minho quando falava daquela penetração de humidade que dá um encanto diferente ao nosso Norte.

Aprecio muito a Provença apesar dessa secura e do suposto vazio. Vejo-a fascinante na luz e nos seus perfumes, nas cores e nas flores dos seus jardins. E não me permito esquecê-la.

Mas de Moledo do Minho conheço todos os segredos.

 

 

 

 

 

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publicado às 19:23

Na praia da Arda

por Zilda Cardoso, em 24.06.14

 

 

 

Fomos hoje perto de Afife, Viana do Castelo, em busca de ondas.

Montavam no areal, na praia da Arda, um palco para o festival de surf. Muitas coisas vão acontecer por aqui – é o dia internacional do surf em 21 e é necessário comemorar dignamente. Com música, suponho.

O mar estava liso e airoso quando chegamos, mas, com a maré a baixar, uma hipótese de onda começou a formar-se. E os rapazes e as raparigas surfistas que aguardavam na praia entusiasmaram-se logo e entraram e foram por ali, a sós com a tábua (prancha, gritam-me do lado de lá) e a sua energia e o imenso desejo de ver para além, de ir mais longe, para onde talvez seja melhor. Para onde talvez o mundo seja melhor.

Fiquei olhando.

O sol ainda alto e brilhante, começava a descer e a pratear-se na água.

Um bom pintor faria uma aguarela maravilhosa desta cena. E nem precisava de ser tão bom nem de usar muito a imaginação! Tudo estava ao seu dispor. E ao nosso.

Estendo-me na areia liberta das maldades do sol pela sombra de um improvisado guarda. Fico tentando pensar, rodeada de mar e de dunas, sob o céu de várias belas tonalidades (incluindo índigo) que mudam sem descanso e se transformam com novas pinceladas e permanentes velaturas.

Fico quieta, de olhos cerrados: não quero estilhaçar nada.

O mar enrola sobre si desenrolando-se na areia com espuma muito branca, oiço o seu leve ruído cadenciado; uma pena de pombo jovem rola ao sabor do vento que sopra a espaços: é mais um murmúrio e a levíssima pena foge como se receasse uma violência.

Encontro uma concha minúscula e luzente, perfeitamente irregular que fica sendo o único vestígio material com que fico destas horas de Afife-sur-Mer nas vésperas de um festival de surf e de música.

O que evitará que me perca nesta harmonia de azuis e de verdes, de roxos, brancos e cinzentos. Nesta encantadora luz velada, de claríssimos roxos que continuam no horizonte estranhamente!

Voltarei a este lugar para notar as diferenças. Com um sorriso prevenido.

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publicado às 22:31

Moledo tem mais encanto...

por Zilda Cardoso, em 23.06.14

  

 

 Van Gogh ter-se-ia apaixonado pelo Minho se tivesse tido notícia destes lugares, se os tivesse visitado. Não tenho dúvida: teria ficado por cá, rendido.

E então talvez pudéssemos ver agora os seus campos de trigo não loucos nem secos e retorcidos, mas macios e húmidos, sem corvos e sem curvas, suaves, quase amorosos.

Estou em frente a um campo chão, grandíssimo, liso, em Moledo do Minho Aldeia, ao nível da estrada interior. Ninguém o semeou, mas hastes louras e altas que semelham trigo ondulam nele com brandura quando um vento vem e a sua pequena música as faz vibrar.

Apenas uma estreita faixa de milho de belo colorido, saudável e fresco, atravessa o chão alagadiço, o resto é essa erva alta e já seca de que colho alguns caules para as minhas jarras de Inverno.

 

 

 

Em tempos, ouvia chamar a este sítio, o paul, um lugar fértil e verde, fácil de trabalhar, um milheiral pertença de muitos e deveras estimado pela população que agora o abandona. O milho era para os animais que davam leite e que já não vivem por aqui.

Sento-me no banco de pedra, tendo a meu lado as hastes cortadas, louras e espigadas e fico por um tempo a reflectir, com um sol dardejante de Junho a dar-me de forma muito inconveniente.

Mas não resisto, fico: tento perceber a linguagem destes lugares; há anos que tento. Apenas sei os cheiros e recordo o brilho da água que não corre. As cores são esbatidas e não agradam a qualquer, e eu mesma teria preferido ver por entre os caules dourados papoilas e papoulas carmesim.

Alguém um dia descobrirá o segredo do seu permanente encanto. Porque ele continua aqui, quero dizer, em Moledo Aldeia e Praia, à mistura com a minha leve nostalgia.

E assim me vou finalmente com um sorriso que nem eu sei definir.

 

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publicado às 19:51

Agustina Bessa-Luís, Embaixada a Calígula

por Zilda Cardoso, em 18.06.14

"Entre uma multidão que se interpela, que se exprime afanosamente, que se chama à distância, que se abre em aberrantes votos de confiança, que se oferece, que se interessa, que arma pavilhões e convida amigos e desperta vizinhos, encontrar alguém que está calado e permite que façamos a seu respeito suposições erradas e fantásticas - isso é como descobrir a pedra filosofal.

Para o diabo o mundo elástico das boas intenções, as campaínhas no pescoço do belo senso; para o diabo os sindicatos da simpatia. o quase entendimento, a meia-verdade, o saltinho sobre o ombro da minúscula razoabilidade! Fechem as máquinas de falar, desandem os botões da verbosidade, façam má cara aos visitantes, despeçam os oradores oficiais, cancelem o contrato dos conferencistas. Silêncio, silêncio...

Escondam o rosto um momento, desçam as cortinas, preguem as janelas, chorem se quiserem, mas silêncio!

Dai tempo a ouvir um anjo que passa, uma cigarra que canta, uma pedra que rola, uma flor que morre. Também isto é sério, também isto é justo, também isto é revelação, e caridade, e inteligência.

Dai tempo a vós próprios que sois vivos e que o pudeis saber. E silêncio".

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publicado às 13:08